sábado, 17 de dezembro de 2011

Brasil: 500 anos de guerra contra os índios (Transcrição)

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Na guerra vale tudo, principalmente a mentira. E os portugueses souberam empregá-la desde o início. Na sua Carta, Caminha informa El Rey que os índios "... não lavram, nem criam...". Niéde Guidon relata que a agricultura é praticada no Brasil a 4.000 anos, em todo território nacional a pelo menos 2.000 anos. Portanto, ao contrário do que escreveu o cronista os índios lavravam sim e há muito tempo. Através de inverdades como a registrada pela pena de Caminha os portugueses criaram a imagem do índio preguiçoso, indolente, desleixado, que ainda hoje combatemos. Foi assim que o europeu conferiu à sua guerra de conquista um caráter diferente, civilizatório. E agora que completamos 500 anos de história desta guerra movida aos índios chegou a hora de desmascararmos sua versão ideológica mostrando o que realmente ocorreu.
Além da mentira, os portugueses recorreram sistematicamente ao uso da força. Já em 24/02/1587 foi promulgada uma Lei tornando obrigatória a presença de missionários junto às "tropas" de descimentos(4). "Tropas", como? Se não estavam em guerra com os índios, porque os portugueses precisavam de "tropas"?
Os descimentos constituem um episódio importante da história desta guerra de conquista. Consistiam no deslocamento dos povos indígenas do sertão para aldeamentos junto aos portugueses. Aqueles que resistissem ao convencimento pacífico acabavam sendo conduzidos (descidos) a força. Segundo a legislação da época, as "tropas" só poderiam usar a violência em caso de "guerra justa". Beatriz Perrone-Moisés informa que a recusa à conversão ao catolicismo, a prática de hostilidades aos vassalos de El Rey e quebra dos pactos eram motivos suficientes para a declaração de uma "guerra justa".
Do exposto, pode-se concluir que a violência praticada pelos portugueses tinha duas faces. Uma pacífica outra terrível.
O descimento e a conversão ao catolicismo eram quase compulsórios. Os índios deviam abandonar suas terras e tradições ou estas em virtude de abandonar aquelas. Assim, sob o epíteto de convencimento pacífico esconde-se a verdadeira face dos atos praticados pelos invasores. O descimento e a conversão privava os índios a um só tempo do seu espaço físico e da sua liberdade de consciência. E isto é sem dúvida alguma uma violência. Pacífica, mas sempre violência. Os regulamentos determinavam que os aldeamentos deveriam preservar a unidade étnica. Tribos com línguas e culturas diferentes deveriam ficar em aldeamentos distintos. Como várias outras, esta norma nasceu morta. Desde o início os portugueses promoveram aldeamentos pluriétnicos, forçando tribos com diferentes línguas e culturas a conviverem num mesmo espaço territorial. Miguel A, Menéndez assevera que em 1716 uma parte dos índios Tora foi aldeada no Rio Abacaxis junto com contingentes de diversos grupos; em 1827 foi fundada uma missão na margem esquerda do Rio Madeira com índios Mura, Munduruku, Arara e Arupa(5). O aldeamento pluriétnico foi uma das maneiras mais eficientes que os portugueses e depois os brasileiros empregaram para destruir a identidade cultural dos povos indígenas a fim de dominá-los mais facilmente. 
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Fonte: http://migre.me/7bNpS

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