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Convivendo com a irmandade e atuando ali de forma comprometida (tomando iniciativas de trabalho, pagando os anuais ou mensalidades, assistindo regularmente à missa etc.), seus filiados fazem com que, no decorrer da vida, cada circunstância nessa associação seja também garantia de tratamento específico na ocasião da morte. O momento da morte, para eles, consiste em um momento de síntese em que, definitivamente, o “irmão” tem o acesso à experiência do ritual de pertencimento a uma dada tradição. Momento em que se pode evidenciar, pela última vez, a identidade daquele que morreu – ser ele um filiado de uma irmandade e que possui um dado valor social constituído no decorrer dos anos de filiação. Reconhecimento do valor que é expresso, por parte da irmandade, através do tipo de mortalha, do número de velas, de missas celebradas, do local do enterro (próximo da igreja), do cortejo que atravessa a cidade (“Quando eu morrer eu quero ir é pra lá, pra longe. Qualquer das duas Mercês que me enterrarem ‘tá bom. Eu quero que ‘ocês passeiam comigo pela cidade. ”), do específico toque de sino anunciando a morte do “irmão” a indicar inclusive o grau de participação que estabeleceu com a irmandade e funções etc. O sino ‘tá tocando, e é pr’um defunto, pelo irmão que morreu. Quando eu morrer eles mandam avisar, me dão um lugar na sepultura e não preciso d’eu ir lá pro municipal não. Assim, formaliza-se a preservação da memória daquele que partiu, fixada também pela placa de identificação da sepultura: “A placa da minha irmã Ifigênia ainda está lá. ”. Como a morte é mantida como um aspecto que merece atenção permanente, ao longo de toda a vida, os sujeitos que vivem uma experiência de filiação a uma irmandade de “negros” lidam com a vida e com a irmandade evidenciando um tom dramático, de tensão, ao mesmo tempo em que demonstram descontração, gosto em conviver. Tensão por viverem praticamente destituídos de privilégios ou garantias sociais de qualquer ordem – e nessa perspectiva a morte é sempre um risco iminente – e porque, embora saibam do valor do momento da morte e tenham buscado garantir tudo o que consideram indispensável, ainda assim, não têm a certeza de que irão receber, efetivamente, o que esperam. Compreendem que a concretização desses “direitos” depende de inúmeras circunstâncias e pessoas, como os seus familiares ou outros, da atenção e compreensão por parte dessas do valor do ritual para o falecido. Explicitam o que querem, gracejam, falam sério... mas não podem ter a certeza de que serão atendidos no último querer. O meu marido (...), a mãe dele falava que queria ser enterrado nas Mercês de Baixo. E quando ela morreu, enterraram ela aí. (...) Ele falava assim,− “defunto não fala”. (...) Aí eu falava com ele: – “mas eu quando eu morrer eu quero ir é pra lá, pra longe. ” (...) Eu falei assim, “sua mãe tinha vontade de enterrar nas Mercês de Baixo. ” E ele: (...) “A gente vai arrumar onde ‘tá mais prático. ” Enterrou aí mesmo na sepultura da família. Nessas circunstâncias, mais uma vez, eles se apresentam recorrendo à relação constituída, para além do imediato, com Deus e os santos. As expectativas se voltam para o que poderá vir pela intercessão deles. Afinal, tomados todos os cuidados, quem decide o que vai ocorrer (inclusive sobre o tempo de vida que terão) não são eles, mas Deus. E muitos também que às vezes não entravam com medo de morrer. (...) É supersticioso, acha que entrando na Irmandade vai morrer nela. Não! Morre no tempo que tem que morrer (...) Eu não tenho, que a vida quem dá é Deus. Então, ‘ocê podia viver muito tempo.
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Fonte: http://migre.me/7oZYV