sábado, 22 de outubro de 2016

A Colonização Ecológica do caminho do Ouro: mineração e devastação no século XVIII. por Alexia Helena de Araujo Shellard* Mestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) (Trascrição)

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Caminho Velho
Em menos de trinta dias, marchando de Sol a Sol, podem chegar os que partem da  Cidade do Rio de Janeiro ás Minas Geraes [...] da Cidade do Rio de Janeiro foraõ a  Paratijs. De Paratijs a Taubatê. De Taubatê a Pindamonhangâba. De Pindamonhangâba  a Guaratingaetâ. De Guaratingaetâ ás Roças de Garcia Rodrigues. Deftas Roças ao  Ribeiraõ. E do Ribeiraõ com oitos dias mais de Sol a Sol chegaraõ ao Rio das Velhas.  (ANTONIL, 1711, p. 163) Uma das primeiras rotas do ouro no Brasil, o Caminho Velho incluía, na verdade,  não apenas o trecho terrestre descrito acima, mas também uma parte percorrida por vias  marítimas, de Parati a Sepetiba, de onde, novamente por terra, os carregadores seguiam  até a cidade do Rio de Janeiro através das roças da fazenda Santa Cruz. Nos atentamos,  contudo, à região localizada nos entornos da via terrestre entre as minas e o porto de Parati.  Coberto originalmente por densa vegetação característica das florestas tropicais úmidas, o  trecho da costa até a Serra da Mantiqueira era apenas um prenúncio dos árduos obstáculos que  teriam que ser superados ao longo de centenas de quilômetros e dezenas de dias de viagem.  Nos arredores da vila de São Francisco das Chagas de Taubaté encontrava-se o Caminho  Velho com a trilha oriunda de São Paulo de Piratininga. Ao longo das primeiras décadas do século  XVII, esse entroncamento foi desviado para Pindamonhangaba e posteriormente para Guaratinguetá,  diminuindo a distância entre a Freguesia do Falcão (que originou Cunha) e o Rio Paraíba (SANTOS,  2001). Após cruzar a Garganta do Embaú – um dos vales mais baixos da Serra da Mantiqueira, os relatos  encontrados passam a ser vagos e contraditórios: Antonil (1711) cita as roças de Garcia Rodrigues  tanto no Caminho Novo quanto no Velho; não se pode afirmar se é uma questão de homonímia  ou se as roças de Rodrigues realmente tinham essa vasta extensão. O pai de Garcia Rodrigues Paes,  Fernão Dias, de fato, foi um dos pioneiros desbravadores dos sertões dos Cataguás; assim, as mercês  concedidas pela Coroa Portuguesa por papel tão crucial no desenvolvimento da exploração aurífera  de Minas Gerais podem, porventura, ter beneficiado seu herdeiro com tão vasta propriedade. O frágil mapeamento do interior brasileiro, que já vinha sendo explorado desde o século XVI,  apenas se aprimorou ao longo do processo de exploração aurífera do século XVIII. Paralelamente  ao surgimento e crescimento de arraiais e povoados, muitos dos acidentes geográficos nos arredores  do Caminho Velho foram identificados e nomeados, facilitando o efetivo reconhecimento dos  lugares citados. A evolução da produção cartográfica sobre as Minas ao longo do século XVIII  demonstra uma drástica mudança de perspectiva: enquanto as imagens dos séculos anteriores  mostram uma massa homogênea de terra representando o interior da América Portuguesa; os mapas  do século XVIII são repletos de toponímia, especialmente aqueles que retratavam as Minas Gerais. A descoberta de ouro no sertão dos Cataguás em fins do século XVII ocorreu como  resultado do esforço contínuo de inúmeras gerações, que desde o século anterior vinham  explorando as Américas em busca de metais preciosos (ZEMELLA, 1990). Diversas lendas  se difundiam pelas áreas colonizadas, assim como pelas metrópoles, sobre o potencial  aurífero do ‘novo’ continente, impetrando diversos movimentos de interiorização: a busca  de Sabarabuçu, montanha resplandecente que os europeus imaginavam revestida de ouro  ou prata (BOXER, 2000), promoveu, em certa instância, a colonização do sertão mineiro.  