sexta-feira, 7 de setembro de 2012

As milícias negras no Império Ultramarino português

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As Minas do Ouro e dos Diamantes: Milícias Negras e a Manutenção da ordem (Transcrição)

             Nas Minas Gerais do século XVIII os homens negros estariam militarmente agrupados em quatro espécies de milícias: as companhias auxiliares de infantaria; as companhias de ordenanças de pé; os corpos de pedestres e os corpos de homens-do-mato. Essas milícias, institucionalizadas nas Minas a partir dos primeiros anos dos setecentos, eram vistas, quanto à sua funcionalidade, de maneiras distintas pelas autoridades portuguesas. No decorrer do século XVIII, em virtude de demandas bélicas específicas, elas sofreram diversas reestruturações .
Um dos grandes marcos das milícias negras na América Portuguesa foi a reestruturação militar ocorrida em 1766[5]. Ela seria resultado das reformas militares do Conde de Lippe em Portugal e da necessidade de se reforçar os efetivos militares em função dos conflitos com os espanhóis no sul das possessões portuguesas na América.
A reunião das companhias auxiliares de infantaria de homens pardos e pretos libertos recebia a designação de terço[6]. A comandar o terço, estaria o mestre-de-campo, que poderia ser um homem branco ou pardo. Quando uma companhia de homens pretos libertos, por especificidade da missão a desempenhar ou pela distância em que se encontrava, não pudesse ser reunida ao terço, receberia a denominação: companhia franca. A partir do século XIX a estrutura tática do conjunto de companhias auxiliares de infantaria de homens pardos e pretos libertos passaria do terço para regimento e a designação mestre-de-campo seria substituída por coronel.
As companhias auxiliares de infantaria de pretos libertos poderiam atuar tanto na destruição de quilombos e repressão aos índios, quanto na defesa das fronteiras marítimas e terrestres em auxílio às tropas regulares da capitania de Minas Gerais ou de outras capitanias.
Por outro lado, o comando de diversas companhias de ordenanças de pé de homens pretos libertos era exercido por um capitão-mor, homem branco, poderoso e de considerável cabedal econômico. Em cada companhia haveria um capitão e um alferes, responsáveis pela disciplina e organização do corpo militar. Se a milícia fosse composta por soldados e cabos negros, os seus oficiais (capitão e alferes) também seriam negros. As ordenanças atuariam localmente para preservar a tranqüilidade e o sossego. Semelhante às companhias auxiliares de infantaria de homens pretos suas principais missões estariam relacionadas aos confrontos com os quilombolas e índios bravos. Todavia, não recebiam soldos, armamentos ou equipamentos para o desempenho de suas atividades.
O terceiro tipo de milícia negra era o corpo de pedestres. Ele era formado por negros, pardos libertos e mesmo por escravos. Eram eles que “entravam nos matos, descendo córregos por despenhadeiros impraticáveis[7]. Pela vasta experiência prática eram requisitados como guias nas expedições militares. Nas Minas Gerais, os pedestres estariam distribuídos pela Repartição Diamantina (local onde se extraía os diamantes), destacamentos, registros e guardas. Tinham seus soldos e jornais pagos pela Fazenda Real e eram comandados por capitães pardos.
Por fim, os homens negros libertos e escravos também se inseriam nos corpos de homens-do-mato. Eles não recebiam soldos, fardamentos, equipamentos, armamentos ou alimentação da Real Fazenda. Eram recompensados através das tomadias pagas pelos proprietários dos escravos fugidos.
           Na primeira metade do século XVIII, os administradores portugueses, ao observarem a incipiente organização militar das Minas, julgavam não ser conveniente homens pardos e bastardos forros servirem em corpos militares separados dos homens brancos. Nos finais da década de 1720 determinava-se ao capitão-general das Minas que desse baixa no registro da patente do capitão da ordenança dos homens pardos e bastardos forros da Vila de Sabará Francisco Gil de Andrade, declarando-a sem efeito
porque não convém que semelhantes homens sirvam em companhia ou corpo separado dos demais, pois o que servia obrar em tal caso, era misturá-los com os demais corpos das ordenanças dos homens brancos, para ficarem mais sujeitos e obedientes[8].
Sucessivas ordens determinavam mesclar os corpos militares. Em 1731 o Conselho Ultramarino alertava para a continuidade da separação dos pardos e bastardos libertos em corpos de infantaria e ordenanças, o que seria um grande prejuízo para o Estado. O Conselho entendia ser mais conveniente que todos os moradores de um distrito fossem agregados a uma companhia, sem que houvessem corpos separados de pardos e bastardos com os oficiais privativos[9]. A despeito das determinações, os corpos de ordenanças continuaram separados.
Após o emprego das companhias de homens pretos libertos em campanhas militares e em atividades cotidianas, como a destruição de vários quilombos, o discurso oficial sobre as tropas de negros sofreu uma mudança significativa. Na década de 1770, o ministro Martinho de Melo e Castro destacava que os corpos de negros
marcharam, abrindo caminhos e picadas que não havia por serras e sertões, navegando rios com muitas cachoeiras difíceis e perigosas, e depois de suportarem e padecerem com admirável constância os maiores trabalhos, fomes e fadigas, chegaram enfim aos quilombos e os destruíram[10].
Diversos governadores reproduziam o discurso de que “esta qualidade de gente é a mais útil, pela facilidade que tem de entrar nos matos[11]. A correspondência dos capitães-generais, no último quartel do século XVIII, destacou a técnica específica de combate dos corpos militares formados por negros, pardos e índios. Em suas ações, utilizavam as emboscadas; caíam de surpresa sobre os inimigos; exploravam a seu favor os acidentes topográficos; conheciam as matas, as montanhas e os rios; sabiam tirar da natureza seu alimento. Enfim, utilizavam as táticas de guerrilha, que tanto assustavam seus adversários. Além dos caminhos abertos nas matas, os integrantes destas milícias abririam, pouco a pouco, picadas em outros planos.
Mobilidade social através de cargos militares
Nas Minas Gerais, as antigas prescrições de que os oficiais deveriam ter sangue limpo, avós de linhagem pura e pele branca perderam vigor: mulatos e negros conquistaram os postos de oficiais com a indignada censura dos brancos. A crítica voltava-se, porém, para o alvo certo: as patentes afidalgavam, levavam o mulato e o negro livre a desprezarem o trabalho para se elevarem, verticalmente, com galão nobilizador. Segundo Boxer, esses homens desejavam as altas patentes “mais pelo título e pela honra do que pela execução dos deveres que implicam[12].
Ao tratar das estratégias de mobilidade social por intermédio das patentes militares adotadas por comerciantes, mulatos e negros nas Minas, o ouvidor de Vila Rica, Tomás Antônio Gonzaga, em suas satíricas Cartas Chilenas denunciava: “Os tendeiros/ mal se vêem capitães, são já fidalgos;/ Seus néscios descendentes já não querem/ Conservar as tavernas, que lhes deram/ Os primeiros sapatos, e os primeiros/ Capotes com capuz de grosso pano”[13].
Na busca pelo galão que afidalgava, não poucos foram aqueles que compraram suas patentes. Ao se referir às ações do governador e capitão-general das Minas Luís da Cunha Meneses (1783-1788), Gonzaga afirmou: “o Chefe, Doroteu, só quer dinheiro,/ e dando aos militares regalias,/ podem os grandes postos que lhes vende, subir à proporção também de preço[14] Fonte: http://migre.me/aC7tU
 

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