segunda-feira, 28 de março de 2016

Na Capitania de São Vicente - Washington Luis - (Transcrição)

Capítulo X - Os colonos
Algumas notas sobre alguns dos primeiros povoadores e conquistadores de São Vicente.
Para uma terra de tudo desprovida, imensa, sem esperanças de minas, habitada por indígenas ferozes, para essa terra só viriam homens que o rei mandasse em serviço, ou catequistas-apóstolos, que uma fé ardente arrebatasse para o sacrifício, ou então degredados por força das leis criminais, ou nela ficariam náufragos de expedições ousadas e temerárias, ou desgraçados fugidos de navios, onde a vida era pior que a que eles encontrariam entre os canibais. Foram poucos, muito poucos, os que vieram habitar o Novo Mundo em princípios do século 16. Alguns nomes aparecem nas Atas das câmaras municipais e nos Inventários e Testamentos, que merecem atenção. E, felizmente, não foram eles fidalgos.
Ao retirar-se para Portugal, nos meados de 1533, Martim Afonso de Souza deixou menos gente, do pessoal de sua frota, do que a que encontrou no porto de S. Vicente, em 1532, ao que suponho.
As terras de S. Vicente nenhum atrativo tinham para reter gente aventureira, sequiosa de se enriquecer e rapidamente.
A região era habitada por um gentio bárbaro, cruel, comedor de carne humana. No litoral, na baixada, os alagadiços, em que mais se formavam mangues que canaviais, poucos e insignificantes engenhos poderiam produzir açúcar, e sem meios de exportação. E não só de açúcar se vive.
Só alguns séculos depois, iria ser ele convertido em bananais.
Na serra, na Paranapiacaba, que se empina asperamente diante do mar, as terras são as piores que constituem o Estado de S. Paulo. Escarpadas, de dificílimo e perigoso acesso, voltadas para o antártico, e, por isto, sujeitas a contínuos nevoeiros, úmidos, garoentos ou chuvosos, açoitadas por frios e devastadores ventos do Sul, essas terras nada produziam.
Não obstante o seu conhecido espírito de vigorosa iniciativa e de perseverante decisão para o trabalho, os paulistas ainda não conseguiram transformar as vertentes de Paranapiacaba em zona de produção e de proveito.
Apesar de todos os esforços, das construções de diversas estradas de diferentes espécies, algumas magníficas, que desde muito tempo, e que atualmente ligam a opulenta capital do Estado ao seu esplêndido porto marítimo, situado em Santos, nessas terras nada existe, a não ser talvez a captação das águas pela companhia Light, continuando todas, mesmo hoje, mais ou menos, como no tempo de Martim Afonso de Souza [1], vestidas de matas ordinárias que à distância, dão a encantadora ilusão de florestas, mas que não se prestam para nenhuma cultura, nem permitem chácaras de recreio, quintas de repouso ou mesmo casas de moradia.
Os donatários de largas sesmarias, concedidas por Martim Afonso durante a sua estada em S. Vicente, aí não se fixaram.
Pero de Goes foi-se logo embora; fez-se donatário da Paraíba do Sul, onde também não foi feliz, e só voltou, para a Bahia, com Tomé de Souza, como seu capitão do mar. De Ruy Pinto e de Francisco Pinto nunca mais se ouviu falar, ou pelo menos, deles só há menção nos documentos coevos para a guerra aos carijós, que, aliás, não fizeram. Só ficaram aí os que já se ocupavam do tráfico de escravos indígenas e alguns poucos mais.
Pode-se considerar porém o povoamento de S. Vicente, oficialmente, com o estabelecimento do primeiro governador do Brasil. Pelo menos é desse tempo que se encontram documentos locais, que o fazem presumir, na correspondência de Tomé de Souza e de seus companheiros com a metrópole, nas cartas dos jesuítas aos seus superiores, nas Atas da Câmara de Santo André e nas de S. Paulo, nos Inventários e Testamentos dos primitivos tempos, nos arquivos dispersos e estragados de algumas ordens religiosas. Difícil é encontrar informações nos arquivos portugueses. Tudo mais desapareceu ou não existiu ou funda-se em lendas e tradições discutíveis.
