domingo, 22 de março de 2015

Gestão de sítios históricos é tema de debate no segundo dia do Seminário Internacional (Transcrição)

Por Denise Porfírio e Drielly Jardim

 Dando continuidade ao Seminário Internacional “Herança, Identidade, Educação e Cultura: gestão de sítios históricos ligados ao tráfico negreiro e à escravidão”, as Reuniões Técnicas dos profissionais atuantes na preservação e na promoção de sítios e lugares de memória ligados à escravatura que aconteceu, na última terça-feira(21), contou com a presença de especialistas da África, das Américas, do Caribe, do Oceano Índico e da Europa.
Os especialistas africanos ressaltaram a dificuldade em repassar aos visitantes dos sítios históricos ligados a verdadeira história da escravidão. O diretor de Educação dos Museus de Gana e Conselho de Monumentos (GMMB), Stephen Korsah, ressaltou que a questão se torna ainda mais complicada, porque os africanos têm uma versão sobre a escravidão, enquanto os europeus e os livros de história apresentam outras versões. “Conhecer a verdadeira história é complicado, por isso, decidimos então mesclar e utilizar o que há nos livros e nos relatos orais da população”, contou.
Ao apresentar dados e fotos do Castelo de Cape Coast, uma fortificação construída em Gana por comerciantes suecos para o comércio de madeira e ouro e, utilizada mais tarde para o comércio transatlântico de escravos, Korsah falou sobre os desafios de conservação e preservação dos sítios de memória.
“São inúmeros os desafios, mas o nosso departamento cuida disso e faz parte das nossas boas práticas fazer o nosso melhor. Acreditamos que os alunos e a população local são agentes de disseminação, porque crescem ouvindo e vendo o trabalho que aplicamos. Por isso, temos certeza que no futuro, poderão transmitir esse conhecimento e passar para frente”, disse.
O historiador Charles Samson Akibode acredita que além da preservação, é preciso se preocupar com a melhoria de vida da população dos sítios históricos.Não podemos falar de turismo e riqueza se não pudermos falar em melhorar a vida dos moradores”, defende. “Ao capacitar e incentivar a busca pelas raízes, nós os inserimos no processo de conversação histórica necessária para manter viva a memória desses lugares”, completou.Akibode compartilhou com os participantes as práticas utilizadas em Cidade Velha, primeira capital de Cabo Verde e declarada como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, em 2009. Para ele, o modelo de gestão que melhor funciona em Cidade Velha é o participativo. “O modelo piramidal, onde as gestões vêm de cima para baixo, não é o ideal”, analisa. “Levamos em conta as preocupações da comunidade e, dessa forma, conseguimos envolvê-la em todas as decisões. Assim, se sentindo parte de tudo o que a Cidade é, essa população garante que a conversação história seja mantida”, afirma.
Paul Lovejoy, diretor do Harriet Tubman Institute for Research on the Global Migrations of African Peoples (Harriet Tubman Instituto de Pesquisa sobre as migrações globais dos povos africanos), surpreendeu os participantes ao falar da escravidão no Canadá. Segundo o especialista, as pessoas não pensam no Canadá quando pensam nos afrodescendentes e em escravidão, mas o Canadá tem uma história muito efetiva no que se refere ao tema. “O Canadá abrigou cerca de 20 mil afrodescendentes que escaparam da escravidão ou fugiram dos Estados Unidos, porque tinham medo de serem reescravizados, mesmo já sendo libertos”, contou.Lovejoy explicou que uma das preocupações canadenses é sobre como fazer com que os cidadãos aprendam o impacto da escravidão no mundo moderno e como fazê-los entender que escravidão é um crime. Para isso, o Canadá possui um programa de rastreamento de sítios da experiência afro-canadense, onde o reconhecimento dos lugares de memória é realizado em total cooperação com as comunidades.Luís Rocca Torres, representante do Peru, manifestou sua opinião e ressaltou a importância da promoção dos sítios de memória dos peruanos. A ideia é reunir o maior número possível de sítios e posteriormente submeter sua candidatura para avaliação da Unesco.
O Uruguai atua em parceria com o Paraguai e a Argentina para identificar seus sítios de memória com o objetivo de promover, preservar e valorizar o legado da ancestralidade africana deixado em seus países.
Karla Chagas, pesquisadora do Centro de Patrimônio da Nação do Uruguai, destacou o Caserio de lós Negros, porto de entrada de escravos no país, em 1788, localizado em Montevideo transformado em monumento em 2002, Casco Historico de Colonia Del Sacramento fundado por Portugal em 1690, Calera de las Huérfana de 1791, Oratorio de lós Correa de 1826 , característico pela forte presença da população brasileira.
Segundo a pesquisadora, a população afrodescendente do país é de apenas 10% em relação ao resto da população de origem europeia. Outro patrimônio uruguaio de destaque é candombe termo que se refere à danças e ritmos praticados pelos negros no Uruguai baseado nos tambores chamados de tangó ou tambó nome também usado para designar o lugar onde realizavam as candomberas. Essas manifestações culturais à céu aberto chegaram a ser reprimidas pelas autoridades no século XIX, e por muito tempo foram realizadas apenas em ambientes fechados, em clubes secretos organizados pelos africanos e afrodescendentes.
Representante do Haiti, Mireille Frombum afirma que as circunstâncias políticas e os desastres naturais ocorridos no país não destruíram a força do povo haitano. E exibiu fotos de um museu pertencente a sua família que foi transformado em um local de memória à serviço da história. Reconstruído a partir de ruínas, a missão principal do museu é trabalhar, sobretudo, com crianças para desenvolver a autoestima e a valorização da história do negro no país.
Mathieu Dussauge, representante da Rota do Escravo em Guadalupe é coordenador do programa Traços e Memórias inaugurado em 2010. O projeto permite conhecer melhor os sítios patrimoniais ligados à história da escravidão em todo conjunto do território caribenho. A intenção é unificar o trabalho da Unesco junto com todas as zonas do Caribe Latino e promover a Rota da Abolição da Escravatura que visa a valorização humana.O ministro dos Povos Indígenas e Afrodescendentes de Honduras, Luís Green Sales, fez um cumprimento em sua própria língua e chamou a atenção para a valorização das línguas, dialetos e tradições africanas. Ressaltou a importância da agenda negra no contexto sócio-cultural e político no sentido de torná-la visível àqueles que negam a sua existência. E lembrou de locais importantes como o Forte de Santa Barbara, Forte de São Fernando, Igreja das Dores, como valiosas contribuições africanas.
O evento está previsto para acabar, nesta quinta-feira (23), com o resumo das perspectivas para a instalação de itinerários de memória (educação, cultura e desenvolvimento local) e orientações para a elaboração do guia metodológico e conteúdos pedagógicos para os módulos de formação. 
Fonte:Seminário Internacional Rota do Escravo ~ http://migre.me/p8cmo