quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Projeto A Rota do Escravo: Lições do Passado, Valores para o Futuro | United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (Transcrição)

Projeto A Rota do Escravo: Lições do Passado, Valores para o FuturoElie Wiesel escreveu: “O carrasco sempre mata duas vezes, a segunda vez, por meio do silêncio”. Historicamente, questões mundiais – como desenvolvimento, direitos humanos, pluralismo cultural e diálogo intercultural – têm sido caracterizadas pela total falta de consciência e de compreensão do tráfico transatlântico de escravos. Para romper o silêncio em torno do tema, a UNESCO lançou o Projeto Rota do Escravo, uma pesquisa mundial sobre os meios de se promover a aproximação de povos por meio do legado compartilhado dessa tragédia. No dia 10 de setembro, a UNESCO comemora o 20º aniversário desse projeto em sua sede, em Paris.“A rota do escravo não é apenas um evento do passado: é a nossa história e moldou o caráter de várias sociedades modernas, criou laços indissolúveis entre povos e continentes, e transformou de maneira irreversível o destino, a economia e a cultura de nações”, disse Irina Bokova, diretora-geral da UNESCO.
Desde 1994, o Projeto tem provocado um impacto significativo. Sua liderança ajudou a assegurar, em 2001, o reconhecimento oficial do tráfico de escravos como um crime contra a humanidade. “Por meio da proposta do Haiti e de países africanos, a UNESCO estabeleceu o Projeto A Rota do Escravo. Nós tomamos o cuidado de adotar uma abordagem holística e não acusatória, para reestabelecer o diálogo. Nós temos de entender essa tragédia que dividiu a humanidade; manter esse fato histórico envolto em silêncio constitui um obstáculo para construir a paz e a reconciliação. A UNESCO teve sucesso em inserir o tráfico de escravos na agenda internacional, ao mesmo tempo em que desenvolveu o conhecimento científico sobre a questão e promoveu a sensibilização em todo o mundo. Além de contribuir para o reconhecimento da escravidão como um crime contra a humanidade, nós ajudamos a instituir o dia 23 de agosto como Dia Internacional da Memória do Tráfico de Escravos e de sua Abolição. Nós estabelecemos Comitês Nacionais da Rota do Escravo (Cuba, Haiti, Benin, Portugal, México, Gana, etc.) e redes de instituições científicas (América Latina, Caribe, Mundo Árabe-Muçulmano, Oceano Índico, Américas, Europa etc.)”, disse Ali Moussa Iye, diretor do Projeto A Rota do Escravo.
Ao trabalhar por meio de uma ampla gama de programas culturais e educacionais, o Projeto visa a aumentar a conscientização sobre a escravidão e suas consequências. O Projeto mostra as contribuições dos povos escravizados no reconhecimento de direitos humanos universais. A UNESCO ajuda os Estados-membros a desenvolver pesquisas, a enriquecer suas próprias histórias nacionais e a facilitar o compartilhamento de memórias, por meio de iniciativas reconhecidas como a coleção “História Geral da África”. Outros exemplos incluem a formação de professores para ensinar sobre o tráfico de escravos, com o desenvolvimento de materiais pedagógicos, a preservação de sítios e arquivos memorialísticos e a promoção da interação cultural.
Para a UNESCO, a lembrança é um elemento-chave da luta contra o racismo. A transmissão da história do tráfico de escravos fortalece as bases para a paz, e aprofunda o respeito pelos direitos humanos. “O desafio de ‘viver juntos’ em nossas sociedades multiculturais implica o reconhecimento da história e da memória de cada pessoa e, ao mesmo tempo, o compartilhamento de um patrimônio comum, a fim de transcender as tragédias do passado”, disse Ali Moussa.
Atualmente, Marcus Miller, artista para a Paz da UNESCO e porta-voz do Projeto A Rota do Escravo, nos ajuda a levar adiante essa mensagem por meio de sua música. “A história da escravidão nos mostra que podemos superar. Que o mundo pode mudar para melhor. E que nós podemos fazer mais do que simplesmente sobreviver – nós podemos nos elevar!”, disse o grande músico de jazz.
O Projeto A Rota do Escravo mostra o poder da cultura na luta pela dignidade. Ele celebra o gênio artístico, surgido da interação de povos de diferentes continentes, por meio de expressões culturais que enriqueceram nossas sociedades e demonstraram a riqueza do diálogo intercultural. Vários gêneros musicais de todo o mundo – jazz, blues, soul, R&B, reggae, hip hop, tango, capoeira e muitos outros – têm raízes no tráfico de escravos. Essas expressões culturais, bem como um grande número de sítios históricos com fortes laços com o tráfico de escravos, como a Ilha Gorée (Dacar, Senegal), estão todos protegidos pelos programas da UNESCO de Patrimônio Cultural Imaterial e Patrimônio Mundial. A UNESCO promove esse patrimônio como uma ponte para o diálogo e a compreensão.“Essa história é parte da luta universal pelos direitos humanos e pela igualdade, e deve ser ensinada a crianças de todo o mundo como uma luta pela paz, como uma luta delas”, disse a diretora-geral. Essa história também pode fomentar o nosso pensamento sobre as sociedades multiculturais e multiétnicas atuais. Ela inspira as lutas que conduzimos na atualidade contra o preconceito e a discriminação racial, assim como contra todas as formas de escravidão que ainda atingem mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo.
O site
www.unesco.org transmitirá ao vivo a comemoração do 20º aniversário do Projeto. Utilizando a hashtag #slaveroute, o público poderá compartilhar suas ideias com ilustres palestrantes, como Abdou Diouf, ex-presidente do Senegal; Joachim Chissano, ex-presidente de Moçambique, Christiane Taubira, ministra da Justiça da França; Michäelle Jean, enviada especial da UNESCO para o Haiti; e Marcus Miller. Também serão mostradas tradições musicais surgidas na Rota do Escravo, por Tazenco Gwo Ka; Anuanga, dançarino masai; Mary Paz, eletropercussionista cubana; Sefarat’ al Khafaa, grupo musical gnaoua; e Afro Samba Project, grupo musical brasileiro. Essas expressões culturais todas têm raízes na África, e se tornaram parte do patrimônio comum da humanidade nos dias de hoje, entrelaçadas no tecido de sociedades de todo
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Fonte: http://migre.me/lIe9P