sexta-feira, 6 de maio de 2016

"Assim foi na segunda viagem de Saint-Hilaire a São Paulo, iniciada a 29 de janeiro de 1822, descrita em seu livro Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo, traduzido depois para nosso idioma pelo historiador Afonso de Escragnole Taunay." (Transcrição)



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Foi, ao que parece, Rodrigues Arzão, natural de Taubaté, quem, primeiro, encontrou ouro nessa província. Penetrou pelos desertos de Cuiaté e, no ano de 1695, apresentou três oitavas desse metal à câmara municipal da sede da província do Espírito Santo. Com o ouro que recolheu foram cunhadas duas medalhas, uma das quais ofereceu a São Paulo. Os habitantes da capitania de São Vicente passaram, desde então, a só pensar nos tesouros de Cuiaté.
Arzão, ao morrer, entregou o roteiro de sua perigosa excursão a seu cunhado Bueno de Cerqueira, o qual, por sua vez, entranhou-se pelo sertão. Durante suas excursões, encontrou um outro bando que caçava indígenas. Os homens que compunham esse bando, sabendo do objetivo das buscas de Cerqueira, ao mesmo se aliaram, renunciando à caça aos indígenas; assim, todos juntos só cuidaram de descobrir ouro, que foi encontrado com abundância; mas ignoravam como se devia proceder para extraí-lo da terra e limpá-lo. Em vez de picaretas, utilizavam-se de pedaços de ferro pontiagudos, ou mesmo de pedaços de madeira, e separavam o metal precioso dos corpos estranhos, com auxílio de pratos de estanho.
Em pouco tempo, entrementes, bandos numerosos de homens de todas as idades e de todas as condições saíram de São Paulo e das vilas vizinhas, à cata de ouro. Indiferente lhes era galgar montanhas das mais escarpadas, atravessar rios encachoeirados, penetrar nas florestas espessas, cheias de cobras venenosas e de feras bravias: a cupidez parecia-lhes re dobrar as forças, afastando-lhes todos os perigos. Esses homens, a princípio, tiveram o bom alvitre de seguir por caminhos diferentes e deixar os primeiros chegados na posse dos tesouros que descobriam. Dessa forma espalharam-se, em pouco tempo, por toda a superfície da região recentemente descoberta; encontraram ouro por toda a parte, originando-se daí a denominação de Minas Gerais que deram à região, que se tornou o maior centro de mineração do país.
Os paulistas, no início de suas expedições à cata do ouro, nenhum estabelecimento fixo formaram nas regiões que lhes prodigalizavam riquezas. Quando encontravam ouro em algum lugar, no mesmo levantavam, às pressas, pequenas cabanas, e, quando o precioso metal se esgotava, iam para diante. Certas localidades, porém, eram tão ricas, que nas mesmas por mais tempo permaneciam, construindo casas e formando aldeias, muitas das quais, com o correr dos tempos tornaram-se cidades.
É devida aos paulistas a fundação de Mariana, Ouro Preto (antiga Vila Rica), Sabará, Caité, Pitangui, São José e muitas outras cidades ainda, que foram, originariamente, arraiais, denominação que, por força do hábito, ainda se dá a todas as aldeias da província de Minas Gerais. Se bem que os mineradores paulistas adotassem algumas precauções para evitar motivos de dissídios, era difícil que, tendo costumes igualmente rudes, estando igualmente possuídos da sede de ouro, entregando-se às mesmas buscas para satisfazê-la, vivessem sempre em paz.
Desde que a vila de Taubaté deixara de ser um aldeamento de indígenas, tornou-se rival de São Paulo, de que é vizinha. A descoberta de minas de ouro fez nascer novos ódios entre os habitantes das duas localidades, e, na ocasião da viagem do autor, seus descendentes conservavam ainda lembranças das contendas de seus antepassados. Dissensões bem graves não tardaram a explodir no território das minas.