Alguns pesquisadores sustentam, no entanto, que paulistas já haviam encontrado jazidas  de ouro anteriormente nos sertões interiores, ocultando das autoridades coloniais tais descobertas,  para que não perdessem o domínio da região-cerne de sua economia (COSTA, 2005; HOLANDA,  1996). Afinal, com a notificação da Coroa sobre tais tesouros, de fato, o controle da região deixou  as mãos bandeirantes passando a ser efetivamente uma função oficial da metrópole. Assim,  embora pela infinidade de descaminhos, continuassem a subsistir atividades proibidas pela Coroa,  a liberdade outrora desfrutada pelos paulistas e outros grupos pioneiros é severamente restringida  com o avanço do empreendimento colonial.Diversas espécies exóticas foram introduzidas nos  ecossistemas mineiros, muitas vezes competindo com espécies nativas pelos recursos do meio;  grandes áreas de floresta foram desmatadas para sustentar lavouras e pastos. Além disso, a  exploração aurífera dos depósitos aluvionais provocou transformações na qualidade das águas,  afetando todo a extensão dos ecossistemas através do efeito cadeia e assoreando diversos rios  da região. Grandes áreas de montanhas foram desmatadas e erodidas com a busca do ouro de  grupiara. Enfim, a mineração gerou severos impactos ambientais ainda hoje não cicatrizados. Através das hipóteses do historiador Alfred Crosby (2011), tentamos contextualizar  as transformações dos sertões mineiros em uma conjuntura mais ampla denominada  academicamente como Columbian Exchange. Esse termo designa o intercâmbio de espécies,  idéias e pessoas que se processou a partir das ‘descobertas’ marítimas do século XV. Conectando  todos os continentes do planeta, com exceção da Antártica, essa troca teria sido, na visão de  muitos pensadores ocidentais, um dos maiores e mais importantes eventos da história da  humanidade, contribuindo para a diluição de diferenças culturais e ambientais entre os lugares.  Outras idéias nas quais nos apoiamos partem do livro de Warren Dean sobre a Mata Atlântica (1996):  segundo o autor, a região das minas teria sofrido um esvaziamento populacional ao longo dos  primeiros séculos de colonização portuguesa em função dos patógenos trazidos nos navios europeus;  assim a floresta estaria sofrendo na época das primeiras descobertas oficiais de ouro um processo de  sucessão ecológica natural. A colonização européia do século XVIII, contudo, altera esse processo  natural e institui uma nova dinâmica ambiental com a introdução de espécies de seres vivos do ‘Velho  Mundo’ que operam numa tendência à homogeneização cultural e ambiental (CROSBY, 2011).
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  Sertão
A idéia de sertão no período colonial está relacionada, mais do que a atributos físicos, a uma  percepção sócio-cultural do espaço; os sertões seriam as terras interiores ‘não-civilizadas’, zonas de  litígio e conflito, habitadas por selvagens (RIBEIRO, 2008). Nesse sentido, o ambiente do sertão  seria caracterizado não necessariamente pelo clima seco e a vegetação rala, mas por uma natureza  não-domesticada, hostil. Na visão européia, as florestas densas e exuberantes se enquadravam  nessa classificação, não havia animais e plantas familiares aos naturais do Velho Mundo, tudo  era novo. Desvinculado do domínio europeu, os sertões seriam os espaços desconhecidos,  indomados, habitados por feras e homens ferozes, ‘mundos sem forma’ (WEGNER, 2000). Mas, assim como a população nativa, vista a partir de uma perspectiva dúbia – fonte de  mão-de-obra e conflitos – o sertão embutia também promessas de riqueza: correndo “para o  ocidente por um largo espaço [...] sabia-se [...] consistir de terras férteis, nas quais se poderiam  instalar lavouras e criação de gados e fundar vilas e cidades. Podia ainda abrigar minas de  metais, salitre e pedras preciosas” (SANTOS, 2010, p. 34-35). Cabia à metrópole a incorporação  desse sertão ambíguo e movediço que recuava e avançava segundo o movimento da fronteira  de colonização luso-brasileira (RODRIGUES, 2003). Os pioneiros paulistas aderiram à vida  errante em busca de escravos e terras num primeiro momento, e posteriormente, em busca  de ouro. Necessitavam assim se adaptar às condições impostas por uma natureza ‘selvagem’ e  dependiam, para isso, de um conhecimento de que apenas os ameríndios dispunham. A cultura  ameríndia fornecia as bases técnicas e materiais para que colonos lusos pudessem efetuar  suas explorações espaciais: os indivíduos indígenas serviam como guias, decifravam trilhas  e apresentavam recursos de sobrevivência no ambiente selvagem; além disso, trabalhavam  compulsoriamente nos empreendimentos paulistas ou eram vendidos aos engenhos do nordeste. No início, portanto, os intercursos entre portugueses e nativos, especialmente