Fonte: http://migre.me/e0ETh
MAPAS DE SANTOS - Caminho Geral do Sertão, via Alto da Serra, desfiladeiro de Itajubá, Meia Lua, Núcleo Embrião de Piquete-SP.
Fonte: Carta corográfica - Cap. de S. Paulo, 1766 .Apresentando o Estado Político da Capitania de São Paulo em 1766, foi elaborada esta carta, com particular atenção aos limites com Minas Gerais.(http://migre.me/aWncu)
A presença de São Tomé no Brasil já é registrada - pelo menos na cartografia - em 1507, no mapa-múndi de Waldseemüler, o mesmo que pela primeira vez cita como América a parte austral do continente. Lá está, um pouco acima do topônimo "S.Vincete", a citação "Serra S. Thome". Quando mais tarde o Brasil foi dividido em15 capitanias hereditárias, uma delas foi a de Paraíba do Sul, dada em 28/8/1536 a Pero Góis da Silveira, sendo também conhecida como Capitania de São Tomé. Retornando as terras à Coroa em 1753, deu origem à maior parte do atual Estado do Rio de Janeiro.
A lenda de São Tomé se difundiu rapidamente, tanto que em 1516 já se falava em sua estada na costa do Brasil. A primeira versão conhecida da presença de um discípulo de Jesus em terras americanas, aliás, é a chamada Nova Gazeta Alemã, referente à viagem de um dos navios armados por Dom Nuno Manuel, Cristóvão de Haro e outros - que, a 12 de outubro de 1514 aportava, já de torna-viagem, à Ilha da Madeira. O autor da publicação recolheu a bordo a notícia de que na costa brasileira os indígenas tinham recordação de São Tomé, acrescentando: "Quiseram mostrar aos portugueses as pegadas de São Tomé no interior do país. Indicam também que têm cruzes pela terra adentro. E quando falam de São Tomé, chamam-lhe o Deus pequeno, mas que havia outro Deus maior (...) No país chamam freqüentemente a seus filhos Tomé".
Acreditava-se então que as terras americanas tivessem ligação direta com a Ásia, e na própria Gazeta lê-se que o piloto da nau portadora daquelas notícias - presumivelmente o célebre João de Lisboa, já acostumado à navegação para a Índia - não acreditava achar-se o cabo e a terra do Brasil a mais de seiscentas milhas de Málaca, acreditando que a terra do Brasil continua, dobrando, até aquela localidade. Assim, seria "bem crível" que os indígenas tenham lembrança de São Tomé, "pois é sabido que está corporalmente por trás de Málaca: jaz na costa de Siramath, no Golfo de Ceilão".
Reforçando a idéia, a existência das pegadas do santo impressas nas rochas, em pelo menos cinco lugares da costa brasileira, como citado por Simão de Vasconcelos: para o Norte de São Vicente; em Itapoã, fora da barra da Baía de Todos os Santos; na praia do Toqué Toqué, dentro da mesma barra; em Itajuru, perto de Cabo Frio; e na altura da cidade de Paraíba, a sete graus da parte do Sul, para o sertão. Frei Jaboatão, dos Frades Menores, registra ter visto essas pegadas no lugar do Grojaú de Baixo, sete léguas distante do Recife (PE). Ambos citam a existência de dois conjuntos de pegadas, uma delas de uma pessoa menor ou um menino, e o fato de serem tais rochas - e a água que delas jorrasse - milagrosas. O costume de raspar as rochas para formar relíquias teria feito desaparecer essas marcas, mas as rochas serviram inclusive de referência em documentos oficiais como as cartas de doação de terras.
É possível apontar muitas semelhanças entre o lendário Chimé conhecido pelos budistas da cidade sagrada de Angkor Vat, no Camboja, e o Pai Sumé dos indígenas brasileiros - diferentes formas de pronunciar o nome do apóstolo de Cristo. Em terras sulamericanas, a maior obra de São Tomé teria sido a abertura da grande estrada que liga o litoral atlântico brasileiro até o Paraguai nas vizinhanças de Assunção - a mesma estrada que se tornou famosa com as entradas de Aleixo Garcia, Pero Lobo, Cabeza de Vaca e outros aventureiros castelhanos e lusitanos nos séculos XVI e XVII, como cita Sérgio Buarque de Holanda:
Chamavam-lhe os do lugar Peabiru e Piabiyu, por outro nome Caminho de São Tomé ou do Pay Zumé, que assim também era conhecido o misterioso personagem.
