quarta-feira, 4 de maio de 2016

O IMPÉRIO DO CAPITÃO AFONSO - Artigo de João Barcello (Transcrição)

Do Ato Fundiário
Pela Miscigenação
Os testamentos, os inventários, as atas municipais da vereança paulistana, dizem tudo sobre a conquista do oeste da vila jesuítica pelos sertões à margem do rio Tietê ou do rio Cotia, Piabiyu acima... De um lado, terras de guayanazes, e do outro, de guaranis karai-yos. Se os guayanazes falam de um portinho lá nos confins da nascente do Tietê, os karai-yos falam de um “caminho do Peru” [= “Piabiyu”]. O ideal é ficar a meio caminho entre as duas “entradas”. Homem de visão, Afonso Sardinha, dito “o Velho”, mercador e minerador, depois de ter faiscado e extraído ouro em Cubatão e em Guaru [Guarulhos], sai de Santos para fixar residência na vila de São Paulo dos Campos de Piratininga e logo dá início à conquista do Pico do Jaraguá... Mas, enquanto isso, percebe a importância de “um meio caminho entre as entradas nativas para os sertões” e estabelece fazenda, de criação e de apoio logístico, na região do Ybitátá, autêntica porteira da vila e com acesso para o Tietê, o Pinheiros e o Cotia, rios de suma importância para o abastecimento e para descobrir o continente florestal e minerário. E, do Ybitátá, “o Velho”, resolve dar mais um passo no seu assentamento fundiário para o oeste: adquire a aldeia guayanaz dita Carapocuyba transformando-a em fazenda... Entre as fazendas do Ybitátá e de Carapocuyba instala-se o magno desejo de cumprir a conquista das terras brasis, pois, as suas gentes são parte do ser e do estar Portugal pela aplicação da uma estratégia bélica de segurança: a miscigenação. Iniciada por João Ramalho, no planalto, e pelo Bacharel de Cananéia, no litoral, a miscigenação entre portugueses e americanos da Capitania de S. Vicente é continuada por homens destemidos como Afonso Sardinha que, inclusive, reconhece oficialmente um filho que tem com uma nativa, e ao qual dá o próprio nome, pelo que vem a ser conhecido por “o Moço”.
Afonso possuía terras em Santos e faz comércio de tudo, incluindo escravos. Quando decide montar casa na vila jesuítica de Piratininga é já um homem poderoso, e isso deixa-o muito à-vontade para se integrar ao Poder político: na Casa da vereança é vereador, almotacel e presidente, e lá mesmo propõe-se “Capitão de Gentes de Guerra” para defender a vila e, ao mesmo tempo, cuidar dos seus interesses rurais e minerários.
Com “o Velho” Afonso Sardinha toda a estratégia jesuítica para o assentamento de um império teocrático próprio ganha outra dimensão: o apoio político e financeiro. Ele sabe do interesse teocrático, mas também fundiário e capitalista dos jesuítas... A aliança com os padres da Sociedade de Jesus cai como uma luva, porque fazendo-os crescer, cresce também o investimento. No entanto, a par disso, Afonso também faz doações para as outras congregações católicas, como que a dizer “percebam que eu existo além de vós, que me vêem pela assinatura da cruz de três hastes...”. Ele faz das suas parcerias um balcão para a sobrevivência de um “eu” que os outros não conhecem: o eu judaico. Precisa ousar ser-estar além dos outros e assegurar para si uma parte daquele outro Portugal, imperial e colonial. Todo o Séc. XVI é uma odisséia judaica portuguesa no oeste da Capitania de S. Vicente, entre o Bacharel de Cananéia e “o Velho” Sardinha, só para citar dois exemplos. Assim, uma aliança com os jesuítas é uma cobertura mística e econômica: Afonso precisa de espaços, a SJ precisava de escravos e de dinheiro. [Entenda-se aqui por “escravos” também os nativos americanos, uma vez que a doutrina católica determina serem escravos os negros da África e não os nativos da América...]. Com a instalação das fazendas de Ybitátá e de Carapocuyba, o mercador, minerador e político Afonso Sardinha - o Velho passa a deter um poder único: na verdade, ele é um Estado dentro da Capitania de S. Vicente. De tal sorte que se propõe “capitão” [1] em plena assembléia da vereança e a Capitania ratifica a proposta, além de determinar que as minas encontradas e/ou adquiridas e exploradas por Afonso só a ele diziam respeito [2].
