Bonecos gigantes, turbantes, saiotes, colar de
contas, batuque e muita música e dança. Aparecida (173 km de São
Paulo), a capital brasileira da fé, está acostumada a receber
anualmente, cerca de 7 milhões de romeiros das mais variadas partes do
país. Todos têm um objetivo em comum: visitar o Santuário da Mãe
Aparecida, rainha e padroeira do Brasil. Devoção e silêncio imperam.
Mas quando São Benedito "reina", a quietude do lugar se rende
ao ritmo, a dança, a música e a cor.
Tudo começa no Domingo de Páscoa, com a primeira
novena. O batuque típico da Irmandade de São Benedito avisa
diariamente que a reza vai começar, trazendo consigo, num pequeno
cortejo, o rei e a rainha para primeiro dia de orações, na Igreja de São
Benedito. Esta talvez seja uma das poucas manifestações exclusivamente
religiosas existentes no período. A tradição iniciada em 1909 se
repete. A área em volta da igreja - toda enfeitada com bandeirinhas
coloridas - é tomada por barracas que vendem comes e bebes. Toda a
cidade vive em função da festa que chega a reunir 50 mil pessoas
durante os 9 dias. Acontece de tudo. Enduro de motos, gincana com os
alunos das escolas, congadas, moçambiques, shows musicais e bonecos
gigantes que divertem a garotada.
O ponto alto tem início no sétimo dia de festa
quanto é prevista a chegada dos grupos folclóricos. São as congadas,
os moçambiques, as marujadas e às vezes, os caiapós. Eles vêm de
Belo Horizonte, Contagem, Bom Despacho e de outras cidades mineiras. Vêm
do interior de São Paulo, Atibaia, Lorena, Taubaté, Piracaia. Negros
em sua maioria. Trazem consigo os bastões, a espada, o pandeiro, os
guizos ou paiás amarrados nos joelhos. Latinhas cheias de pedra se
transformam em instrumento poderoso de percussão na hora da dança e da
música.
As vestimentas e adornos são dignos da realeza.
Muitas fitas coloridas, lantejoulas e miçangas que brilham à luz do
sol fazem gente simples virar rei. As coroas, muitas à base de papel
dourado, demonstram o sincretismo religioso. "Carregam a cruz, símbolo
do Cristianismo e a meia lua dos mouros, os árabes africanos seguidores
da doutrina do profeta Maomé. Em suas danças, os grupos geralmente
simulam o combate entre mouros e cristãos ou resgatam as guerras de
seus antepassados na África", explica a historiadora Cáscia
Frade, da Comissão Nacional do Folclore - órgão ligado à Unesco.
Eles chegam no Sábado, na antevéspera da grandiosa
festa de São Benedito. À noite, após a realização da novena do sétimo
dia, os grupos folclóricos têm encontro marcado, às 20 horas, na
antiga Matriz (Basílica Velha). Vão prestar homenagem a Santa
Padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Depois descansam para enfrentar a árdua
maratona dos dois dias seguintes, quando acontecem diversas manifestações
como a Missa Conga, o Levantamento do Mastro, a Alvorada e procissões.
Dançam e cantam num ritmo alucinante em louvor ao santo negro,
cozinheiro e descendente de escravos.
Passados mais de 90 anos, a Festa de São Benedito em
Aparecida é referência de cultura popular e sincretismo, sendo
considerada uma das principais manifestações folclórico-religiosas
existentes no interior de São Paulo. Suas origens históricas remetem
à Península Ibérica, à Idade Média, quando Portugal e Espanha
viviam sob domínio dos mouros. Época das Cruzadas em que os
cavaleiros, sob a bandeira de santos católicos, partiam em defesa da fé
cristã, com o objetivo de reconquistar os antigos lugares sagrados.