sexta-feira, 6 de maio de 2016

O DIA EM QUE AS MULHERES SE REVOLTARAM (Transcrição)


(Guerra dos Emboabas - do livro "Aconteceu no Velho São Paulo", de Raimundo de Menezes - Coleção Saraiva - 1954)
Foi ao cair de uma tarde tristonha, há muitos anos, há muito tempo mesmo, aqui em São Paulo. O episódio, verdadeiramente espartano, aconteceu quando Piratininga era uma pequena vila, inexpressiva, pobremente arruada, cheia de ladeiras íngremes. porém habitada por uma gente estóica, capaz de gestos e atitudes que assinalaram a época. Uma neblina grossa, nascida do rio Tamanduateí esparramava-se por cima do minúsculo povoado, "escondendo-o em espesso e úmido nevoeiro." Nesse entardecer melancólico, naquele março de 1709, quando todos já pensavam em recolher-se, eis que a notícia terrível, trazida por um apavorado portador, sacudiu toda a gente. A notícia era dessas de fazer arrepiar os cabelos: os paulistas em lutas com os emboabas, lá para os confins de Minas Gerais, tinham sido encurralados e sumariamente trucidados, no alto de um morro que, em conseqüência, recebera o nome de Capão da Traição. A carnificina havia sido medonha, indescritível, de uma covardia inaudita, e nela tinham perecido cerca de trezentos filhos de Piratininga! Escutaram bem? Trezentos paulistas... Logo apareceu gente de todos os lados para colher melhores informes.
Diante de Luís Pedroso, o jovem paulista que regressara, a multidão se aglomerou, e começaram as indagações. Não havia quem não quisesse saber de alguma coisa: que fim levou Julio Cesar? Jerônimo Pedroso? Lourenço Vaz? Francisco de Almeida? Manuel Veloso? Antônio Monteiro? E os outros? E a resposta era uma só, incisiva, dramática. Todos foram vítimas da cilada diabólica. Só escapara Rui Gonçalo. Vira e assistira tudo. Ficara escondido no meio do mato e nada pudera fazer. Iniciou-se o comentário revoltado de todos, principalmente das mulheres. E nasceram as propostas. E nasceu a revolta. Antes porém, todos fizeram questão de saber como acontecera a desgraça, de que forma haviam morrido aqueles trezentos infelizes paulistas.
Luís Pedroso começou a contar o episódio medonho. O que ele contou foi esta coisa espantosíssima. Escutem e fiquem estarrecidos, tantos e tantos anos passados. Frei Francisco de Menezes, " o maior apóstata que então andava em Minas", era uma alma danada. Nada possuía de espírito cristão. Porque perdera a exploração rendosíssima do contrato dos açougues, assim como o monopólio da aguardente e do fumo, e atribuíra o fato aos paulistas, contra eles virou o seu ódio, um ódio de vida e de morte. E meteu aquilo na cabeça do ditador Nunes Viana. E Nunes Viana, que era um indivíduo fraco, ficou envenenado.
O Capão da Traição
Logo nos primeiros dias do ano de 1708, começaram as escaramuças. Os paulistas, que andavam no trabalho das minas, passaram a ser escorraçados pelos portugueses, que os índios, por vê-los calçados, com alusão às aves de pernas empenadas, apelidavam de emboabas. Um dia, o arraial de Sabará amanheceu cercado. Em poucas horas, dominaram-no. Incendiado e exterminado o lugarejo, os paulistas derrotados encurralaram-se em Cachoeira do Campo. Ali conseguiram defender-se como puderam. Foi uma defesa que durou pouco, embora tivessem logrado ferir o próprio ditador, que comandava as tropas inimigas. Ao final, graças a um ardil satânico do temível frei Francisco de Menezes, que então assumira a chefia do ataque, os paulistas foram desgraçadamente rechaçados.
