terça-feira, 25 de novembro de 2014

OS SERTÕES DA FOME: A HISTÓRIA TRÁGICA DAS MINAS DE OURO EM FINS DO SÉCULO XVII Adriana Romeiro1 (Transcrição)

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As fontes mostram que, uma vez instalados nas Minas, os paulistas reeditaram o velho costume de cultivar roças destinadas à subsistência,  mantendo plantações e criações junto às lavras e datas. Um pouco diferente,  contudo, era a situação daqueles que, provenientes da Europa e mesmo   da América Portuguesa, não estavam suficientemente familiarizados com as técnicas de sobrevivência nos matos. As dificuldades começavam pelo  caminho: sem poder contar com os recursos naturais, ficavam à mercê das  provisões que levavam e dos mantimentos vendidos à beira das estradas - segundo Ambroise Jauffret, os que partiam do Rio de Janeiro, por exemplo,  seguiam até Taubaté, onde  compravam milho, abóbora e feijão para serem consumidos ao longo de uma jornada de vinte dias, ao fim da qual chegavam ao Rio das Mortes, onde novamente se abasteciam para alcançar as minas  do Ribeirão do Carmo.15 Assim que chegavam as Minas, todos tratavam primeiro de plantar suas  roças nas imediações das datas minerais, instalando-se depois nos arraiais e  povoados, para esperar até que os mantimentos pudessem ser colhidos.16 Só então é que tinham início os trabalhos de mineração. Por sorte, os ritmos da  agricultura ajustavam-se perfeitamente aos ritmos da mineração: na estação  das águas, entre novembro e fevereiro, era praticamente impossível lavrar  os rios e ribeirões, em razão do grande volume de água; mas era a época  propícia para o plantio do milho, mandioca e feijão. Nos relatos, percebe se  a existência de um padrão bem definido: em novembro, antes de partir,  procedia-se à semeadura; regressava-se em fevereiro, quando se iniciavam a
colheita e os trabalhos de mineração. Entre o plantio do milho e a colheita,  eram necessários mais ou menos noventa dias. No caso do feijão, o ciclo girava  em torno de sessenta dias. Mais longo, o ciclo da mandioca tinha doze meses.  Apropriadamente, Sérgio Buarque de Holanda dá o nome de “civilização  do milho” à cultura dos paulistas, chamando a atenção para o papel decisivo  que o cereal desempenhou nas formas de subsistência da gente do Planalto.17 Nos sertões mineiros, o milho consumido prescindia da moagem, que era uma  técnica desconhecida pelos índios, que preferiam o milho verde cozido ou a  pipoca. Aliás, aos paulistas é atribuída uma preferência especial pela pipoca,  conhecida à época como “milho escolhido da brasa.” Nada se comparava, porém, ao consumo maciço do milho amadurecido, empregado para a fabricação da farinha – o verdadeiro pão da terra, nas palavras de Holanda - , e a canjica grossa, descrita pelo biográfo de Belchior de Pontes como um “guisado especial de São Paulo.” Talvez a principal razão pela preferência dada ao milho esteja na facilidade com que podia ser transportado por longas distâncias, sob a forma de grão, para ser depois semeado, ajustando-se, por isso mesmo, às exigências de mobilidade característica dos sertanistas.18 A dieta mameluca dos paulistas, herdeira de quase dois séculos de convivência com o universo cultural dos índios, deve ter  chocado os contemporâneos, sobretudo os europeus, pouco familiarizados com os recursos naturais da paisagem americana. De acordo com o estudos de Donald Ramos, grande parte dos portugueses que se deslocaram para Minas Gerais, nas primeiras décadas do século XVII, provinha do Norte de Portugal, premidos pela falta de terras, agravada com altas taxas de fecundidade.19 Familiarizados com a agricultura do milho, cuja introdução fora responsável pela explosão demográfica do século anterior, os portugueses do Norte dominavam suas técnicas de plantio, mas certamente desconheciam as técnicas de sobrevivência nos matos. A caça - essencial à sobrevivência nestes primeiros tempos – certamente pertencia ao repertório cultural dos camponeses pobres, mas a realidade geográfica e ecológica em que a praticavam era, em tudo, diversa da que se confrontavam nas Minas. Infelizmente, as fontes não permitem avançar a análise em direção aos complexos processos de circulação e mestiçagem cultural impostos pelo novo meio, e nos quais as  experiências radicalmente diferentes de povos africanos, europeus e indígenas confluíram para a constituição de um aprendizado de sobrevivência adaptado à ambiente do sertão. No caso dos paulistas, por exemplo, o exercício da caça havia assimilado por completo o arsenal bélico dos índios, e o arco e a flecha figuram, às centenas, nos inventários e testamentos  estudados por Alcântara Machado.
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Texto obtido em pesquisa realizada em 25 de Novembro pela internet.