segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Quilombo do Ambrósio

A Violência no Caminho de Goiás e o Quilombo do Ambrósio

O grande perigo da "Picada de Goías", eram os quilombos e, quanto à violência praticada pelos quilombos e quilombolas, Luiz Gonzaga da Fonseca, no seu livro "História de Oliveira", na página 37, descreve o caos provocado no Caminho de Goiás, a Picada de Goiás, pelo quilombolas do Quilombo do Ambrósio, o principal quilombo de Minas Gerais:
"Não há dúvida que esta invasão negra fora provocada por aquele escandalosa transitar pela picada, e que pegou a dar na vista demais. Goiás era uma Canaã. Voltavam ricos os que tinham ido pobres. Iam e viam mares de aventureiros. Passavam boiadas e tropas. Seguiam comboios de escravos. Cargueiros intérminos, carregados de mercadorias, bugigangas, minçangas, tapeçarias e sal. Diante disso, negros foragidos de senzalas e de comboios em marcha, unidos a prófugos da justiça e mesmo a remanescentes dos extintos cataguás, foram se homiziando em certos pontos da estrada ("Caminho de Goiás" ou "Picada de Goiás"). Essas quadrilhas perigosas, sucursais dos quilombolas do rio das mortes, assaltavam transeuntes e os deixavam mortos no fundo dos boqueirões e perambeiras, depois de pilhar o que conduziam. Roubavam tudo. Boidadas. Tropas. Dinheiro. Cargueiros de mercadorias vindos da Corte (Rio de Janeiro). E até os próprios comboios de escravos, mantando os comboeiros e libertando os negros trelados. E com isto, era mais uma súcia de bandidos a engrossar a quadrilha. Em terras oliveirenses açoitava-se grande parte dessa nação de “caiambolas organizados” nas matas do Rio Grande e Rio das Mortes, de que já falamos. E do combate a essa praga é que vai surgir a colonização do território (de Oliveira (Minas Gerais) e região). Entre os mais perigosos bandos do Campo Grande, figuravam o quilombo do negro Ambrósio e o negro Canalho.[9]"
O “Caminho de Goiás”, ou seja, a Picada de Goiás, foi oficialmente reaberto em 1736-1737. O Quilombo do Campo Grande, atravessado pela Picada de Goiás, deve ser dividido em duas partes: 1ª) até 1746, quando os limites da Comarca de São João Del Rei chegavam oficialmente apenas até a Capela da Laje, hoje, Resende Costa-MG. Daí para frente, como confirmou o próprio Inácio Correia Pamplona [10], tudo era “Campo Grande e Picadas de Goiases”, nome que os novos entrantes foram levando até o Piuhi, hoje, Piumhi-MG. 2ª) Daí para frente, após 1750-1759, é que a expressão Campo Grande, sempre atravessado pela Picada de Goiás, foi estendida para dar nome geral também à margem esquerda do São Francisco, adentrando o Triângulo Goiano, hoje, Mineiro.
Quanto à violência atribuída aos quilombolas, o assunto também deve ter como marco divisor o ano de 1750. O imposto da Capitação, implantado em 1735, provocou o esvaziamento das vilas e arraiais oficiais, com a fuga dos brancos pobres e pretos forros com seus respectivos escravos para os sertões do Campo Grande, frustrando os planos arrecadadores de Portugal[11].
Gomes Freire de Andrade articulou e obteve a legislação de 1741, simplificando o conceito de quilombo (qualquer povoação poderia ser chamada de quilombo), criminalizando o simples fato de se estar em um quilombo, passando a pagar duas tomadias por quilombola preso nesses quilombos e ampliando a competência dos capitães-do-mato para que pudessem também cobrar a Capitação e confiscar bens e escravos pelos atrasos no pagamento. Fez isto para confundir os devedores do imposto da Capitação com os quilombolas comuns[12]. A partir daí, esse governador procurou demonizar a presença quilombola nessa região, cuja violência apregoada só é noticiada em suas correspondências e nas de seus subordinados, quase inexistindo em outras fontes da época.
Enquanto a correspondência oficial demonizava a violência quilombola, as reclamações das câmaras das vilas (eleitas pelos homens bons) comunicavam sem cessar as violências do imposto da Capitação que, cobrado de seis em seis meses a força de armas pelos capitães-do-mato, estava esvaziando as vilas e levando a Capitania à última pobreza[13].
As batalhas mais conhecidas de ataques a supostos quilombolas foram as dos anos de 1741, 1742, 1743 e 1746, sendo que nesta última, comandada pelo capitão Antônio João de Oliveira, teria ocorrido o embate contra a Primeira Povoação do Quilombo Ambrósio (Cristais-MG), sobre a qual há vários indícios de que as tropas de Gomes Freire de Andrade não saíram vitoriosas e que, ao contrário, podem ter sido derrotadas. Mais de 3.500 escravos capitados em 1746, sumiram definitivamente das listas a partir capitação de 1747[14] .