Nem era possível uma vitória: a proporção era de um paulista para dez emboabas. A peleja final teve momentos épicos: um corpo a corpo que não se descreve. "Pelejou-se peito a peito. Menos hábeis os paulistas em tiros de fogo, excediam em muito aos europeus, se brandiam as armas brancas, os machados, as foices. As armas de fogo, espingardas e flechas pouco espaço achavam na luta, na qual os paulistas, com seus músculos rijos, criados à mercê das intempéries e afeitos às agruras do sertão, nada cediam ao inimigo. Ao anoitecer, os paulistas, sangrando, lanhados, feridos, cobertos de lama, estavam mais mortos do que vivos. Estavam sobretudo famintos. Principalmente as mulheres e crianças. O quadro era contristador. Desses que cortam o coração.
Foi, então, que ocorreu um fato inaudito. Surgiu em cena o sargento-mor Bento do Amaral Coutinho, (guardem bem esse nome e seus antecedentes), brasileiro, "fluminense, façanhudo, vingativo e cruel". Ao amanhecer, depois de uma noite medonha e inesquecível, quando os paulistas procuravam levantar acampamento, a caminho de Embaú, numa tentativa de chegar a São Paulo, estavam irremediavelmente cercados, cercados por todos os lados. Nem foi possível empurrar para a frente as mulheres, os inválidos, as crianças, o gado...
Bento do Amaral Coutinho determinara ao capitão Gonçalo Ribeiro Coso que cortasse a retaguarda. Ele, todavia, foi infeliz no movimento envolvente. "Os índios não se contiveram, saíram dos seus esconderijos e acompanharam o retorno de Gonçalo Coso com uma vaia doida." Uma vaia que ecoou longe. Aquilo foi pior, bem pior. Achincalhados assim, cheios de fel, os emboabas retrocederam dispostos a tudo. Amaral mandou tocar as cornetas e avançou como um endemoniado. Vinha disposto a trucidar os atrevidos. Deparando, porém, com o triste quadro dos paulistas famintos, desbaratados, como um bando de animais, teve uma idéia diabólica.
Após dois dias de cerco, um cerco que ficou na memória de todos, sem pão e sem água, não tiveram os homens de Piratininga outro jeito senão entregar-se, propondo uma trégua. O velho João Antunes, tio de Gabriel de Góis, como o mais velho da tropa, saiu de bandeira branca em punho. Amaral Coutinho foi-lhe ao encontro. Abraçou-o efusivamente com mostras de carinho. Mandou servir-lhe comida e bebida. Cativou-lhe as simpatias. O velho Antunes contou-lhe então do medo de que estavam tomados os seus conterrâneos, "pois bem conheciam e sabiam quais eram as ordens do ditador: e o que se tinha feito, em todos os combates, com os prisioneiros." Amaral, porém, acalmou-o e prometeu-lhe mundos e fundos. Que nada lhes aconteceria se se entregassem com armas e tudo. E não vacilou em "prestar um juramento terrível, pela Santíssima Trindade, de que nenhum mal faria aos paulistas". Antunes retornou cheio de esperanças e bastante entusiasmado com o tratamento que recebera. O capitão Amaral Coutinho não era o que pensavam e o que se dizia. Era um homem digno, de palavra. Podiam acreditar.
E tanto falou que acreditaram... Todos saíram dos esconderijos. Todos se entregaram com a melhor boa-fé. Entregaram, com a mais singela ingenuidade, as armas, as munições, tudo. E - escutem agora este desfecho inacreditável! - quando Coutinho viu todos desarmados, não teve dúvidas em, pessoalmente, chefiar a mais bárbara carnificina de que se tem notícia na história. Matou-os, um a um, exterminou aqueles trezentos indefesos paulistas. Trucidou-os, sem dó nem piedade. Não adiantaram nada os choros das crianças, as lamentações das mulheres, os gemidos dos feridos... Tudo em vão. A fúria era canibalesca. Era execrável. Coisa nunca vista. Os poucos que puderam escapar, sabe Deus com quantos sacrifícios, embrenharam-se mato a dentro e foram devorados pelos índios e pelas feras... O episódio do Capão da Traição nunca foi esquecido. Nem será nunca, rolem os anos que rolarem.
