terça-feira, 17 de maio de 2016

“ O conceito de museu comunitário : história vivida ou memória para transformar a história?” 1 (Transcrição)


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Paulo Freire assinala que o homem é sujeito porque é um ser de relações, capaz  de refletir, de fazer crítica, de ser consciente de sua historicidade, de optar, de criar e transformar a realidade. Ser sujeito é a vocação ontológica do homem, pela qual não pode renunciar sem converter-se em um mero espectador dos feitos, um receptor de receitas AJENAS, um objeto. Para nós, o museu comunitário é uma ferramenta para a construção de sujeitos coletivos, enquanto as comunidades se apropriam dele para enriquecer as relações no seu interior, desenvolver a consciência da própria história, propiciar a reflexão e a crítica e organizar-se para a ação coletiva transformadora. Ser sujeito implica auto-conhecimento e o museu comunitário é uma ferramenta  para que a comunidade construa um auto-conhecimento coletivo. Cada pessoa que participa selecionando os temas a estudar, capacitando-se, realizando uma entrevista ou sendo entrevistado, reunindo objetos, tomando fotografias, fazendo desenhos, está conhecendo mais a si mesmo e ao mesmo tempo está conhecendo a comunidade à qual pertence. Está elaborando uma interpretação coletiva de sua realidade e de sua história. Ser sujeito igualmente implica criatividade e o museu comunitário propicia a criação coletiva toda vez que oferece uma oportunidade às pessoas que participem dos processos coletivos para expressar suas histórias de sua própria maneira. A pessoa criativa não aceita soluções dadas, busca inventar novas formas de abordar sua  realidade e o museu comunitário é um espaço de organização para impulsionar novas propostas e projetos comunitários. Assim, o museu comunitário é uma opção diferente do “ mainstream museum” ou museu tradicional. A instituição do museu surgiu com base em uma história de concentração de poder e riqueza , que se refletia na capacidade de concentrar tesouros e troféus arrancados a outros povos. Para Napoleão, Paris era o lugar onde as obras tinham “ seu verdadeiro lugar para honra e progresso das artes, sob o cuidado da mão de homens livres” e alimentou o Louvre de troféus de guerra dos lugares que caíam sob seu império. O museu comunitário tem uma genealogia diferente : suas coleções não provêm de despojos , mas de um ato de vontade. O museu comunitário nasce da iniciativa de um coletivo não para exibir a realidade do outro mas para defender a própria. È uma instância onde os membros da comunidade livremente doam objetos patrimoniais e criam um espaço de memória. Em um museu comunitário o objeto não é o valor predominante, mas sim a memória que se fortalece ao recriar e reinterpretar as histórias significativas. Ansaldinos assinala, “nada pode viver com uma brutal amputação da memória”, quer dizer, não podemos recordar-nos de quem somos, não podemos ser sujeitos, sem recriar e elaborar nossa própria memória. Assim, os membros da comunidade utilizam o museu comunitário para recriar como eram as coisas antes, para reviver eventos e práticas que os marcaram. Porém o museu também é um instrumento para analisar a memória, para reinterpretar o passado e discernir o aprendizado de experiências anteriores. No museu comunitário as pessoas inventam uma forma de contar suas histórias e dessa maneira participam, definindo sua própria identidade em vez de consumir identidades impostas. Criam novo conhecimento em vez de amoldar-se a uma visão central, à interpretação dominante da história nacional que sempre os exclui e os esquece ou (os manipula os registros). Lutam contra uma longa história de desvalorização, ao valorizar suas histórias e os feitos cotidianos da vida comunitária. Assim, se apropriam de uma instituição criada para a elite para afirmar-se e legitimar seus próprios valores O museu comunitário se converte em  uma ferramenta para manejar o patrimônio sob as formas do poder comum. Por um lado, serve para manter ou recuperar a posse de seu patrimônio cultura material e por outro, permite uma apropriação simbólica do que é seu, ao elaborar o que significa em sua própria linguagem. Através do museu, a  comunidade busca exercer poder sobre o que é seu e luta contra a expropriação. Essa luta ela a desenvolve por meio de suas próprias formas de organização, a assembléia geral ou outras, onde as pessoas da comunidade tomam decisões sobre o que mostrar no museu, como dirigi-lo e que prioridades têm.
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Fonte: Teresa Morales Lersch e Cuauhtémoc Camarena Ocampo Centro INAH Oaxaca   http://www.abremc.com.br/pdf/5.pdf