sexta-feira, 8 de abril de 2016

Fome do ouro e fama da obra (Transcrição)


Fome do ouro e fama da obra: Antonio da Costa Peixoto e a “Obra  Nova de Lingoa Geral de Mina” –  alianças, proximidades e distâncias  de um   escritor  português no Brasil colonial do século XVIII
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Caminhos para Minas
Desembarcado na cidade de Salvador da Bahia em 1715, Antonio teve seu primeiro choque cultural. O menino nascido no interior de Portugal, que pouco conhecia do mundo além das vilas em redor de Lamas – e cujo acontecimento mais marcante, provavelmente, havia sido uma viagem com o pai num barco que transportava vinho pelo Rio Douro –, encontrava - se agora distante da família, numa terra estranha onde eram falados diversos idiomas, em meio à agitação típica de uma metrópole ululante. Ao desembarcar no cais de Sal vador e olhar para a cidade alta, sob o forte sol tropical, Antonio sentiu - se num outro mundo. Mirava a profusão de pessoas de cor negra que descarregavam os caixotes dos navios, vestidas  apenas com um calçolão e com o torso brilhando ao sol e não entendia uma única palavra que falavam. Nunca antes havia visto um negro... nem tampouco ouvido aquele linguajar... A experiência de encontro com a alteridade foi extrema! No século XVIII os caminhos para as Minas Gerais partiam de dois portos de desembarque: a Bahia e o Rio de Janeiro. E destes portos havia três trajetórias para se chegar nas terras auríferas: o Caminho do Sertão partia da cidade de Salvador, circundava o Recôncavo Baiano, cruzava o sertão e o Rio São Francisco, adentrando Minas Gerais. Os outros dois itinerários, os assim chamados Caminho Velho (60 dias de viagem) e Caminho Novo (45 dias de viagem), partiam do Rio de Janeiro para Paraty e daí subiam a serra em direção às minas (Antonil, 2007:256ss; Resende, 2007:29ss) 
.Numa das inúmeras tentativas  da Coroa portuguesa de vedar a entrada de contrabandistas na região das minas para traficar ouro, gado, escravos e comestíveis, o Caminho do Sertão foi interditado, mas a proibição da passagem de pessoas e mercadorias da Bahia para Minas nunca teve efeito prático. “Mas como poderia ser respeitada a lei naquelas regiões tão vastas, onde havia poucas pessoas com funções de polícia e poucos soldados? ”. Baltasar de Godoy Moreira, em carta de 1705 a Artur de Sá e Menezes, aponta os “impossíveis” e as inconveniências desta restrição. E assim,“apesar das repetidas ordens dos governadores, as boiadas e caravanas de mercadorias e escravos continuaram a afluir às Minas” (Antonil, 2007:236; Resende, 2007:33). 
Antonio seguiu o Caminho do Sertão e passou pelo Recôncavo Baiano, onde na Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira manteve contato intenso com a população de “negros mina”. 
Nesta época a Vila de Cachoeira recebia uma enorme quantidade de escravos da Costa Ocidental da África, os chamados daomea nos, jejes ou mina , e é perfeitamente possível que, na viagem para a região aurífera, a tropa (caravana) em que Antonio e Manuel se inseriram tivesse parado durante algum tempo naquela vila para complementação da carga, certamente com tabaco, ou mesmo para a compra de escravos para serem vendidos em Minas – talvez já encomendados pelos mineiros. 
No século XVIII Cachoeira era o segundo núcleo urbano baiano, grande produtora de fumo, tanto para o mercado europeu como para ser usado como moeda de troca no tráfico negreiro. Seu porto, que se comunicava através do Rio Paraguaçu com Salvador, mantinha um intenso movimento diário e “muitos escravos reexportados para a região das Minas Gerais através da Bahia passavam por Cachoeira, que estava na rota desse tráfico interno” (Reis, 1988:63).
A presença dos negros da Costa Ocidental da África foi tão relevante na Vila de Cachoeira, que lá teve origem grande número de casas religiosas (as Roças ou Terreiros) de Candomblé, religião de matriz africana que se  constituiu no Brasil. Naquela vila foi fundada por ex-escravos e  descendentes, em meados do século XIX, uma das casas-matriz de Candomblé dito de nação jeje (mina) : o Zoogodô Bogum Malê Seja Hundé (Nascimento, 1999; Parés, 2006; Araujo, 2002, Lody, 1987)  e muito relevante é constatar que palavras presentes nos manuscritos de Antonio da Costa Peixoto são usadas cotidianamente pelos frequentadores desta Roça, ainda em plena atividade nos dias de hoje. 
Certamente no decorrer da viagem para as minas, que durava cerca de um mês, Antonio vislumbrou a possibilidade de um dia fazer registros sobre a dura realidade da escravidão, da qual não estaria separado até o fim de sua vida.
Fonte  (Antonio da Costa Peixoto e a “Obra Nova de Lingoa Geral de Mina”)  pág 11/12 http://www.antropologia.com.br/arti/colab/a53-faraujo.pdf