quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Herança(s) Cultural(ais): o Homem, o Património e a História (Transcrição)

Caixas, baús, tesouros, depósitos de peças, fontes, estilos e vidas, que atravessaram a existência estórica da história da Humanidade. Quais fotografias abstractas que se constroem, reconstituição mental de mulheres e homens de outrora, que sentiram, choraram, acreditaram ou, tão somente, viveram. É desta consciência individual que nasce o respeito pelo colectivo: pensar o outro como parte integrante de mim, pensar o passado como aquilo que hoje sou. Olhando para a evolução da mentalidade (ou da cultura, se preferirem o termo), verificamos que não só há uma tendência crescente para defendermos os vestígios materiais, mas, igualmente, no desenrolar da passagem do Homem pela Terra, veio crescendo uma sensibilização para o outro (material e cultural - a alma da produção intelectual). Contudo, surge uma dicotomia entre aquilo que é visto como pertencente ao Ser Humano e aquilo que directamente lhe diz respeito. Ou seja, o que sente enquanto pessoa. Desta forma, paulatinamente, fomos deixando de encarar o objecto, enquanto objecto que necessita de ser protegido e defendido, para passarmos a encarar a História Material e Cultural como a nossa própria história. Penso que, de certa forma, há um despertar mais alargado em relação ao que desenha o meio, o fim e o ecossistema humano, mas essa sensibilização não deixou de ser sentida por ser parte do 'corpo' que forma o corpo e o intelectual humano.
Será que o Homem nunca viverá numa dualidade catalizadora da colectividade? Para já, não o podemos conceber como alguém que vive a vida, ou a morte, sem ser a sua própria; esse instinto de sobrevivência e de zelo por aquilo que é seu. Mas, analisando esta linha de pensamento sob uma perspectiva global e essencialista, percebemos que olhar para o objecto ou para o sujeito vem progressivamente ganhando uma dimensão de tolerância, de respeito e de reconhecimento.
Vemos, então, que a História já não é um corpo sem vida, mas uma vida sem corpo. Ela (a História) flui e respira pela dinâmica que lhe concebemos. Ela é enquanto nós somos, tal como nós somos enquanto ela é. Tempos, mundos, épocas, concepções e vidas que marcam e explicam a passagem do Homem pela Vida e a passagem do Homem pela Morte. Dois mundos, duas realidades, muitos tempos dentro de um mesmo tempo: a perenidade ou a negação do finito. Eu enquanto eu próprio, Eu Próprio enquanto Homem, Homem enquanto Vida, e Vida enquanto História.
Na verdade, ao longo do século passado, produziu-se imensa documentação internacional no âmbito da identificação, protecção e preservação do património humano. Na sequência desta consciencialização, a nível mundial, surgiram diversas organizações das quais se destacam a UNESCO (1945); o ICOMOS (1965); e o Conselho da Europa (1949). No que respeita ao ambiente nacional destacamos o IGESPAR.
Com a criação da Organização das Nações Unidas, em 1945, numa época de pós Segunda Guerra Mundial, surgiu a necessidade de não só criar laços políticos saudáveis entre países, como, também, proteger o Homem do próprio homem. Queremos com isto dizer que, através da proclamação de variados órgãos e de reuniões internacionais, donde resultaram organizações não governamentais e intergovernamentais, se reforçaram ideais de paz e de união que gravitaram (e gravitam) em torno da promoção, divulgação, tolerância e respeito pelo património / herança cultural de cada povo. Desta forma, procurou-se criar um mundo que entre palavras, imagens, edifícios ou (simples) características étnicas pudesse encontrar um equilíbrio que unisse os habitantes deste tão vasto planeta.
Rapidamente foram nascendo e renovando-se (ao sabor da época e das necessidades) novas Convenções, Recomendações, Resoluções, Cartas, Normas e muitos outros documentos que participam para um fim comum: a paz pela cultura.
Restringindo geograficamente a atitude pró-cultural, o Conselho da Europa vem contribuir para uma organização interna da União Europeia, por um lado, como forma de identidade europeia, por outro, como meio de identidade nacional. Pensar a Comunidade Europeia é também pensar singularmente cada país que a compõe.
Assim, dentro da filosofia existencial das organizações patrimoniais e humanas, enquadramos uma necessidade de aceitação e encontro do próximo, a luta pela preservação do Homem e da Vida, a crença nas qualidades e capacidade de cada um construir esta história da História do Homem. Travar o choque de Civilizações* e combater a destruição daquilo que nos une não constitui unicamente um problema estatal, cada qual tem o dever de zelar pelas heranças que são de todos. Universalizar o sentimento humano num momento de globalização económica e política demonstra essa vertente sensitiva e fraterna.
À medida que o século XX caminha até ao presente, ou à medida que a vida se desenvolve numa necessidade dual entre o consumo e a preservação / transmissão, veio emergindo uma nova visão que parte da protecção dos monumentos e sítios, passa pelo despertar sensitivo da necessidade de identificação e preservação, e abraça o que hoje entendemos como divulgação. Na verdade, todo este esforço é fruto e motor da transformação humanitária: um devir que vem de um passado que queremos como presente e futuro.
* Remetemos o leitor para a obra de HUNTINGTON, Samuel, Choque de Civilizações e a Mudança da Ordem Mundial, Lisboa, Gradiva, 2001.
Germana Torres 
Fonte: http://migre.me/lyqxq