Patrimonializando a escravidão
No começo dos anos 1990, durante o processo de edemocratização,
a República do Benim passou a mostrar ao mundo aspectos de sua história e de suas culturas. Dentro dessas especificidades, se encontra o comércio atlântico de africanos escravizados, pois o atual país se encontra no âmago do que foi no passado o reino do Daomé, um dos maiores reinos escravagistas da África Ocidental. Foi durante os preparativos das comemorações dos 500 anos da chegada de Cristóvão Colombo às Américas que os representantes do Haiti chamaram a atenção para o fato de que pouca atenção tinha sido dada ao papel dos africanos na construção do Novo Mundo. A delegação haitiana lançou a ideia de desenvolver um projeto científico para preencher essa lacuna, que foi batizado com o título de Rota do Escravo. A discussão sobre a memória da escravidão no contexto local e, também, numa perspectiva mais abrangente não se mostrou uma tarefa simples. No começo, os idealizadores do projeto se propunham a discutir não somente o papel dos países europeus no comércio atlântico de escravos, mas, também, a lembrar a responsabilidade dos países africanos e muçulmanos no tráfico interno e no tráfico trans-saariano. Apesar disso, o projeto acabou sendo articulado somente em torno do comércio atlântico e foi dividido em cinco eixos: científico, educacional, artístico e cultural, conservação de arquivos e turismo cultural. Quase na mesma época do começo da discussão sobre o lançamento do projeto Rota do Escravo, colocou-se uma outra iniciativa sobre a mesa, o projeto do 1o Festival mundial das culturas vodu: reencontros Américas-Áfricas: Ajudá 92.14 O festival seria não somente uma ocasião de comemorar o vodu do reino do Daomé, 15 mas, também, as religiões americanas herdadas
da escravidão, entre as quais o vodu haitiano e o candomblé brasileiro. Na época, os objetivos, ao mesmo tempo convergentes e conflitantes dos dois projetos, foram objeto de debate nos jornais do país, entre os membros do governo e os chefes locais. 16 Devido a seu programa inclusivo, o festival Ajudá 92 obteve mais destaque que o projeto A Rota do Escravo e ocorreu em fevereiro de 1993. O momento da realização do festival foi bem escolhido, pois o país acabava de sair de uma ditadura, período durante o qual o vodu estava banido do espaço público. A iniciativa foi apoiada e patrocinada por vários chefes de Estado africanos, instituições e personalidades do mundo cultural e artístico. 17 Várias manifestações, entre as quais concertos, uma feira do livro e um festival de cinema vodu, tiveram lugar nas cidades de Ajudá, Porto Novo e Cotonou. Em Ajudá, quatro sítios foram organizados: a Casa do Brasil, a Floresta Sagrada, a Casa de Daagbo Hounon, chefe supremo do vodu em Ajudá e a Rota dos escravos, sobre o qual concentraremos nossa atenção nesse artigo. Construindo a Rota dos Escravos A Rota dos Escravos é uma estrada de chão batido que parte do centro da cidade, onde estava situado o mercado de escravos, indo até a praia, onde os cativos eram supostamente embarcados. Nessa estrada foram colocadas uma centena de estátuas de cimento, concebidas pelos artistas beninenses Cyprien Tokoudagba e Dominique Kouas. A maior parte das esculturas evoca vodus associados às forças da natureza, como Heviosso e Mammi Wata, mas principalmente os símbolos dos reis do Daomé, que se tornaram divindades do vodu. Outras esculturas representam igualmente os cativos enviados como escravos às Américas. Os lugares onde as esculturas e memoriais foram instalados, pontuam as diferentes etapas do caminho. Os templos do vodu já existentes na Rota foram decorados com pinturas realizados por diferentes artistas vindos da Nigéria, do Togo, do Haiti e do Brasil. O número de convidados estrangeiros, o apoio financeiro do governo de outros países e o panfleto do programa traduzido em inglês não deixam dúvidas de que o festival foi concebido como um lugar de encontro da diáspora africana.
A escolha do artista abomeano Cyprien Tokoudagba não se deu por
acaso. Iniciado ainda jovem à religião vodu, ele começou sua carreira pintando afrescos ilustrando temas ligados ao vodu nas paredes dos templos. Em seus primeiros trabalhos, Tokoudagba utilizava a argila e mais tarde ele passa a empregar o cimento e a areia. Tokoudagba foi então aconselhado a transpor os motivos pintados nos afrescos para as telas, que poderiam ser comercializadas no mercado estrangeiro. Em 1987, ele começou a trabalhar como restaurador de esculturas e baixos-relevos no Museu Histórico de Abomé e foi a partir dessa época que sua produção começou a ser notada. Em 1989, o artista viajou para o exterior pela primeira vez, para participar da exposição coletiva Les magiciens de la terre (Os mágicos da Terra), que teve lugar no Centro Pompidou, em Paris. A mostra marcou uma nova fase nas exposições europeias de arte contemporânea, pois, pela primeira vez, a crítica internacional deu um lugar de honra às obras de artistas não-ocidentais. Consagrado na França, durante os anos seguintes, Tokoudagba mostrou seus trabalhos em várias exposições coletivas e individuais internacionais, entre as quais a Bienal de São Paulo. Assim, o fato que o seu nome tenha sido escolhido para realizar a maior parte dos monumentos do festival Ajudá 92 foi motivado, de um lado, por sua reputação como artista e, de outro lado, pelo vodu já ser um tema privilegiado na sua obra. Para o visitante iniciado, a associação entre o vodu e o comércio atlântico de escravos é visível em toda a extensão do percurso. A Rota atravessa vários bairros, colocando em evidência sítios históricos e, também, os templos do vodu já existentes. Considerando que durante os séculos XVIII e XIX outros caminhos também conduziam até a praia e que uma parte do trajeto realizado pelos escravos não era feito a pé, mas dentro de canoas, devido à existência de uma rede lagoas, a Rota dos Escravos pode ser considerada como um percurso fictício. Se vários monumentos foram instalados nos lugares ocupados por sítios históricos, diferentes memoriais e estátuas foram colocados ao longo do caminho apenas para reforçar a ideia de continuidade, sem necessariamente marcar um evento ou um ponto de referência em particular: a verossimilhança do discurso histórico é bem menos importante do que a encenação da memória do tráfico atlântico de africanos escravizados.18 (Fonte: http://migre.me/aJoCJ)