domingo, 5 de agosto de 2012

Anais do XV Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 29 e 30 de setembro de 2010. (Mariana Uhrigshardt Farrão e Profa. Dra. Jane Victal Ferreira)

ESTUDO SOBRE OS ANTIGOS CAMINHOS DO PLANALTO NO  PERÍODO COLONIAL
Resumo: A primeira forma de mobilidade presente no sertão da Capitania de São Vicente foi pautada  pelos caminhos dos desbravadores, que utilizavam como base de exploração do território, as rotas indígenas juntamente com o favorecimento geográfico associado ao sistema hidrográfico de cada região. No caso do Vale do Paraíba, a exploração do ouro foi orientada pelo rio Paraíba do Sul, resultando na  abertura de um importante caminho que ligava São Paulo, às Minas Gerais e ao Rio de Janeiro. Intensificado o fluxo neste caminho devido ao favorecimento da economia na região, bem como presença das Serras da Mantiqueira e do Mar, este fluxo influenciou na formação de diferentes localidades ao longo do rio Paraíba do Sul, sendo essencial para estabelecer um panorama geral de ocupação do Vale do Paraíba no período colonial. Palavras-chave: cidades históricas, cultura urbana, Vale do Paraíba. Área do Conhecimento: Ciências Sociais Aplicadas, História da Arquitetura e Urbanismo – CNPq. 
1. OBJETIVOS 
A pesquisa teve como objetivo levantar as algumas rotas adotadas pelos colonizadores portugueses no planalto paulista, durante o período colonial. Como essa mobilidade se dava por meio e ao longo dos rios e dos antigos caminhos de tropeiros, buscamos identificar também os aldeamentos formados nesse  período. 
2. INTRODUÇÃO  
Para os conquistadores europeus, vindo do mar em direção ao continente, o desbravamento do território  na altura do Vale do Rio Paraíba apresentava circunstancias específicas. Numa extensão abrangendo  da Bahia ao Sul do Brasil, encontra-se a Serra do Mar que divide o território em duas áreas distintas: a  costa litorânea e o planalto interior. A primeira consiste de uma faixa às vezes bastante estreita, de terrenos baixos, insalubres e de solo pouco fértil, onde primeiramente a colonização se estabelece. Essa conformação desfavorável à permanência e formação de núcleos urbanos ocorre principalmente a par tir do sul do Rio de Janeiro, descendo em direção a São Paulo, precisamente na costa aonde, tendo subido a Serra do Mar, encontra-se no Vale do Paraíba. Nesse ponto a faixa litorânea se estreita ainda mais e a serra segue seu curso em direção ao sul, formando uma barreira quase intransponível, onde,  em alguns pontos, quando a topografia favorece, surgiram os mais antigos caminhos de entrada em  direção ao Planalto. Um deles se deu por meio da consolidação da Trilha dos Tupiniquins (séc. XVI), também denominada de Caminho de Paranapiacaba ou Caminho de Piaçagüera, que foi a mais antiga e principal ligação entre o litoral e a vila de São Paulo de Piratininga durante o período colonial. Iniciava-se na vila de São Vicente, atravessava uma área alagada e prosseguia ascendendo pela Serra do Mar até as nascentes do Rio Tamanduateí e daí ao córrego Anhangabaú onde, segundo alguns historiadores, encontrava-se a aldeia do índio Tibiriçá em Piratininga. De Piratininga podia-se subir pelo Rio Tietê, que banhava as proximidades do sítio eleito para a fundação do colégio e também podia ser acessado pelo Tamanduateí. O curso superior do Rio Tietê, por sua vez, quase se confunde com o curso do Rio Paraíba do Sul que, correndo em direção oposta àquele, constitui o prolongamento hidroviário natural em direção ao Vale do Paraíba, chegando até a foz do rio situada quase na fronteira dos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. A ocupação do planalto paulista inicia-se muito cedo, ao contrário de outras regiões do país. Isso se deve principalmente a quatro fatores: a condição desfavorável à permanência na costa litorânea, a presença indígena no planalto oferecendo mão-de-obra, o trabalho de contato com os índios realizado por João Ramalho e o seu assentamento na aldeia que deu origem à vila de Santo André da Borda do Campo e o projeto jesuítico confiado ao padre Manoel da Nóbrega que, mesmo tendo sido proibido de adentrar o sertão, fomenta a intenção de fundar uma casa jesuítica junto aos índios de Piratininga. Assim, a presença do europeu no interior do sertão da Capitania de São Vicente ocorreu já no início do séc. XVI, mesmo sem a anuência da Coroa. A primeira rota certamente ligava São Vicente a Piratininga, mas outras trilhas formavam um sistema rio/caminho com seus pontos geográficos de referência, muito utilizados pelos índios tanto no planalto quanto na costa. Conforme a análise do Mapa de  distribuição e localização das tribos indígenas, organizado pelo Museu Nacional e publicado no texto “Introdução à Arqueologia” de Angyone Costa [6], na região do Vale do Paraíba, enquanto os Tupis habitavam as terras baixas da costa litorânea, incluindo a foz do Rio Paraíba do Sul, os Gê ocupavam o vale em quase toda a sua extensão, sendo que uma pequena parte do território entre essas duas etnias, era  ocupada por índios de línguas isoladas. Esses antigos e legítimos habitantes da terra detinham não só o conhecimento das melhores rotas, mas também das formas de sobrevivência e de relacionamento  com outros povos indígena. A forma de domínio do território baseava-se entre outros fatores, no conhecimento da geografia e deslocamento periódico. Os Gê habitaram vários pontos do país e dominaram  territórios bastante amplos até o final do século XVI. Segundo Costa [6] habitaram a Amazônia antes de  alí se fixarem os Nu-aruak e os Tupi-guarani, e de lá  realizaram migrações estabelecendo-se em regiões  diferentes como o Espírito Santo e Minas Gerais entre outras, onde formaram o grupo Timbira e Aimioré Botocudo. Grupos da matriz Gê, orientando-se de  leste a oeste, se deslocaram e ocuparam toda a região central do Brasil, atravessando o vale do Rio  São Francisco e restringindo-se apenas com a barreira geográfica da Serra do Mar, onde, descendo  em direção ao mar, encontra-se o território dos diversos grupos da matriz Tupi. Esses últimos ocuparam e migraram ao longo de uma faixa que percorre totalmente o litoral brasileiro, indo desde o Uruguai  até o Pará, contornando o território dos Gê e pressionando-os em direção ao sertão. Segundo o estudo de Costa, os Tupi também pressionam e adentram o planalto na região onde flui o Rio Tietê numa  área que corresponde hoje o Estado de São Paulo. Assim, há indícios de que os Campos de Piratininga  fossem amplamente ocupados por grupos indígenas e que para os portugueses havia necessidade de estabelecer relações de amizade visando à conquista do sertão da Capitania e o acesso às riquezas da terra. Nesse sentido, a pessoa de João Ramalho, num primeiro momento, se tornava um personagem  importante para a colonização já que havia contraído relacionamento de parentesco com o índio Tibiriçá,  estabelecendo-se no planalto.  No entanto, como a empreitada de Nóbrega demonstrava obter sucesso devido aos seus métodos de catequese, este logo adquiriu mais prestígio do que João Ramalho dentro do contexto do projeto colonizador. Domesticados e cristianizados, os índios passaram a representar, para os portugueses, a possibilidade de acesso às riquezas contribuindo então como guias em direção aos sertões. Assim, havia rotas consolidadas e os caminhos estavam abertos, mas  ainda sem o devido controle da Coroa portuguesa, sendo esses, na sua maioria, compostas pelas antigas trilhas e cursos d’água utilizados pelos índios, que ofereciam pouca segurança e podiam ser percorridos por quem deles fizesse uso. O Vale do Paraíba, no final do século XVII, é a “região mais povoada da Capitania de São Paulo”, com uma densa aglomeração nas margens dos rios. Entretanto, para a formação dos primeiros focos de vida mais permanente, após a chegada dos forasteiros,  errantes, aventureiros ou missioneiros, havia a necessidade de que chegassem àqueles voltados ao  cultivo da terra. Formados os pousos ao longo dos caminhos, com o tempo surgiam os colonizadores de temperamento mais sedentário, ou aqueles, que, já tendo desbravado em muito, decidem lançar-se à   lavoura. Essa atividade, geradora de permanência e de apropriação do território, ocorre segundo ciclos sucessivos de expansão com períodos de alternâncias entre migrações e assentamentos, vindos dos  velhos para os novos centros de fixação. A grande mobilidade dos povoadores e dos mamelucos, atendendo aos desafios de riquezas que a terra prometia, decorre da vocação nômade do colono e  do índio que gera os movimentos de marcha chamadas bandeiras, entradas, apresamentos e monções. O curso médio superior do rio Paraíba do Sul, se caracteriza por um relevo menos acidentado, considerando que de Guaratinguetá a Guararema o desnível é de apenas 51 metros; essa região do vale,  juntamente com o contexto econômico e histórico associados aos caminhos de exploração do sertão,  favoreceu o aparecimento de diferentes localidades ao longo Vale do Paraíba no percurso que ligava São Paulo a Rio de Janeiro e as Minas Gerias. Essa parcela do Vale do Paraíba foi de grande importância na  entre os fatos ligados à exploração do interior da Capitania de São Vicente, onde surgiu a Vila de Taubaté que, no século XVII, foi uma das mais importantes localidades do Vale do Paraíba, principalmente devido a existência de uma ligação direta entre o sertão e o mar, chegando aos portos de Ubatuba e de Parati, caminho essencial para o escoamento da produção de ouro.

