sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Da Baía de Benim, ao caminho do ouro em Paraty, Cunha, Guaratinguetá, Guaipacare (Lorena), Registro (Piquete-SP), Conceição do Embaú (Cruzeiro-SP), uma rota da Diáspora Africana

FABIÃO PRETO COURÁ:
Sociabilidades e Identidades em Mariana, século XVIII
Fernanda Aparecida Domingos Pinheiro

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 Nas duas últimas décadas, as muitas e diferentes identidades de  origem africana têm despertado grande atenção dos historiadores. O papel  da identidade passa a ser apreendido como uma importante chave para a  compreensão das experiências dos sujeitos que vivenciaram a escravidão. Trata-se de um movimento que se distingue do debate acerca das  influências resultantes de uma matriz africana “original” ou das possibilidades  de “crioulização” das mesmas. O que se procura é evidenciar a  heterogeneidade daqueles que cruzaram o Atlântico e foram submetidos ao cativeiro no Novo Mundo e como o uso dos seus legados permitiram a constituição de trajetórias individuais, bem como de grupos particulares,  muito informando sobre os seus modos de inserção social no sistema  escravista e/ou de sua negação. Indiscutivelmente, os africanos que na América Portuguesa  desembarcaram receberam/apropriaram/reconstruíram e reproduziram  diferentes  identidades. 1 Além daquelas identidades relacionadas à sua  condição social, quero aqui discutir as que marcavam sua procedência em  territórios do continente africano. Poderia um mesmo indivíduo apresentar  diferentes identidades reconhecidas pelo tráfico? Em quais ocasiões elas eram empregadas? Como tais africanos operacionalizavam essas muitas  identidades? Para lançar luz sobre tais questões proponho a análise da  trajetória de vida de um courano, Fabião Fernandes da Silva. Cabe antes esclarecer que essa é uma identidade que remonta a um  lugar específico, um território situado na Costa da Mina, África Ocidental.  Portanto, a nomenclatura coura/courano evoca uma procedência  reconhecida e consolidada no contexto da diáspora africana, o que não significa representar, concomitantemente, um grupo étnico, pois a  documentação colonial não possibilita “qualquer interpretação „continuísta‟  do ponto de vista da cultura” (SOARES, 2007, p. 71). Sobre a “terra de Courá”, temos poucas e imprecisas informações.  Segundo Pierre Verger, os couranos eram “pessoas conhecidas sob o  nome de Curamo, nome dado à lagoa das proximidades de Lagos”, ou  Onim, porto no litoral da atual Nigéria. Este africanista definiu tais pretos  como inimigos do Rei de Daomé e fez menção a um documento datado  de 1767 que divulgava uma invasão de “coiranos” a Ajudá (VERGER,  1987, p. 207). Luiz Mott foi quem primeiro anunciou a presença desses  africanos em Minas Gerais ao pesquisar sobre a Dança de Tunda, “um  ritual religioso dedicado ao deus da nação Courá, praticado no Arraial  de Paracatu”, que teria sido desmobilizado por um batalhão de  capitães-do-mato em 1747   – dos vinte participantes indiciados, nove  eram couranos (MOTT, 1988).  Mott escreveu ainda a mais extraordinária biografia de uma  alforriada do século XVIII, a courana, ex-prostituta e beata, Rosa  Egipcíaca. A liderança espiritual dessa africana foi evocada em várias  vilas e arraiais da capitania mineira e no Rio de Janeiro; causou grande escândalo e, não raramente, veneração (MOTT, 1992). Por assim se  defrontar com a “nação Courá” nos documentos setecentistas, Mott  enfrentou o problema de localizar a região de origem desses seus  representantes. Após conjeturar várias possibilidades, amparou-se na  obra de Verger e confirmou que “os courana vieram mesmo dos  arredores do lago Curamo, situado entre Lagos ao sul e o porto de Judá  ao norte” (MOTT, 1988, p. 103). Só recentemente, Mariza de Carvalho Soares, após anos de  investigação buscando vestígios dispersos em muitos autores e incluindo uma  cuidadosa pesquisa cartográfica, construiu o argumento de que os couranos  teriam vindo de uma região distante da beira-mar. De fato, a historiadora,  diferentemente de outros especialistas, recuou para o início do século XVIII,  o  estudo sobre o contato entre os portos do litoral da Baía de Benim e os  mercados de escravos do interior. 2 Essa relação comercial foi estimulada por  haver, naquele período, uma grande demanda de escravos para abastecer  as recém descobertas minas de ouro em Minas Gerais. Mais especificamente,  conforme Soares, os couranos vieram de uma localidade chamada Aledjo  Koura, ao norte de Bassila e próxima às nascentes do rio Mono, situada no  atual Togo. A autora ainda conjectura o percurso da suposta rota terrestre  que ligava esse interior aos portos do litoral onde os couranos foram  embarcados: Ajudá e Jaquem (SOARES, 2007). Saindo de algum desses portos da baía do Benim, a rota atlântica  tinha como destino final as cidades do Recife, de Salvador e do Rio de  Janeiro. Do nordeste, os escravos percorriam o caminho do sertão, ao  longo do curso do rio São Francisco até o encontro com o rio das Velhas,  de onde se seguia e se chegava às minas de ouro do interior da colônia  americana. Esse percurso era conhecido como o Caminho dos Currais do  Sertão e possuía diversos atalhos e desvios (ANDREONI, 1967).  A fim de evitar os riscos desse trajeto, a alternativa era prolongar a  rota marítima e, com isso, os escravos que haviam chegado em  Pernambuco e na Bahia eram novamente colocados em navios  negreiros e conduzidos até o Rio de Janeiro. Passando por essa cidade,  ainda por mar ou por terra, os traficados seguiam até Paraty, na abertura  do “Caminho Novo” através do qual chegavam à Comarca do Rio das  Velhas e do Rio das Mortes. Essa viagem durava, em média, 45 dias e  embora tenha sido concluído apenas em 1725, por ele já se fazia o  comércio e o transporte de carregamentos desde o início da povoação  nas minas. Sem dúvida, dos caminhos terrestres que ligava à zona de  extração aurífera ao litoral, este era o que apresentava melhores  condições, por ser uma estrada mais larga e mais frequentada  (VENÂNCIO, 2000, p. 111-123; SOARES, 1998).
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Fonte: http://migre.me/aOeUU


Rota via Paraty, Caminho Velho: Cunha-SP; Guaratinguetá-SP; Guaipacare (Lorena-SP); Registro (Piquete-SP) e Conceição do Embaú (Cruzeiro-SP)

GUIA DA UNESCO - Una guía para la administración de sitios e itinerarios de memoria.

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