O juramento
A história lancinante chegara a São Paulo naquele entardecer. A pequena vila cobrira-se de tristeza e de luto. Nessa noite, ninguém, em Piratininga, dormiu. Nem podia dormir. Uma vigília, e que vigília! Júlio Ribeiro [o romancista de "A Carne"], com sua pena de mestre, já recordou o capítulo memorável, em que a mulher paulista, mais uma vez, teve papel proeminente. O povo estava reunido em praça pública, deliberando que atitude tomar, quando aquele bando de velhas, moças, casadas, solteiras, viúvas, foi-se chegando...
"Eram mulheres paulistas: eram viúvas venerandas, esposas castas e respeitáveis, donzelas pudicas e cingidas pela tríplice coroa da juventude, da virgindade e da formosura, que se reuniam, como se tivesse precedido acordo para um fim meditado. De súbito, emparelhando-se à cabeça de Luís Pedroso, desenhou-se um busto vigorosamente acentuado: um rosto feminino pela beleza e viril pela expressão, um colo alvíssimo emoldurado por longos caracóis de cabelos, uns ombros maravilhosamente esculturais, eis o que se pôde ver à luz dúbia do archote: o talhe esbelto, o vestido roçagante, adivinhavam-se perdidos na incerteza da sombra.
"Paulistas - gritou - todos vós conheceis-me muito bem: sou a esposa de Francisco Bueno. Venho falar-lhes em nome de minhas patrícias... As mulheres paulistas amam muito a seus pais, adoram seus maridos e idolatram seus filhos: mas não podem querê-los desonrados. E eles o estão. Enquanto não tiver sido lavada a afronta que pesa sobre Piratininga, enquanto o sangue paulista bradar por vingança, vos negamos carícias de filhas, nossos afagos de esposas, nossa ternura de mães. É um voto solene que fizemos: eu, para dar exemplo, recolho-me hoje à casa de minha avó: meu marido partirá sem que o estreite a meu seio, meu filho seguirá sem que eu o beije nos lábios. Ou vê-los-ei voltar vitoriosos do inimigo, ou nunca mais meus olhos se apascentarão em seus rostos amados: vencidos, não os reconhecerei por pedaços de minha alma. E este é nosso pensar: é isto que temos pactuado. Vergonha eterna à mulher que quebrar este convênio.
"Vergonha eterna à mulher paulista que quebrar este convênio - repetiram em coro, velhas, moças, donas e donzelas.
"Amanhã partiremos! - disse Luís Pedroso, apague-se da face da terra o nome dos emboabas, como se extingue a luz deste facho.
"E, virando o archote, calcou-o aos pés. As fogueiras consumidas já não davam luz. Tudo ficou trevas."
Como tudo terminou
A expedição dos paulistas não partiu no dia seguinte, como tinham jurado, no entusiasmo da noite anterior. Nem era possível. Necessitavam aprestar-se devidamente, armar-se, municiar-se, para enfrentar a luta que lhes parecia das mais sérias. A partida em busca do rio das Mortes, como ficou conhecida, então, aquela região mineira, só se deu meses depois: depois de 24 de agosto de 1709. Escolheram um chefe. E o chefe só poderia ser um que reunisse qualidades de destemor, e que merecesse a confiança de todos. A escolha recaiu em Amador Bueno da Veiga, neto do célebre Amador Bueno da Ribeira, que renunciara a coroa de rei, fazia tempos... Só a sua parentela poderia contribuir com metade do exército em formação: "em escravaria, armas, munição, equipamentos, víveres e transportes." Quem muito contribuiu, também, para a organização dessa expedição guerreira, foi o riquíssimo padre dr. Guilherme Pompeu do Amaral. Morava em Araçariguama, nadando em dinheiro. Cedamos ainda uma vez a palavra a Júlio Ribeiro, para que ele nos narre como se deu a partida da tropa armada com o fito de lavar a honra de São Paulo ultrajado.
"A população de Piratininga, aglomerada no Pátio do Colégio, cedia à tristeza de uma despedida e soluçava. Soluçava, porque partia a expedição contra os emboabas As matronas, que na véspera incitavam, fustigavam, esporeavam o ânimo dos varões, tinham, nessa hora, medo de sua obra... Se não partissem, desprezar-los-iam; partiam, elas choravam. Contradição sublime do espírito humano, que assim obra por uma lei da natureza. Os paulistas tinham acabado de ouvir a missa cantada, com que nessa época de crenças e devoção precediam-se a todos os atos públicos de alcance momentoso. Formados em pelotões no vasto pátio que até hoje alarga-se em frente ao Colégio, esperavam a voz de marcha.
