domingo, 5 de fevereiro de 2012

TEORIA LUKACSIANA E O “HERÓI MEDÍOCRE” NA OBRA A MURALHA (Transcrição)

1. Introdução
O romance histórico teve suas primeiras expressões nos séculos XVII e XVIII, porém, é somente no início do século XIX que o estilo literário se consolida (Lukács 1966). Seu grande fundador, Walter Scott, coloca em exposição em seus romances um passado histórico capaz de representar uma  “pré-história do presente”, em que se mesclam personagens ficcionais e históricas, em uma construção em que se desvelam condutas, costumes, enfim, a cultura de um determinado povo e época. O pano de fundo se baseia em algum fato ou período histórico, em geral, relevante. Em  Ivanhoé, por exemplo, Scott narra a luta entre normandos e saxões, que mais tarde darão origem ao povo britânico. As Cruzadas e os reveses do reinado de Ricardo Coração de Leão misturam-se ao romance vivido por personagens fictícios como o próprio Ivanhoé e Lady Rowena. O estilo do romance histórico, no entanto, não surgiu em determinado momento, sem suas razões. Lukács, mesmo considerando que existiram alguns precursores do gênero em séculos anteriores, faz questão de demarcar o momento histórico em que ele se realiza. Afinal, é no início do século XIX, que através de concepções hegelianas, o contexto social e econômico europeu passa a propiciar o gênero. A decadência sem volta da Idade Média e seus costumes arcaicos, e a ascensão burguesa com seus ideais  iluministas; o advento do capitalismo e, sobretudo, a formação do Estado enquanto organização moderna da sociedade são características que impulsionaram um esclarecimento do passado histórico e de sua importância para uma consciência e espírito de nação: 
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2. Característiscas da teoria lukácsiana em  A Muralha: o romance  histórico dos Bandeirantes:
A obra A Muralha, de Dinah Silveira de Queiroz, foi encomendada à autora em homenagem à comemoração dos 400 anos da fundação da cidade de São Paulo, ocorrido no ano de 1954. O romance, narrado em terceira pessoa, conta a história de lutas, conquistas e massacres do povo paulista, entre o final do século XVII e início do século XVIII. A narrativa segue uma ordem temporal cronológica e é dividida em três capítulos: “Descoberta da Terra”, “A Madama do Anjo” e “Canção de Margarida”.  Internamente a essas três partes, há ainda divisão em  itens, apenas intitulados por números romanos. A ação se passa nos espaços  compreendidos pela Fazenda Lagoa Serena, localizada na então Vila de São Paulo do Campo de Piratininga; e pelo Sertão,  inseridas aí as regiões a serem desbravadas pelos paulistas, nas capitanias de São Paulo,  Bahia e Minas Gerais. O pano de fundo histórico é a Guerra dos Emboabas (1708-1709), luta travada entre os Bandeirantes (paulistas que saíam ao chamado “sertão”  – matas  – para a captura de índios  e procura de regiões auríferas) e os Emboabas (forasteiros portugueses e de demais regiões do Brasil) pela posse de jazidas de ouro encontradas em Minas Gerais: O conflito entre os sertanejos paulistas, pioneiros nas descobertas das minas, e os recém-chegados do litoral e da metrópole, alcunhados pelos paulistas de “emboabas”, não demorou a acontecer. Os primeiros senhores dos “descobertos” julgando ter privilégios em relação aos demais forasteiros, passaram a hostilizá-los. Aproveitando a ausência de representantes da Coroa, impunham sua vontade na repartição dos terrenos, ficando com os mais promissores. Os arraiais de mineradores cresciam sob os insultos dos paulistas e a submissão dos emboabas (Lopez; Mota 2008: 193). Uma luta sangrenta e o aspecto de uma “terra de ninguém”, em que aquele que chegasse primeiro construía sua própria lei de privilégios, se constitui no contexto para a história de Cristina e Tiago e da saga trágica da família de Dom Braz Olinto. Cristina, prima distante de Tiago, filho de Dom Braz, é prometida em casamento ao jovem rapaz. Vinda de Portugal, ela desembarca no Porto de São Vicente cheia de sonhos, carregada de sua educação do Reino e com a esperança romântica de encontrar um noivo apaixonado no “Novo Mundo”. Ao chegar, a personagem se depara com a realidade de uma terra ainda primitiva. Tanto a terra quanto sua gente, é descrita em detalhes na obra, como na passagem abaixo: 
                              Muito tempo depois ela se lembraria da primeira visão que tivera da Lagoa Serena. A lagoa, rente à pequena aldeia de casas e de compartimentos da Fazenda; e, descendo a encosta, os bois carregando um carro transbordando de lenha. Os edifícios – muitos – a casa alta, de taipa, com uma varanda, e mandando ao ar um fumaceiro alegre;moinho, as casas menores, o paiol, o muro a cercar a ilha edificada no mar de vegetação, e, diante do muro, no chão limpo, uma fila estranha, toda composta de mulheres. Ao centro, a cabeça altiva e branca de Mãe Cândida, batida de luz, os cabelos soprados pelo vento da tarde. E  ao lado, as filhas, a nora, todas com ar cerimonioso e ao mesmo tempo simples de disciplina (Queiroz 1971: 44).  
                        É nesse cenário que se desenrola a história das personagens da família, com destaque para as mulheres, que lutam muitas vezes sozinhas por sua sobrevivência, já que os homens passam longos meses no Sertão.
Nota: Piquete da Muralha, da Serra de Jaguamimbaba, itinerário Cultural e Espaço de Memória. Testemunho vivo,  da saga paulista, contida em "romance histórico dos Bandeirantes"; no Sertão da América Portuguesa, no Sertão da Capitania do Sul,  no Sertão dos Paulistas, no Sertão de Taubaté, no Sertão dos Índios Bravos, no Sertão de Sabaraçu.  


GUIA DA UNESCO - Una guía para la administración de sitios e itinerarios de memoria.

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