Pode-se afirmar, e eu o faço, que 1592 é o ano decisivo para a concretização do ideal de um outro Portugal nas terras brasis, porque Afonso Sardinha - o Velho passa a comandar, política, fundiária e economicamente, o esforço da conquista do continente pelo oeste ao largo da villa de Piratininga, mandada erguer por Manoel da Nóbrega [3], em 29 de agosto de 1553, o maior interessado na expansão jesuítica para o sul e com os olhos no Paraguay e na Argentina.
Além de minerar ouro e prata, em locais como Cubatão, Guaru, Jaraguá e Byturuna, este português encontra e explora ferro em Byraçoiaba [hoje, Araçoiaba], perto do Byturuna [hoje, Araçariguama].
[Ele é, com certeza, um daqueles portugueses que cresceram vendo “o ferreiro da aldeia lusitana às voltas com a arte de fundir o ferro e convertê-lo em aço, no mesmo estilo do velho celta, que já o fazia antes de Portugal o ser”, como disse, na Sampa de 1999, ao apresentar um estudo sobre a Civilização Celta.]
Quase sempre acompanhado pelo filho “o Moço” e pelo perito em minas Clemente Álvares, que faz seu sócio, Afonso equilibra a sua vida entre os afazeres agrários do Ybitátá e de Carapocuyba, os afazeres políticos da vereança, e os afazeres da mineração, tornando-se o grande senhor político e capitalista da época [1570 a 1611]; não é de admirar que seja, então, o primeiro grande senhor de escravos africanos e dono, inclusive, de um navio negreiro capitaneado Gregório, filho da sua irmã [4], que vive no Rio de Janeiro. Ou seja: a expansão senhorial e capitalista de Afonso acontece na mesma proporção em que a SJ se expande em aldeias, fazendas e colégios. Está aberta a conquista do oeste no percurso da primeira Via do Ouro feita por um português nas terras brasis.
Entre as fazendas e as minas de Afonso Sardinha - o Velho, a par da miscigenação contínua, acontece um outro Portugal que carreia já a aventura mameluca na corrida para uma nova nação, e quando os bandeirantes alargam essa rota através do Piabiyu e do Tietê e encontram Araratiguaba [hoje, Porto Feliz], o portinho dos guayanazes, o Brasil acontece... Ninguém acha Portugal, mas tropeça no luso-brasileiro e no luso-afro-brasileiro, logo, a terra dos brasis vira Brasil!
Do Ato Feudal à Estratégia Capitalista
Que Fez Nascer O Brasil

“12 de Outubro” – Uma Sesmaria Político-Fundiária
O colono português que sobe a Serra do Mar tem conhecimento de duas verdades: ou fica “a-volante”, como descreve mais tarde o Morgado de Matheus [5], ou, com parcos cabedais, estabelece-se no planalto da villa de Piratininga. No caso de Afonso, a realidade é outra: sobe a serra não para se instalar no planalto, mas para conquistá-lo com a mesma fé que o leva a querer possuir o espaço que vislumbra através da menorah [6], símbolo que lhe enche a alma de orgulho.
Entre 1554 e 56, Afonso faz mineração em Cubatão, ainda na escalada da Serra do Mar, logo acima de Santos, e no topo, em Guaru [7], onde a fortuna lhe sorri. Tal é a sua atitude desbravadora que, em 1557, ganha espaço para escambo [8] com a Capitania de S. Vicente e recebe a região do Ybitátá // Uvutantá [do tupi-guarani, q.s. Terra Roçada // Terra Socada] em troca da construção de uma ponte sobre o Rio Jurubatuba [9], que deságua no Rio Anhamby [10]. Aí, em 1557, instala a sua principal fazenda, pólo logístico político-militar e de produção agro-pecuária, que lhe é base; e no mesmo ano, amplia o seu poder fundiário ao tomar dos guayanazes a Aldeia Carapocuyba e transformando-a em fazenda com cruz de pátio e capela [supõe-se que a capela é “construída” em homenagem a São João Batista, pois, mais tarde, no sentido de Osasco e Itapevi, a região passa a ser conhecida por “Parada S. João”]; assim, a Aldeia-Fazenda Carapocuyba passa a ser o ponto intermediário para desbravar os sertões de Ypanen, pelo Vale d´Anhamby, e do Piabiyu, pela Aldeia Koty, dos karai-yos.
Com as regiões do Ybitátá e da Carapocuyba nas mãos, Afonso Sardinha - o Velho domina o território que vai servir de “entrada” para as Bandeiras [11] de Raposo Tavares e Dias Paes [o Moço], nos Séc. XVII, além de, a partir do Byturuna, centralizar as operações de logística e de custeio bandeirístico através da Família Pompeu de Almeida [12].