em  termos materiais, foram íntimos e positivos, permitindo o estabelecimento de fortes vínculos  entre conquistadores e terra conquistada – ou a conquistar (WEGNER, 2000). O equipamento  técnico do Velho Mundo, contudo, não funcionava nesses sertões do ‘Novo Mundo’, implicando  em uma reavaliação de hábitos e concepções europeus. A adoção do milho na dieta alimentar,  dos pés descalços nas trilhas e do arco e flecha na caça reflete a adaptação dos portugueses  às asperezas do meio nesse primeiro momento em que a fronteira exige um constrangimento  das heranças externas às tradições indígenas acomodadas previamente àquele ambiente. A penetração do sertão somente foi possível mediante essa nativização/indianização do  português bandeirante (DEAN, 1996; WEGNER, 2000) ocorrida além das vilas. Nessas, porém,  embora houvesse elementos nativos como a língua e o milho, a relação de dominação do europeu  sobre o índio e o mameluco era bastante enfatizada, particularmente através de signos de status como  sapatos de couro e velas. Gradualmente em conformidade com a difusão das instituições e estruturas  européias que acompanhavam o avanço da fronteira, os mamelucos foram perdendo prestígio, assim  como os legados indígenas, não mais necessários após a retomada das tradições do ‘Velho Mundo’. A transposição da cultura européia, então, não acontece de modo pleno, mas de acordo  com as demandas cotidianas de um novo ambiente, resultando em uma nova dinâmica entre meio-cultura-sociedade. Os portugueses incorporam práticas da cultura indígena atribuindo-lhe novas  lógicas e significados. Os portugueses e seus descendentes culturais luso-brasileiros, na tentativa  de reproduzir no Brasil não apenas suas instituições sociais, mas um espaço físico familiar ao  ‘Velho Mundo’, impõem sua cultura e ‘natureza’ a um espaço vasto e heterogêneo, importando  matérias e imatérias, costumes, animais, plantas, crenças. No decorrer de um século, forças  políticas e econômicas concorreram para alterar inteiramente o perfil cultural e ecológico dos  sertões de minas: enquanto o sertão dos Cataguases contava no século XVI com uma população  escassa (provavelmente em função das viroses trazidas com os navios europeus) e dispersa,  predominantemente indígena e mameluca; ao longo setecentos, a região transformou-se numa  área populosa com alta concentração demográfica em determinados centros, e com elevado índice  de populações africanas, afrodescendentes e brancas – quase inexistentes no século anterior. Há, portanto, uma grande ruptura na dinâmica espacial do interior brasileiro no século  XVIII: como esclarece Santos (2008), antes da conquista européia, as relações sócio-ambientais  ameríndias eram regidas basicamente por lógicas locais, sendo imprescindível certa continuidade  ambiental para manter intactos os ethos indígenas. A chegada dos portugueses, que atuam a partir  de imperativos ultraoceânicos, impõe uma nova lógica que se sobrepõe aos interesses locais; para  os adventícios, não há necessidade de manter equilíbrio ambiental, pois não há correspondência  direta entre os ambientes nativos e os meios de vida coloniais. A metrópole e os colonos visavam  apenas explorar as riquezas das minas de maneira rápida sem atentar para questões ecológicas que,  direta ou indiretamente, constavam no imaginário ameríndio. Além disso, nem a cultura negra  nem a branca haviam sido forjadas na interação com aqueles meios específicos, não há identidade. Apesar da soberania portuguesa, as influências ameríndias impactaram permanentemente  as relações entre luso-brasileiros e natureza: nas primeiras décadas de ocupação não-indígena das  Minas Gerais, a técnica majoritariamente adotada pelos colonos para cultivo de espécies vegetais  originara-se da coivara adaptada, porém a uma lavoura mais intensiva. Mesmo quando em meados  do século XVIII, a Coroa tenta incutir métodos sedentários para facilitar a cobrança de impostos,  os horticultores relutam em adotar o arado; se por um lado isso revela a importância das raízes  indígenas na formação da cultura mineira; por outro, a necessidade de suprir a população nos  padrões de base européia, a partir de uma técnica nativa, teria custado, segundo Dean (1996) cerca  de seiscentos quilômetros quadrados de floresta secundária anuais ao longo do século XVIII.