Todo esse povoamento se fez muito lentamente, muito vagarosamente, chegando mesmo a tal abatimento, que, em certa época – (carta do padre Manuel da Nóbrega ao provincial de Portugal em 1557 – Cartas Jesuíticas do Brasil, vol. 1º, pág. 174), Manuel da Nóbrega escreveu da Bahia que "a capitania de S. Vicente se estava despovoando, pela pouca conta e cuidado que el-rei e Martim Afonso têm"; e lembrou que seria bom ter a Companhia lá um ninho onde se recolhesse, quando de todo S. Vicente se despovoasse, como já disse.
Manuel da Nóbrega estava verificando a pouca conta e cuidado que o rei e o donatário tinham pelo povoamento; e, prevendo o seu abandono completo, previdentemente sugeria que a Companhia de Jesus assegurasse aí, além da catequese, a posse e domínio.
Mas os portugueses, por iniciativa própria, e os mestiços, mamelucos, iam conservar para o Brasil as terras de S. Vicente e os seus sertões, como vamos ver.
Desses que aí já estavam, dos que ficaram, e dos que vieram após 1549, até o fim do segundo governo de d. Francisco de Souza (1612), podem-se respigar algumas poucas e lacunosas informações.
Entre esses há algumas figuras bem interessantes, que estão pedindo melhor e maior estudo, que sem dúvida ainda será feito. Entre eles foi João Ramalho, uma das mais curiosas.
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§9º - AFONSO SARDINHA
Não se pode afirmar ao certo quando Afonso Sardinha chegou à Capitania de S. Vicente; mas parece ter sido ele um dos seus mais antigos moradores.
Residiu primeiro em Santos, porque no seu testamento (Azevedo Marques, Apontamentos) fala, e por vezes, em papéis de crédito que lhe levaram os ingleses, e também de umas casas, que naquela localidade possuiu, cujos títulos lhe levaram os ingleses.
Esses ingleses seriam os das armadas de Felton em 1587 ou de Thomaz Cavendish em 1591-1592. Mas passou depois a morar na vila de S. Paulo e no seu termo, onde tinha trapiches de açúcar e gado em sua fazenda, vendia marmelada, emprestava dinheiro aos capitães-mores de S. Vicente e alugava casas aos vigários, fazia vir negros da África e comprava peles em Buenos Aires. Tudo em pequena quantidade, pois que para a metrópole só havia uma viagem marítima cada ano, e essa, bem precária. Mais raras e mais precárias deveriam ser as viagens para outros pontos.
Lorde Macaulay (Ensaios Históricos, vol. 1º, pág. 246 em estudo sobre Lorde Clive) informa que as relações com a Europa eram infinitamente pouco freqüentes. A viagem para o Cabo de Boa Esperança, que, em 1860 se fazia em três meses, consumia normalmente ainda por 1730, mais de seis meses, num tempo em que a Inglaterra já começava a dominar os mares e a sua marinha era superior à portuguesa. Nesse mesmo estudo sobre Lord Clive, informa ainda que, numa de suas viagens, Lorde Clive foi obrigado a aportar no Brasil, onde aprendeu algumas palavras portuguesas, gastando na sua viagem um tempo imenso, tais os riscos e dificuldades que as navegações do Atlântico ofereciam.
José de Anchieta (Cartas Jesuíticas, vol. 3º, pág. 85) reclamava paciência para as informações enviadas de S. Paulo de Piratininga para a Europa, pois que para lá "de ano em ano parte apenas um navio". Dada a lentidão das coisas coloniais, o pequeno valor que elas representavam e a pouca importância que a elas se davam, não é temerário supor que em 1583, a comunicação marítima com a metrópole fosse ainda anual.
Foi ele, entretanto, uma das principais figuras da capitania e dela foi conquistador e povoador. Era analfabeto e sua assinatura era feita com uma cruz com três hastes.
Afonso Sardinha parece ter sido homem jeitoso; pertencia à classe dos que hoje são chamados "despistadores", sabendo conduzir-se entre as duas correntes que dividiam a capitania – jesuítas e colonos – agradável a ambas, sem suscetibilizar nenhuma, para se filiar à vencedora.