Na versão que da abertura desta estrada nos conservou o Padre Antônio Ruiz de Montoya, da Companhia de Jesus, alude-se à fama corrente, em todo o Brasil, entre os moradores portugueses e os naturais que habitavam a terra firme, de como o santo apóstolo principiou a caminhar por terra desde a Ilha de São Vicente, "em que hoje se vêem rastros, que manifestam esse princípio de caminho [...], nas pegadas que [...] deixou impressas numa grande penha, em frente à barra, que segundo público testemunho se vêem no dia de hoje, a menos de um quarto de légua do povoado".
"Eu não as vi", pondera o missionário, mas acrescenta que à distância de duzentas léguas da costa, terra adentro, distinguiram, ele e seus companheiros, um caminho ancho de oito palmos, e nesse espaço nascia certa erva muito miúda que, dos dois lados, crescia até quase meia vara, e ainda quando se queimassem aqueles campos, sempre nascia a erva e do mesmo modo.
"Corre este caminho", diz mais, "por toda aquela terra, e certificaram-se alguns portugueses que corre muito seguido desde o Brasil, e que comumente lhe chamam o caminho de São Tomé, ao passo que nós tivemos a mesma relação dos índios de nossa espiritual conquista".
Os relatos de outros jesuítas castelhanos, alguns de época muito mais tardia, concordam no essencial com o de Montoya e parecem, não raro, calcados sobre as suas palavras. Assim escreve, por exemplo, o Padre Pedro Lozano, aludindo em particular à província de Taiaoba, situada junto às cabeceiras do Piqueri, no Sul de Guairá: "Por esta provincia corre el camiño de Santo Tomé, que es el que trajo el gloriosissimo apostol por mas de 200 leguas desde la capitania de San Vicente, en el Brasil, y tiene ocho palmos de ancho, em cuyo espacio se le nace una yerba muy menuda que le distingue de toda la demás de los lados, que por la fertilidad cresce á media vara, y aunque agostada la paja, se quemen los campos, nunca la yerba del dicho camiño se eleva mas, en reverencia sin duda de las sagradas plantas que la hollaron, y para testimonio de las fatigas que en tierras tales padeceria el apostol primeiro de la América".
Também no Paraguai, e em sua própria capital, há registros sobre as pegadas do santo marcadas em rochas. Desde Assunção, seguia o caminho cerca de 200 léguas até a lagoa chamada do Paititi, mais uma corruptela do nome Pai Tomé. Dali, São Tomé teria passado ao Peru, onde foi conhecido como Pay Tumé, com sua lenda se enriquecendo aos poucos, não só com a recordação dos ataques que sofrera no Oriente - agora transpostos para enfrentamentos de índios traiçoeiros nas selvas sulamericanas - mas com detalhes como o de ganhar sandálias comuns no Paraguai e sapatos com sola tríplice no Peru, ele que segundo as primeiras pegadas andava descalço... Fonte:http://migre.me/e0FGj
Neste detalhe do mapa-múndi de Waldseemüller, de 1507, o topônimo "Serra S.Thome" no alto e a citação de "S.Vincete" na parte inferior do mapa, logo acima do Rio Cananéia.
Nota: Parafraseando, uma vez que em 1507, no mapa-múndi de Waldseemüler, o mesmo que pela primeira vez cita como América a parte austral do continente. Lá estando, um pouco acima do topônimo "S.Vincete", a citação "Serra S. Thome", não está em consonância com o Mapa de Santos, cujo traçado, transpondo o Alto da Serra, núcleo embrião de Piquete, desemboca em São Tome da Letras, Caminho Geral do Sertão?