A Violência no Caminho de Goiás e o Quilombo do Ambrósio
O grande perigo da "Picada de Goías", eram os quilombos e, quanto à
violência praticada pelos quilombos e quilombolas, Luiz Gonzaga da
Fonseca, no seu livro "História de Oliveira", na página 37, descreve o caos provocado no Caminho de Goiás, a Picada de Goiás, pelo quilombolas do Quilombo do Ambrósio, o principal quilombo de Minas Gerais:
"Não há dúvida que esta invasão negra fora provocada por aquele
escandalosa transitar pela picada, e que pegou a dar na vista demais. Goiás era uma Canaã.
Voltavam ricos os que tinham ido pobres. Iam e viam mares de
aventureiros. Passavam boiadas e tropas. Seguiam comboios de escravos.
Cargueiros intérminos, carregados de mercadorias, bugigangas, minçangas,
tapeçarias e sal. Diante disso, negros foragidos de senzalas e de
comboios em marcha, unidos a prófugos da justiça e mesmo a remanescentes
dos extintos cataguás, foram se homiziando em certos pontos da estrada
("Caminho de Goiás"
ou "Picada de Goiás"). Essas quadrilhas perigosas, sucursais dos
quilombolas do rio das mortes, assaltavam transeuntes e os deixavam
mortos no fundo dos boqueirões e perambeiras, depois de pilhar o que
conduziam. Roubavam tudo. Boidadas. Tropas. Dinheiro. Cargueiros de
mercadorias vindos da Corte (Rio de Janeiro). E até os próprios comboios
de escravos, mantando os comboeiros e libertando os negros trelados. E
com isto, era mais uma súcia de bandidos a engrossar a quadrilha. Em
terras oliveirenses açoitava-se grande parte dessa nação de “caiambolas
organizados” nas matas do Rio Grande e Rio das Mortes, de que já falamos. E do combate a essa praga é que vai surgir a colonização do território (de Oliveira (Minas Gerais) e região). Entre os mais perigosos bandos do Campo Grande, figuravam o quilombo do negro Ambrósio e o negro Canalho.[9]"
O “Caminho de Goiás”, ou seja, a Picada de Goiás, foi oficialmente reaberto em 1736-1737. O Quilombo do Campo Grande,
atravessado pela Picada de Goiás, deve ser dividido em duas partes: 1ª)
até 1746, quando os limites da Comarca de São João Del Rei chegavam
oficialmente apenas até a Capela da Laje, hoje, Resende Costa-MG. Daí
para frente, como confirmou o próprio Inácio Correia Pamplona [10],
tudo era “Campo Grande e Picadas de Goiases”, nome que os novos
entrantes foram levando até o Piuhi, hoje, Piumhi-MG. 2ª) Daí para
frente, após 1750-1759, é que a expressão Campo Grande, sempre
atravessado pela Picada de Goiás, foi estendida para dar nome geral
também à margem esquerda do São Francisco, adentrando o Triângulo
Goiano, hoje, Mineiro.
Quanto à violência atribuída aos quilombolas, o assunto também deve ter como marco divisor o ano de 1750. O imposto da Capitação,
implantado em 1735, provocou o esvaziamento das vilas e arraiais
oficiais, com a fuga dos brancos pobres e pretos forros com seus
respectivos escravos para os sertões do Campo Grande, frustrando os
planos arrecadadores de Portugal[11].
Gomes Freire de Andrade articulou e obteve a legislação de 1741,
simplificando o conceito de quilombo (qualquer povoação poderia ser
chamada de quilombo), criminalizando o simples fato de se estar em um
quilombo, passando a pagar duas tomadias por quilombola preso nesses
quilombos e ampliando a competência dos capitães-do-mato para que
pudessem também cobrar a Capitação
e confiscar bens e escravos pelos atrasos no pagamento. Fez isto para
confundir os devedores do imposto da Capitação com os quilombolas comuns[12].
A partir daí, esse governador procurou demonizar a presença quilombola
nessa região, cuja violência apregoada só é noticiada em suas
correspondências e nas de seus subordinados, quase inexistindo em outras
fontes da época.
Enquanto a correspondência oficial demonizava a violência quilombola,
as reclamações das câmaras das vilas (eleitas pelos homens bons)
comunicavam sem cessar as violências do imposto da Capitação
que, cobrado de seis em seis meses a força de armas pelos
capitães-do-mato, estava esvaziando as vilas e levando a Capitania à
última pobreza[13].
As batalhas mais conhecidas de ataques a supostos quilombolas foram
as dos anos de 1741, 1742, 1743 e 1746, sendo que nesta última,
comandada pelo capitão Antônio João de Oliveira, teria ocorrido o embate
contra a Primeira Povoação do Quilombo Ambrósio (Cristais-MG), sobre a
qual há vários indícios de que as tropas de Gomes Freire de Andrade não
saíram vitoriosas e que, ao contrário, podem ter sido derrotadas. Mais
de 3.500 escravos capitados em 1746, sumiram definitivamente das listas a
partir capitação de 1747[14] .