Em 1748, a Coroa Portuguesa mandou extinguir a Capitania de São Paulo, a qual passou ser um simples “distrito” da Capitania do Rio de Janeiro. Gomes Freire de Andrade, imediatamente, mandou anexar às Minas Gerais o atual Sudoeste de Minas que, até então, *pertencia à extinta Capitania de São Paulo. Assim, esse governador passou a demonizar, como se quilombolas fossem, também os habitantes das povoações pobres dessa região recém esbulhada.
Em 1750, morreu o rei Dom João V. Seu sucessor, Dom José I, fez seu primeiro ministro o futuro Marquês de Pombal, cujo primeiro ato foi abolir o sistema tributário da Capitação, alegando, em outras palavras, que ou se acabava com a Capitação, ou a Coroa corria o risco de perder não só a Capitania de Minas Gerais, mas a própria Colônia[15]. A partir daí, várias outras leis foram modificadas e/ou criadas, favorecendo um pouco mais os brancos pobres e os pretos forros inadimplentes da Capitação que, assim, foram aos poucos voltando para as vilas oficiais. Depois da Guerra de 1746, mas principalmente depois da extinção da Capitação, a população quilombola do Campo Grande voltaria a ser majoritariamente de escravos fugidos e vai se deslocando para a margem esquerda do rio São Francisco em direção ao Triângulo Goiano que, por falha de Gomes Freire de Andrade, deixara de ser anexado às Minas Gerais em 1748.
Em 1759, Gomes Freire, através de seu irmão José Antônio Freire de Andrade, mandou fazer outra guerra contra o novo Campo Grande que, então, já abrangia as atuais regiões do Alto São Francisco, Alto Paranaíba, Triângulo e Sudoeste Mineiros. Desta vez, o capitão-comandante contratado foi Bartolomeu Bueno do Prado. Nestas batalhas, aí sim, as tropas do governo teriam saído vitoriosas destruindo todas as povoações do Campo Grande de então.
Inácio Correia Pamplona foi contratado por Gomes Freire e pelos seus sucessores para criar fatos político-administrativos que permitissem, juridicamente, o abocanhamento do então Triângulo Goiano. Pamplona, durante cerca de quarenta anos, gerou um monte de falsas informações, demonizando ainda mais os quilombolas – sem nunca ter se defrontado pessoalmente com qualquer deles – e deformando os fatos de 1741 a 1758, alterando ora suas datas, ora suas verdades fáticas, mas sempre transferindo-os absurdamente para dentro do então Triângulo Goiano.
Pamplona morreu em 1810. O Triângulo Goiano foi anexado à então Província de Minas Gerais em 1815-1816. A partir de 1897 até 1910, a Revista do Arquivo Público Mineiro – APM publicou sucessivas matérias, contendo mais falsas informações, em fontes de segunda, das câmaras de Tamanduá (Itapecerica-MG) e de São João Del Rei, conseguindo, assim, manter em erro a gerações e gerações de historiadores acerca da localização do Quilombo do Ambrósio e da verdade sobre suas lutas, onde se estigmatizou ainda mais a violência atribuída aos quilombolas, isto, com a evidente intenção de esconder o genocídio gerado pela Capitação e, ao mesmo tempo, tentar justificar o esbulho pocessório praticado contra a Capitania de Goiás.
Em relatório de 1769 ao Conde de Valadares, falando de um anterior ataque que o tenente José da Serra Caldeira fizera a um negro que encontrou e prendeu no extinto Quilombo de São Gonçalo, foi informado que os quilombolas daquele quilombo se “ocupavam em fazer farinha para os mais, as quais o mesmo comandante confiscou junto com vários trastes e panos de algodão feitos ricamente pelos mesmos negros”, razão porque resolveu registrar o fato que lhe fora relatado por José Serra e juntar o croqui do quilombo, “para admiração do muito que eles trabalham para si”[16].
Como conciliar o informe oficial de uma cruel violência quilombola, com o fato concreto também sempre constatado e relatado pelos próprios atacantes oficiais desses quilombos de que os encontraram, invariavelmente, com grandes paióis cheios de mantimentos, com hortas e roças plantadas para o futuro, as quais sempre gastaram dias e dias para queimar e destruir? Onde esses quilombolas arrumariam tanto tempo para ficarem roubando e matando pelas estradas?
Aliás, o próprio Pamplona deixou escrito no seu relatório de 1769 ao Conde de Valadares, que o Quilombo do Ambrósio era “não afamado nestas minas como prejudicial aos moradores delas, (...)”[17]. As Cartas Chilenas, em 1788, se referiram ao “afamado quilombo em que viveu o Pai Ambrósio”, sem qualquer conotação com violências.
Portanto, as informações bibliográficas antigas, assim como suas citações e cópias, sobre as exageradas maldade e violência atribuídas aos quilombolas mineiros do século XVIII padecem, em geral, do preconceito e da unilateralidade de suas fontes, geralmente apenas as oficiais, como tem comprovado o pesquisador Tarcísio José Martins, em seus livros e sites de informações históricas sobre a Confederação Quilombola do Campo Grande[18].

GUIA DA UNESCO - Una guía para la administración de sitios e itinerarios de memoria.

Ficha 22: Ruta de la libertad (A Rota da Liberdade), São Paulo, Brasil (A Rota da Liberdade), São Paulo, Brasil ■ ANTECEDENTES ■ ANTECED...