A notícia da importante descoberta espalhou-se com extrema rapidez. De todas as partes do Brasil afluíram nuvens de aventureiros, de desertores, de criminosos perseguidos pela Justiça, e, dentro em pouco, esses indivíduos foram seguidos por grande número de europeus, quase tão perversos como eles. Os paulistas possuíam algumas ideias generosas, das quais não podia compartilhar essa malta de homens sem escrúpulos, escória de Portugal e do Brasil; todavia, não se pode negar que o hábito de viverem cercados de numerosos escravos, suas caçadas aos indígenas, a licenciosidade a que se entregavam, longe de toda a vigilância, no meio dos desertos, tenha contribuído fortemente para sua corrupção. Todos os vícios, parece, tiveram morada na região das minas. Todas as paixões desencadearam-se ali; ali se cometeram todos os crimes.
Não viam os paulistas, sem indignação, estrangeiros virem se estabelecer nas ricas terras que consideravam como lhes pertencendo. Orgulhosos de seus numerosos escravos e das riquezas que possuíam, antes mesmo da descoberta das minas, tratavam os forasteiros recém-chegados com o mais profundo desprezo; faziam-nos passar por contínuos vexames e deram-lhes o ridículo apelido de emboabas, por que, usando os mesmos botas ou perneiras, tinham semelhança, diziam, com certas aves cujas penas descem até os pés.
Tantas afrontas acabaram revoltando os recém-vindos; dois partidos se formaram – os estrangeiros ou forasteiros puseram à sua frente o português Manuel Nunes Viana, homem poderoso, ativo, dotado de espírito penetrante, e que, embora cheio de doçura e afabilidade nas circunstâncias normais da vida, sabia, em caso de necessidade, desenvolver grande energia.
Alguns padres que, esquecidos de seus deveres de caridade cristã, tinham-se introduzido na região das minas, atraídos pela sede de ouro, agregaram-se aos forasteiros, instigando-os à revolta. Um deles, certo padre Antônio de Meneses, da ordem da Trindade, agitador subalterno, levou-os a se apoderarem das armas dos paulistas, por meio de traição e a proclamarem Nunes governador da região. Explodiu a guerra civil. Houve combate nas cercanias do rio das Velhas. Os forasteiros foram vencedores, mas mancharam a vitória, assassinando um bando de paulistas que acabava de se entregar.
O governador do Rio de Janeiro – d. Francisco Martins de Mascarenhas – sabedor do que ocorria na região das minas, para ali se dirigiu. Nunes foi a seu encontro com um bando considerável de homens armados, causando-lhe admiração pelo seu porte cheio de ousadia. Numa entrevista havida entre ambos, Nunes afirmou ao governador que nunca deixara de ser um súdito fiel, persuadindo-o de que, se se tinha posto à frente dos sediciosos, foi unicamente para os conter. Diante disso, o governador regressou ao Rio de Janeiro. Mas, após seu regresso, Nunes passou a exercer, discricionariamente, as funções de governador. Nomeou para os cargos públicos os homens mais capazes que pôde  encontrar, restabeleceu a ordem do melhor modo possível, mas foi objeto da censura das pessoas de bem, por não ter tido sua autoridade origem legítima.
Durante esse tempo, os paulistas se preparavam para a vingança. As mulheres de São Paulo incitavam os homens com furor, acoimando-os de cobardes; os padres, diz o padre Manuel da Fonseca, deslembrados de que a paz é o patrimônio da Igreja, faziam ressoar nos templos gritos de guerra. Bem armados, os paulistas saíram de São Paulo, marchando para Taubaté, a fim de nesta localidade aliciar recrutas.
Entrementes, chegou de Lisboa ao Rio de Janeiro Antônio de Albuquerque Coelho, para substituir Meneses no cargo de governador (1709). As pessoas mais sensatas da região das minas, embora fazendo justiça a Manuel Nunes Viana, sentiam quanto sua posição era falsa e perigosa. Enviaram a Albuquerque, secretamente, um religioso que fora seu secretário, a fim de suplicar-lhe que restabelecesse entre eles a autoridade legal. Esse governador era homem de grande capacidade e atividade.
A fim de inspirar mais confiança aos habitantes da região das minas, à mesma se dirigiu, quase sem séquito. Todos se submeteram à sua autoridade, e, imediatamente, uma anistia geral foi concedida a todos os rebeldes, com exceção do frade trinitário, de um companheiro de Nunes Viana e do próprio Nunes, que morreu na prisão, mas que, talvez melhor sorte merecesse.
