segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Histórias - Quando São Benedito Reina na Terra da Padroeira (Texto de Ana Cláudia Siqueira)

Bonecos gigantes, turbantes, saiotes, colar de contas, batuque e muita música e dança. Aparecida (173 km de São Paulo), a capital brasileira da fé, está acostumada a receber anualmente, cerca de 7 milhões de romeiros das mais variadas partes do país. Todos têm um objetivo em comum: visitar o Santuário da Mãe Aparecida, rainha e padroeira do Brasil. Devoção e silêncio imperam. Mas quando São Benedito "reina", a quietude do lugar se rende ao ritmo, a dança, a música e a cor.
Tudo começa no Domingo de Páscoa, com a primeira novena. O batuque típico da Irmandade de São Benedito avisa diariamente que a reza vai começar, trazendo consigo, num pequeno cortejo, o rei e a rainha para primeiro dia de orações, na Igreja de São Benedito. Esta talvez seja uma das poucas manifestações exclusivamente religiosas existentes no período. A tradição iniciada em 1909 se repete. A área em volta da igreja - toda enfeitada com bandeirinhas coloridas - é tomada por barracas que vendem comes e bebes. Toda a cidade vive em função da festa que chega a reunir 50 mil pessoas durante os 9 dias. Acontece de tudo. Enduro de motos, gincana com os alunos das escolas, congadas, moçambiques, shows musicais e bonecos gigantes que divertem a garotada.
O ponto alto tem início no sétimo dia de festa quanto é prevista a chegada dos grupos folclóricos. São as congadas, os moçambiques, as marujadas e às vezes, os caiapós. Eles vêm de Belo Horizonte, Contagem, Bom Despacho e de outras cidades mineiras. Vêm do interior de São Paulo, Atibaia, Lorena, Taubaté, Piracaia. Negros em sua maioria. Trazem consigo os bastões, a espada, o pandeiro, os guizos ou paiás amarrados nos joelhos. Latinhas cheias de pedra se transformam em instrumento poderoso de percussão na hora da dança e da música.
As vestimentas e adornos são dignos da realeza. Muitas fitas coloridas, lantejoulas e miçangas que brilham à luz do sol fazem gente simples virar rei. As coroas, muitas à base de papel dourado, demonstram o sincretismo religioso. "Carregam a cruz, símbolo do Cristianismo e a meia lua dos mouros, os árabes africanos seguidores da doutrina do profeta Maomé. Em suas danças, os grupos geralmente simulam o combate entre mouros e cristãos ou resgatam as guerras de seus antepassados na África", explica a historiadora Cáscia Frade, da Comissão Nacional do Folclore - órgão ligado à Unesco.
Eles chegam no Sábado, na antevéspera da grandiosa festa de São Benedito. À noite, após a realização da novena do sétimo dia, os grupos folclóricos têm encontro marcado, às 20 horas, na antiga Matriz (Basílica Velha). Vão prestar homenagem a Santa Padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Depois descansam para enfrentar a árdua maratona dos dois dias seguintes, quando acontecem diversas manifestações como a Missa Conga, o Levantamento do Mastro, a Alvorada e procissões. Dançam e cantam num ritmo alucinante em louvor ao santo negro, cozinheiro e descendente de escravos.
Passados mais de 90 anos, a Festa de São Benedito em Aparecida é referência de cultura popular e sincretismo, sendo considerada uma das principais manifestações folclórico-religiosas existentes no interior de São Paulo. Suas origens históricas remetem à Península Ibérica, à Idade Média, quando Portugal e Espanha viviam sob domínio dos mouros. Época das Cruzadas em que os cavaleiros, sob a bandeira de santos católicos, partiam em defesa da fé cristã, com o objetivo de reconquistar os antigos lugares sagrados.

GUIA DA UNESCO - Una guía para la administración de sitios e itinerarios de memoria.

Ficha 22: Ruta de la libertad (A Rota da Liberdade), São Paulo, Brasil (A Rota da Liberdade), São Paulo, Brasil ■ ANTECEDENTES ■ ANTECED...