Vivia bem com os jesuítas, e havia resolvido, desde 2 de novembro de 1592, deixar-lhes por sua morte em testamento público todos os seus bens, o que se realizou a 9 de julho de 1615 (Azevedo Marques, na sua Cronologia) mas votava com os colonos, impedindo que as aldeias fossem entregues aos padres da Companhia de Jesus.
Os jesuítas eram contrários às guerras contra os índios, e influíam sobre o capitão-mor Jorge Correia, para que as não fizesse (Azevedo Marques, Cronologia – Atas, vol. 1º, págs. 446-8).
Não tomou parte na governança da vila de Santo André, tendo-se em vista que o seu nome não consta nas atas publicadas.
As atas da Câmara da vila de S. Paulo começam em 1562 e vão até 1564, e continuam em 1572, havendo, pois, um hiato de oito anos nos papéis municipais paulistas. De 1562 a 1564, o nome de Sardinha não aparece entre os da governança da terra e nada se pode saber até 16 de março de 1572, data em que recomeçam as atas.
Em 1572 foi ele eleito vereador e nomeado almotacé em 1575. Foi de novo eleito vereador em 1576 e em 1590 (Atas da Câmara desses anos, vol. 1º, págs. 46, 59, 89, e 377).
Em abril de 1578, no inventário de Damião Simões, aparece ele se obrigando pelo pagamento de uma foice de resgate avaliada em 150 réis, arrematada por Bento Frias (Inventários e Testamentos, volume 1º, pág. 8).
Em 20 de abril de 1592, foi nomeado pelo capitão-mor Jorge Correia para capitão da gente da vila de S. Paulo e seus termos (Registro Geral, vol. 1º, pág. 51).
A Câmara de S. Paulo, composta dos juízes João de Prado e Pedro Álvares, dos vereadores Fernão Dias e Antônio Preto, a 2 de maio desse ano (Atas, vol. 1º, págs. 439 e 440), fez objeções e criou dificuldades para registrar essa nomeação, sob o fundamento de que "a vila nunca tivera outro capitão senão o capitão da terra". O procurador do conselho, Alonso Peres, achou procedente essas razões, mas alegou, entretanto, que a terra estava ameaçada e que os inimigos estavam a jornada e meia da vila.
Todos ficaram concordes a respeito, resolvendo, porém, esperar o capitão-mor, Jorge Correia, para tratar sobre o assunto, não impedindo, entretanto, que Afonso Sardinha exercesse as suas funções sem, porém, mandar registrar a provisão (Atas, vol. 1º, págs. 439 e 440). A vila de S. Paulo estava com efeito ameaçada de sério ataque por parte dos índios inimigos.
A 23 de agosto de 1592 (Atas, vol. 1º, pág. 445) os oficiais da Câmara se reuniram para tratar da necessidade de uma entrada ao sertão da capitania "para ver o estado dos nossos inimigos", com os quais estavam em guerra, havia dois ou três anos (Atas, vol. 1º, pág. 442), já tendo protestado perante o capitão-mor. Leram, então, e também aos moradores da vila que todos foram convocados, o capítulo de uma carta do capitão Jorge Correia que dizia que "se parecesse bom se fizesse o salto", e logo foi deliberado que se fizesse a guerra com o maior "ímpeto de gente e com toda a brevidade" e que Jorge Correia mandasse a gente de Itanhaém e de S. Vicente.
Houve, porém, sério rebate dos índios contrários, sendo grave a situação e "estando os nossos atemorizados", Jorge Correia mandou Afonso Sardinha ao sertão, em seu nome, ver o estado em que estavam os índios contrários ou dar-lhes guerra com a maior segurança podendo levar todos os índios da capitania (30 set. 1592, Reg. Geral, vol. 1º, pág. 59). Queria contemporizar.
Jorge Correia ainda quis contemporizar alegando o perigo da guerra no mar com os piratas estrangeiros, e mais ser necessário pedir socorro ao Rio de Janeiro. A Câmara, porém, vigorosamente repeliu as alegações protelatórias.