Era mais difícil chamar à ordem os paulistas, sempre exasperados pela traição de que tinham sido vítimas. Albuquerque, entretanto, tentou apaziguá-los, procurando entendimento com o seu pequeno exército, mas, percebendo que os concitava inutilmente à paz e receoso, quiçá, pela sua própria segurança, julgou mais prudente retirar-se, apressando-se em chegar ao Rio de Janeiro, de onde, secretamente, mandou dizer aos emboabas da região das minas que se apresentassem para receber os paulistas.
Estes, efetivamente, chegaram pouco tempo depois até perto do rio das Mortes e atacaram um pequeno forte onde se tinham refugiado os emboabas. De ambos os lados a luta foi encarniçada; mas os paulistas distinguiram-se em todos os encontros, pela habilidade com que visavam seus inimigos. Cientes, entretanto, de que numerosos reforços chegavam em socorro destes últimos, aproveitaram-se das trevas da noite para se retirar, e voltaram a São Paulo, tudo devastando em sua passagem.
Essa expedição acalmou o furor dos paulistas. Albuquerque aproveitou-se habilmente, da feliz disposição em que se encontravam os mesmos. Enviou aos membros da câmara municipal de São Paulo um retrato de d. João V, escrevendo-lhes que, se o rei não podia visitar sua cidade, queria pelo menos que sua imagem ficasse no meio de seus habitantes, a fim de demonstrar aos mesmos que os tomava sob sua especial proteção. Os paulistas, que eram realmente afeiçoados a seu soberano, ficaram sensibilizados com a honrosa distinção, e tudo voltou à ordem.
Albuquerque apressou-se em dar conta a seu soberano de tudo o que acabava de acontecer. O ministério português verificando que um só homem não podia governar a imensa região que se estende desde a embocadura do Paraíba até as colônias espanholas, e do oceano até as nascentes do Arraçuaí, desmembrou da capitania do Rio de Janeiro o território de São Paulo, assim como o das Minas, e destes dois últimos formou-se (9 de novembro de 1709) um governo distinto.
Albuquerque aprendera a conhecer os paulistas. Foi ele quem à frente dos mesmos foi posto. O governo português concedeu-lhe a liberdade de residir onde julgasse conveniente; preferiu, entretanto, os arraiais de Minas Gerais recentemente fundados, São Paulo, cuja situação era mais aprazível e onde se observava sempre certa deferência para com as autoridades nomeadas de conformidade com as leis. A vila de São Paulo foi, então, homenageada com o nome de cidade de São Paulo, nome que também foi dado à nova capitania.
Até essa época a administração da capitania não cessara de ser entravada pelas contendas de disputas dos herdeiros dos dois primeiros donatários. O rei pôs termo (1711) a essas longas querelas, comprando, do marquês de Cascais as 50 léguas de terras que o mesmo possuía na capitania de São Paulo, como sucessor de Pero Lopes de Sousa. Ficou, então, a autoridade concentrada por inteiro na pessoa do capitão-general de São Paulo, não sendo mais de temer as agitações oriundas da situação anterior, e a administração começou a seguir marcha regular.
Desde esse momento os paulistas constituíram, quase sempre, um povo submisso e fiel, sem perda, entretanto, do seu gosto pelas aventuras e correrias longínquas, em consequência das quais não cessaram de fazer descobertas, até que não houve mais nada a descobrir. Fixaram-se os paulistas, primeiramente, nas partes do território de Minas Gerais mais vizinhos da alta cadeia de montanhas que o percorre do norte ao sul. Em pouco tempo, porém, espalharam-se por todo o território da região mineira, e não se contentaram apenas em procurar ouro: formaram, nos vastos campos marginais do rio São Francisco, estabelecimentos para a criação de gado.
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Fonte: HISTRIAS E LENDAS DE SANTOS - SANTOS http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0300c2.htm 
Nota: Faz-se necessário considerar que, o mais emblemático e trágico momento desse contenda, foi o evento denominado capão da traição, circunstância na qual, não obstante ao fato de haverem entregues as armas em rendição, foram os paulistas trucidados, pelas forças emboabas, sob o comando de Bento do Amaral Coutinho., .