Carta corográfica - Capitania de S. Paulo, 1766 
Apresentando  o Estado Político da Capitania de São Paulo em 1766, foi elaborada esta carta, com particular atenção aos limites com Minas Gerais. Fonte:  http://migre.me/a4Yyo
Nota: Respostas importantes contida no Estudo:
a) Alto da Serra no Mapa, Núcleo Embrião de Piquete, Rota Consolidada.
b) "...rotas indígenas juntamente com o favorecimento geográfico associado ao sistema hidrográfico de cada região."
c) "....a exploração do ouro foi orientada pelo rio Paraíba do Sul, resultando na  abertura de um importante caminho que ligava São Paulo, às Minas Gerais e ao Rio de Janeiro."
d) "Intensificado o fluxo neste caminho devido ao favorecimento da economia na região, bem como presença das Serras da Mantiqueira e do Mar,..."
e) "A primeira rota certamente ligava São Vicente a Piratininga, mas outras trilhas formavam um sistema rio/caminho com seus pontos geográficos de referência, muito utilizados pelos índios tanto no planalto quanto na costa."
f) Limite de navegabilidade: "O curso médio superior do rio Paraíba do Sul, se caracteriza por um relevo menos acidentado, considerando que de Guaratinguetá a Guararema o desnível é de apenas 51 metros."

GUIA DA UNESCO - Una guía para la administración de sitios e itinerarios de memoria.

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