Essa entrada se fez, pois que no inventário de Catarina Unhate, em 1613, foi avaliado o índio Francisco, "Pés Largos", da viagem de Afonso Sardinha (Inv. e Test., vol. 1º pág. 270). Dada a forma vaga com que eram feitos os inventários, a cativação do índio Francisco poderia ter sido feita, entretanto, antes ou depois desse ano e por Afonso Sardinha, o moço, pois que ambos entraram ao sertão em diversas épocas. O padre Manuel da Fonseca, porém, na Biografia do Padre Belchior de Pontes, a qual foi escrita em 1752, narra que a aldeia de Carapicuíba fora povoada por índios trazidos do sertão por indústria de Afonso Sardinha, que por sua morte os deixou ao Colégio de S. Paulo (pág. 118).
Quando foi nomeado capitão para entrar ao sertão, em 1592, Afonso Sardinha, o velho, fez o seu extenso testamento lavrado por tabelião, a 2 de novembro desse ano, e nele declara que do seu casamento com Maria Gonçalves (vide Azevedo Marques, Cronologia, Testamento de Afonso Sardinha, o velho) não houve filhos, não tendo ele herdeiros forçados, pois que Afonso Sardinha, o moço, seu filho, foi havido na constância do matrimônio. Era portanto adulterino, sem direito a herdar.
Casado com Maria Gonçalves, deixou-a herdeira de toda a sua fazenda "a portas fechadas" e, de combinação com ela, todos os bens do casal, após a morte de ambos, ficariam aos jesuítas. Nomeou-a testamenteira juntamente com o irmão Baltasar Gonçalves, seu cunhado, morador de S. Paulo. Não morreu nessa entrada, durou até proximamente 1616.
Conhecidas a escassez feminina européia e a facilidade dos costumes indígenas, Afonso Sardinha, o moço, deveria ter sido um mameluco. Aliás, essas ligações, de que resultavam os mamelucos, eram comuns na Capitania de S. Vicente, e os Inventários e Testamentos referem sempre muitos bastardos, palavra que naquele tempo chegou a significar filho de branco com índia, segundo diz o padre Manuel da Fonseca, na biografia do padre Belchior de Pontes [6].
Os cronistas antigos de S. Paulo, dada a identidade de nomes, confundem os feitos dos dois Sardinhas, atribuindo os do pai ao filho e vice-versa, o que sucede, como já notei, com muitos outros colonos. Pela narração feita não se pode saber com certeza o que pertence ao velho e o que pertence ao moço.
O próprio Azevedo Marques, nos seus Apontamentos, verbo Afonso Sardinha, quando reproduziu o que escreveu Taques, sobre esses dois colonos, declara (págs. 2 e 3 em nota) expressamente que esse genealogista confundiu os dois Afonso Sardinha. Apesar de reconhecer a confusão, não a esclareceu e ao contrário a manteve.
O autor dos Apontamentos informa que Pedro Taques, na Nobiliarquia das principais famílias da Capitania de S. Vicente, diz a respeito de Afonso Sardinha o seguinte: "Foi o primeiro descobridor das minas de ouro, prata, ferro e aço em todo o Brasil pelos anos de 1589 em as serras seguintes: na de Jaguamimbaba, que ao presente tempo se conhece com o nome de Mantiqueira; no sítio que agora se diz Lagoas Velhas do Geraldo, distrito da freguesia da Conceição dos Guarulhos, termo da cidade de S. Paulo; na de "Jaraguá, onde fez o seu estabelecimento minerando, e aí faleceu" etc.
Não diz Az. Marques de que Título da Nobiliarquia extraiu essa informação. Na obra, porém, do genealogista paulistano no Título Taques Pompeu (Rev. do Inst. Hist. Geogr. Bras., vol. 33, primeira parte, pág. 93) se lê a respeito de Afonso Sardinha: "o afamado paulista, primeiro descobridor de minas de ouro em todo o Estado do Brasil, em S. Paulo nas serras de Iguamimbaba, que agora se chama Mantaguyra, na de Jaraguá, termo de S. Paulo, na de Vuturuna, termo de Parnahyba, na de Hybiraçoyaba, termo de Sorocaba".

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Alto da Serra de Jaguamimbaba - Espaço Colonial de Piquete-SP