"O sol, na meridiana, dardejava torrentes de luz, fazendo reverberar os canos polidos das longas carabinas, as pontas acesas das azagais esguias, as lâminas espelhantes dos sabres desnudos. O variegado dos trajes em que se alternavam lençarias de preço com tecidos grosseiros; os talabartes de couro cru, a par de talins de anta lavrada; os ornatos de cobre prateado, a emparelharem-se com apeiros de ouro fino; os ginetes de pura raça, enxalreados de veludo, nitrindo ao lado de desgraciosos, mas robustos garanhões de traquejo; tudo indicava que a expedição se compunha de gente de todas as classes e haveres, selvagem e orgulhosa como o leão do deserto, nivelada por uma mesma idéia, movida por um sentimento comum, atirada ao sertão por idêntico impulso - a vingança.
"Amador Bueno, vestido de velbutina azul agaloada de ouro, refreava o ardor de um magnífico cavalo alazão, e brandia com ar senhoril a espada de comando. Logo atrás viam-se Luís Pedroso, montando fogoso corcel, e mais ainda Francisco Bueno e seu filho Vicentinho, uma criança ainda, e Rui Gonçalo, com seu sombreiro de couro e botas gigantescas, os bigodes arrepiados... E o resto. - São Paulo, avante, marchemos" - gritou Amador Bueno, esporeando seu cavalo. E a tropa começou a mover-se. "Em marcha regular, compassada e medida, desfilou o exército pela rua que ia dar ao convento dos Carmelitas, atravessou a ponte do Tamanduateí, desceu a escada íngreme do morro, alongou-se pela várzea coleando nas voltas caprichosas da estrada como uma serpente descomunal.
"Sumiu-se. Uma nuvem de pó que, avermelhada pelo sol, afigurava-se um vapor sangrento, marcava nos ares as paragens que iam calcando os valentes filhos de Piratininga. Essa nuvem e tropear surdo, que, de momento a momento, mais indistinto se tornava, eram as últimas consolações, ou antes, as derradeiras amarguras, para os que ficavam carregados de mágoa, imersos em tristeza, roídos de saudade... Foram-se atenuando, esvaecendo, sumindo... Sumiram, também. Abatidos e cabisbaixos, os poucos moços válidos que restavam, os velhos, mulheres e meninos procuraram em silêncio as suas moradas... Os sinos se tinham calado: Piratininga deserta parecia uma povoação assolada pela peste..." Dali, a expedição, depois de atravessar os ribeiros Passa-Vinte e Passa-Trinta [região de Andrelândia-MG], foi bater em Pouso Alto, num dos maravilhosos contrafortes da Serra da Mantiqueira. E bivaqueou.
Uma manhã, recebeu Amador Bueno insolente bilhete de desafio de Ambrósio Caldeira Brant [administrador da Colônia e, mais tarde, contratador de diamantes], entrincheirado em Ponta do Morro, que, entre outras coisas, lhe mandava dizer que "não tardasse a vir às Minas com sua gente, para ser devidamente castigado". E, depois de quatro semanas, a tropa de Amador Bueno chegava perto do reduto de Caldeira Brant. Mal acampada, e disposta a cercar imediatamente o arraial de Ponta do Morro, eis que o próprio Caldeira Brant, montado no seu cavalo, à frente de um esquadrão, lhes veio propor a paz... Mas que decepção! Aos paulistas, nem era possível acreditar no que lhes estava acontecendo. A capitulação fora desconcertante. Não chegaram a queimar um cartucho sequer. Os sitiados rendiam-se precipitadamente. O "cabo maior e defensor da pátria", Amador Bueno da Veiga, com aquele magote de homens destemidos, regressava logo depois a São Paulo, recebido com entusiasmo por aquelas mesmas matronas, viúvas, esposas, donzelas, que os haviam intimado a ir lavar a honra de Piratininga, maculada no malfadado Capão da Traição.