CAMINHO DO OURO

sábado, 10 de novembro de 2012

Explore caminhos e tradições dos antigos tropeiros (Transcrição)

Os índios tupi, argutos observadores da natureza, ancestrais habitantes das terras da Mantiqueira, forjaram este nome inspirados na grande quantidade de águas que vertem de suas inúmeras grotas. Amantykyra quer dizer, na linguagem indígena, onde a chuva goteja e se infiltra nas pedras. 
A serra úmida e nevoenta abriga um imponente maciço que se estende por longo trecho acima do planalto, no Vale do Paraíba, formando uma muralha natural entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nos tempos do Brasil Colônia, essa barreira era vigiada pelos guardas da coroa, que ali mantinham postos de arrecadação e fiscalização. O ouro extraído das jazidas mineiras era trazido no lombo dos burros em extenuantes jornadas pelas montanhas, para finalmente ser embarcado no litoral do Rio de Janeiro, nas cidades portuárias de Mambucaba e Paraty. Uma das etapas mais difíceis da jornada era cruzar as gargantas do alto da serra, no teto da Mantiqueira. 
Hoje, séculos depois, essa charmosa região ainda guarda traços vívidos dos tempos antigos, preservando as tradições dos velhos tropeiros dos caminhos do sopé da serra. Algumas imponentes fazendas do Ciclo do Café estão sendo restauradas e adaptadas para transformarem-se em hotéis. As estradas sinuosas receberam asfalto, mas nos muitos caminhos de terra batida ainda é possível avistar o típico carro de boi e a cangalha do burro de carga. 
Os aventureiros do turismo radical ganham os cumes das montanhas com suas mochilas coloridas. Pequenos sítios e propriedades rurais são agora novas e aconchegantes pousadas, prontas para receber casais românticos e famílias em busca de lugares diferentes para curtir a natureza. 
Nesse pequeno território, conhecido situa-se o Pico dos Marins (2.420 metros), um dos pontos culminantes da Mantiqueira, considerado durante décadas o mais alto do Estado de São Paulo. 
E é nessa terra de contrastes que também se descortina a cidade de Piquete, sede de um pequeno município de 160 quilômetros quadrados com 70% de seu território tomados por áreas de proteção ambiental, a 200 km da capital paulista. Seu nome deriva das antigas patrulhas (piquetes) que eram feitas pelos guardas da coroa para vigiar a garganta , por onde se esgueiravam os contrabandistas de ouro. 
A grande variação de altitudes - entre 696 a 2.400 metros - confere ao local atributos especiais, como um número expressivo de nascentes, cascatas, cachoeiras e riachos, que já tinham seduzido as populações indígenas e depois os tropeiros coloniais que ali se instalaram. Agora, não por acaso, essas terras testemunham um novo ciclo: o do ecoturismo. 
Misturando antigas tradições à boa culinária tropeira - ancorada na prática de oferecer pouso e comida aos viajantes, típica das vilas montanhosas -, a região tem tudo para se firmar como um pólo alternativo de turismo da natureza. Trilheiros, bikers, praticantes de vôo livre e muitas outras tribos radicais podem buscar nas alturas suas vastas emoções. 
Os mais acomodados também têm sua chance de passar bons momentos nos confortáveis hotéis-fazendas e pousadas rústicas. Tudo com muito charme, tradição e natureza preservada. 
Caminhos ao pé da serra - O município de Piquete é fruto de caminhos ao pé da serra. O terreno íngreme, de difícil acesso, ajudou a preservar as manchas de Mata Atlântica, o manancial de muitas águas e os campos rupestres que ainda resistem à atividade humana. Recortado por rios caudalosos como o Mendanha, Passa Quatro, Jaracatiá, Benfica e outros, o lugar desenvolveu-se na esteira do movimento daquelas tropas que por ali passavam. 
Os tropeiros costumavam abrir trilhas, muitas delas preservadas até hoje e que agora são utilizadas pelos ecoturistas para eventuais caminhadas e pedaladas. As íngremes encostas das montanhas continuam impondo dificuldades aos caminhantes. Mas foi também graças a elas que boa parte da floresta nativa resistiu à exploração econômica. Os tropeiros caminhavam, em média, 25 quilômetros por dia tocando sua tropa de burros, o que explica a distância entre uma cidade e outra em quase todo o Vale do Paraíba. Os ranchos, que serviam de abrigo aos viajantes, foram se transformando em cidades e bairros rurais. 
Pequenos ranchos - Piquete é um palco vivo desses velhos tempos, considerada a capital do tropeirismo. Muitas famílias dali ainda tiram seu sustento do transporte de mercadorias em cestos colocados no lombo dos burros, pois por causa do terreno acidentado este é o único meio de transporte viável para escoar a produção agrícola dos pequenos sitiantes. 
"Me traga uma mulher bonita e de cabelo bem comprido que eu faço rédeas com os cachos dela", brinca Francisco Domingos Pinto, conhecido por seu Chico, morador de um pequeno rancho na Estrada dos Marins. Nascido e criado na região, ele ainda fabrica, de forma artesanal, as cangalhas, selas e arreios para os burros tropeiros. Aos 70 anos de idade, conta ter aprendido o ofício de seleiro com seu pai, que por sua vez recebeu os ensinamentos do avô. 
Ele é apenas um dos muitos moradores que tiram seu sustento de atividades econômicas ligadas ao tropeirismo. A tropa de burros piquetense é considerada uma das maiores de todo o vale, além de contar também com carros de boi. Para preservar esses costumes em extinção foi criada a Associação Cultural dos Tropeiros e Carreiros de Piquete, que organiza um arquivo de informações sobre o assunto. 
Antigas sedes de fazendas de café do século 19 são outro traço marcante do passado que ainda se busca preservar por ali. Exemplos são as fazendas Santa Lydia e Novo Mundo, bem próximas da cidade. As duas já recebem hóspedes, mas estão investindo na melhoria dos equipamentos para ampliar a oferta de leitos. Fonte: Estadao.com.brSegunda-feira, 23 de Julho de 2001, 17:52  http://migre.me/bJ4pZ