sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

África, Diáspora e o Mundo Atlântico na Modernidade: perspectivas historiográficas Amailton Magno Azevedo1

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 (Transcrição) À história do reino do Benim é atribuída uma imagem de força, riqueza e glória. São memórias da sua infância “en Eboe” que emergem e o reconfortam diante da violência da escravidão vivida na embarcação. Vassa prefere esse campo de conforto, pois eram as vivências que antecederam a dor do desterramento e deslocamento da sua cultura provocado pelo tráfico. Essas lembranças, no entanto, permitem-nos ir penetrando na vida cotidiana do reino, suas instituições, costumes e valores.Nuestra vida es enteramente simple, ya que, hasta el presente, los nativos desconocen los refinamientos culinarios que corrompen el paladar: bueyes, chivos y aves constituyen la mayor parte de su alimento y son, a la vez, la principal riqueza del país e los artículos fundamentales de su comercio. Las carnes se guisan en cazuelas: para darles sabor a veces usamos pimienta y otras especias y empleamos cenizas de madera a modo de sal. Nuestros vegetales son principalmente plátanos, ñames, frijoles y maíz.30 Junto aos costumes culinários relata os costumes de higienização na relação com os alimentos: “siempre nos lavamos las manos antes de tocar los alimentos; de hecho, nuestra pulcritud es extrema en todo momento, pero aquí resulta una ceremonia indispensable”31.Essas práticas estavam também vinculadas a rituais religiosos, na medida em que o ato de alimentar-se era também um ato de comunicação e respeito aos ancestrais, oferecendo uma pequena quantidade de bebida derramada ao chão e uma porção de comida deixada em determinados lugares para os antepassados para proteger e livrá-los do infortúnio32.A arquitetura das moradias obedecia mais à funcionalidade do que ao ornamento estético. Cada chefe de família possuía “un gran pedazo rectangular de terreno” para organizar e administrar a vida da aldeia. Como responsável pela organização da vida cotidiana, era do chefe a moradia localizada no centro do terreno para demonstrar seu prestígio e autoridade diante dos demais habitantes, de suas mulheres, filhos e escravos.
Vassa faz um ajuste de contas com sua própria história que havia ficado num tempo marcado por lembranças de um povo alegre e afável como “las principales características de nuestra nación”; onde “los nativos”  acreditavam “en la existencia de un Creador de todas las cosas”; onde os médicos e curandeiros possuíam conhecimentos para livrar os doentes de suas enfermidades praticando “sangrías aplicando ventosas y eran muy diestros en curar heridas y extraer venenos”33, ou ainda revelando o seu treinamento militar para se transformar em um guerreiro desde a mais tenra idade seguindo a tradição de seus antepassados34. Com a escravização, passa a conviver com os horrores do Atlântico. Os sentimentos de desconfiança, incerteza, sofrimento e temores diante da nova realidade dão o tom das experiências vividas por Vassa. Ele testemunha a violência praticada pelos brancos em relação aos escravos definindo-os como “salvaje” posto a violência com que praticavam a escravidão: “De inmediato, varios miembros de la tripulación me manosearon y me revisaron para comprobar si estaba sano; tuve el convencimiento de que había entrado en un mundo de malos espíritus que iban a matarme”35.Na cultura de Vassa, a forma como é tratado, o ambiente do navio, a prática do tráfico estavam associados ao mundo dos infortúnios. Se para os brancos significa comércio e lucro, para ele significava o mundo dos espíritos malévolos. O seu relato traz a memória de outros povos escravizados que também expressam pavor diante da escravidão: “una multitud de negros de todos los tipos encadenados unos a otros con expresión de abatimiento y pesar en cada uno de sus rostros”36.
São expressões que mostram a tristeza, resultado do abandono forçado da África. A escravidão provocaria uma ruptura temporal na memória dos escravos. Haveria um tempo do antes, com registro das vivências culturais da África, e o outro tempo marcado pelo agora, do deslocamento e renovação de sentidos. Construir percepções no tempo da escravidão significava confundirem-se com os códigos dos brancos, suas atitudes, valores e sentimentos. Vassa expressa temores e dúvidas em relação ao comportamento agressivo dos traficantes. “Les pregunté si no habríamos de ser comidos por aquellos hombres blancos de aspecto tan horrible, caras rojas y pelo suelto”37. Um temor que para Vassa fazia sentido, pois ele estava vivendo as privações, as violências, a desesperança e a crueldade. Diante disso, a morte não era descartada como uma possibilidade de escapar à dor. Ele “deseaba que la última amiga, la muerte” viesse reconfortar-lhe. Adotar essa perspectiva significava perder a esperança de um dia retornar à África. Agora era encarar os “sufrimientos que son inseparables de este maldito comercio38.
(1)
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Nota: 
“A Dignidade exige que sejamos nós mesmos.
Mas a Dignidade não é somente que sejamos nós mesmos.
Para que haja Dignidade é necessário o outro.
E o outro só é outro na  relação conosco.
A Dignidade é então um olhar.
Um olhar a nós mesmos que também se dirige ao outro olhando-se e olhando-nos.
A Dignidade é então reconhecimento e respeito.
Reconhecimento do que somos e respeito a isto que somos, sim, mas também reconhecimento do que é o outro e respeito ao que ele é.
A Dignidade então é ponte e olhar e reconhecimento e respeito.
Então a Dignidade é o amanhã .
Mas o amanhã não pode ser se não é para todos, para os que somos nós e para os que são outros.
A Dignidade é então uma casa que nos  inclui e inclui  o outro.
A Dignidade é então uma casa de um só andar, onde nós e o outro temos nosso próprio lugar, isto e não outra coisa é a vida, e a própria casa.
Então a Dignidade deveria ser o mundo, um mundo que tenha lugar para muitos mundos.
A Dignidade então ainda não é .
Então a Dignidade está por ser.
A Dignidade então é lutar para que a Dignidade seja finalmente o mundo.
Um mundo onde  haja  lugar para todos os mundos.
Então a Dignidade é e está por construir.
É um caminho a percorrer.
A Dignidade é o amanhã ”..
Este nos parece ser o grande desafio do momento atual da humanidade. Um mundo onde parece que só uns têm lugar. “A Dignidade é um caminho a percorrer. A Dignidade é o amanhã”.(2)
(1) Fonte: http://migre.me/7lnxf
(2) Fonte: http://migre.me/7lpPx 

GUIA DA UNESCO - Una guía para la administración de sitios e itinerarios de memoria.

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