Em 1748, a Coroa Portuguesa mandou extinguir a Capitania de São
Paulo, a qual passou ser um simples “distrito” da Capitania do Rio de
Janeiro. Gomes Freire de Andrade, imediatamente, mandou anexar às Minas
Gerais o atual Sudoeste de Minas que, até então, *pertencia à extinta
Capitania de São Paulo. Assim, esse governador passou a demonizar, como
se quilombolas fossem, também os habitantes das povoações pobres dessa
região recém esbulhada.
Em 1750, morreu o rei Dom João V. Seu sucessor, Dom José I, fez seu
primeiro ministro o futuro Marquês de Pombal, cujo primeiro ato foi
abolir o sistema tributário da Capitação,
alegando, em outras palavras, que ou se acabava com a Capitação, ou a
Coroa corria o risco de perder não só a Capitania de Minas Gerais, mas a
própria Colônia[15].
A partir daí, várias outras leis foram modificadas e/ou criadas,
favorecendo um pouco mais os brancos pobres e os pretos forros
inadimplentes da Capitação
que, assim, foram aos poucos voltando para as vilas oficiais. Depois da
Guerra de 1746, mas principalmente depois da extinção da Capitação, a
população quilombola do Campo Grande voltaria a ser majoritariamente de
escravos fugidos e vai se deslocando para a margem esquerda do rio São
Francisco em direção ao Triângulo Goiano que, por falha de Gomes Freire
de Andrade, deixara de ser anexado às Minas Gerais em 1748.
Em 1759, Gomes Freire, através de seu irmão José Antônio Freire de
Andrade, mandou fazer outra guerra contra o novo Campo Grande que,
então, já abrangia as atuais regiões do Alto São Francisco, Alto
Paranaíba, Triângulo e Sudoeste Mineiros. Desta vez, o
capitão-comandante contratado foi Bartolomeu Bueno do Prado. Nestas
batalhas, aí sim, as tropas do governo teriam saído vitoriosas
destruindo todas as povoações do Campo Grande de então.
Inácio Correia Pamplona
foi contratado por Gomes Freire e pelos seus sucessores para criar
fatos político-administrativos que permitissem, juridicamente, o
abocanhamento do então Triângulo Goiano. Pamplona, durante cerca de
quarenta anos, gerou um monte de falsas informações, demonizando ainda
mais os quilombolas – sem nunca ter se defrontado pessoalmente com
qualquer deles – e deformando os fatos de 1741 a 1758, alterando ora
suas datas, ora suas verdades fáticas, mas sempre transferindo-os
absurdamente para dentro do então Triângulo Goiano.
Pamplona morreu em 1810. O Triângulo Goiano foi anexado à então
Província de Minas Gerais em 1815-1816. A partir de 1897 até 1910, a
Revista do Arquivo Público Mineiro – APM publicou sucessivas matérias,
contendo mais falsas informações, em fontes de segunda, das câmaras de
Tamanduá (Itapecerica-MG) e de São João Del Rei, conseguindo, assim,
manter em erro a gerações e gerações de historiadores acerca da
localização do Quilombo do Ambrósio e da verdade sobre suas lutas, onde
se estigmatizou ainda mais a violência atribuída aos quilombolas, isto,
com a evidente intenção de esconder o genocídio gerado pela Capitação e,
ao mesmo tempo, tentar justificar o esbulho pocessório praticado contra
a Capitania de Goiás.
Em relatório de 1769 ao Conde de Valadares, falando de um anterior
ataque que o tenente José da Serra Caldeira fizera a um negro que
encontrou e prendeu no extinto Quilombo de São Gonçalo, foi informado
que os quilombolas daquele quilombo se “ocupavam em fazer farinha para
os mais, as quais o mesmo comandante confiscou junto com vários trastes e
panos de algodão feitos ricamente pelos mesmos negros”, razão porque
resolveu registrar o fato que lhe fora relatado por José Serra e juntar o
croqui do quilombo, “para admiração do muito que eles trabalham para
si”[16].
Como conciliar o informe oficial de uma cruel violência quilombola,
com o fato concreto também sempre constatado e relatado pelos próprios
atacantes oficiais desses quilombos de que os encontraram,
invariavelmente, com grandes paióis cheios de mantimentos, com hortas e
roças plantadas para o futuro, as quais sempre gastaram dias e dias para
queimar e destruir? Onde esses quilombolas arrumariam tanto tempo para
ficarem roubando e matando pelas estradas?
Aliás, o próprio Pamplona deixou escrito no seu relatório de 1769 ao
Conde de Valadares, que o Quilombo do Ambrósio era “não afamado nestas
minas como prejudicial aos moradores delas, (...)”[17].
As Cartas Chilenas, em 1788, se referiram ao “afamado quilombo em que
viveu o Pai Ambrósio”, sem qualquer conotação com violências.
Portanto, as informações bibliográficas antigas, assim como suas
citações e cópias, sobre as exageradas maldade e violência atribuídas
aos quilombolas mineiros do século XVIII padecem, em geral, do
preconceito e da unilateralidade de suas fontes, geralmente apenas as
oficiais, como tem comprovado o pesquisador Tarcísio José Martins, em
seus livros e sites de informações históricas sobre a Confederação
Quilombola do Campo Grande[18].