De entre Ybitátá, Carapocuyba, Koty e Byturuna, são estabelecidas as rotas para a conquista do oeste, através do qual o já luso-brasileiro, colono e minerador, galga o continente para configurar a futura nação.
Não reconhecer a estratégia do velho Sardinha é desconhecer o fato político-fundiário que leva a Capitania de S. Vicente a oficializar a Sesmaria de 12 de Outubro de 1580, através do capitão Jerônymo Leitão,, em pleno domínio castelhano do Trono luso!... É o vereador, minerador, capitalista-banqueiro, colono e dono de navio, Afonso Sardinha, o representante de uma família judaica há muito convertida ao catolicismo, e para ele interessa somente o poder de decidir sobre o seu destino, por isso, quer e consegue ter aliados fortíssimos [os jesuítas] na sua empreitada de continuar o trabalho do Bacharel de Cananéia [13] e do colonialmente “deslocado” João Ramalho [14]. Já homem de Poder nos anos 80, aquele que virá a ser Capitão de Gentes de Guerra de São Paulo força, com os jesuítas, uma canetada político-administrativa para preservar os seus bens – bens que os jesuítas já sabem serem seus, por testamento do Casal Sardinha, uma vez que ao mameluco “o Moço” já deixaram parte da herança. Assim nasce, mais para proteção dos “bens” dos jesuítas do que para os de Sardinha, a Sesmaria de 12 de Outubro de 1580. A “canetada”, quando o Piabiyu ainda está oficialmente interditado à circulação de bens e de europeus!, preserva os pólos estratégicos de “o Velho” e, com isso, as rotas pré-bandeirísticas da mineração que estabelecem a primeira Via do Ouro sistematicamente operada por um só empreendedor. Dessa ação de proteção, regiões como Carapocuyba e Koty ficam isoladas e funcionam apenas como paradas: a “parada da Koty” [bandeiras de Tavares e de Paes] e a “parada de S. João” [a ligar todo o sertão carapocuybano], mas mais a Koty guarani do que a Carapocuyba, porque o porto fluvial guayanáz lhe é porta de entrada e de saída, apesar dos guaranis karai-yos...
E sobre o guarani Karai-Yo lembro o que a professora Fernanda Marques escreveu recentemente, e após ler algumas das costumazes e infelizes afirmações acadêmicas sobre elas
Karai-Yos no Sertam do Oeste Paulista
“(...) e assim e mandando se façam algumas entradas ao sertão a descer e conquistar muito gentio pagão que ha muitas nações que vivem á lei e modo brutos animaes (...) e principalmente o gentio carijó (...) a esta capitania atemorizando” [1].
É regra, nos estudos acadêmicos, e outros, sobre o “sertam a oeste da villa piratininga”, nos Sécs XVI e XVII, afirmar-se que os nativos tupis (no geral) dominavam a região e muita desgraça causaram aos colonos, civis e religiosos. Entretanto, em leituras atentas sobre as Atas e o Registro Geral da Câmara de São Paulo, pode-se verificar que os nativos que mais obstinadamente se confrontaram com os europeus foram os Karai-Yos [ou Carijós] nativos de Língua guarani, espalhados pela malha de caminhos ancestrais conhecida por Piabiyu.
As principais “entradas” [expedições para-militares] para prear e escravizar nativos foram pela emergência dos ataques guaranis [2] ao planalto piratiningo, onde os jesuítas instalaram o colégio e a igreja. No romance histórico “Gente da Terra” [3], o pesquisador João Barcellos explica magistralmente como se deu essa política colonial que fez de Afonso Sardinha (o Velho) o primeiro caudilho da colônia.
1- QUADROS, Diogo de [capitão e provedor de minas] – in “Carta a El-Rei nosso senhor deste anno de 1606”. Registro Geral da Câmara de São Paulo. Suplemento. Volume 7.
2- Ainda em 1615, de acordo com o RG da vereança paulistana, o político e capitalista, militar e minerador Afonso Sardinha (o Velho), recebeu nativos karai-yos (guaranis) para empregar na labuta mineira, junto com outros nativos e africanos.
3- GENTE DA TERRA, romance com base em documentos ligados a Afonso Sardinha - o Velho, escrito por João Barcellos, entre 1989 e 2006. Edição Edicon, Terra Nova Comunic e Centro de Estudos do Humanismo Crítico (Brasil e Portugal), 2007
Diante dessa circunstância fundiária, minerária e política, é preciso, agora que estamos no Séc. XXI..., repor a Verdade histórica para que as populações brasileiras de São Paulo saibam o que é a sua origem nos Sécs XVI e XVII, e de como o Brasil acontece através dessa primeira Via do Ouro [15]. Também por esta circunstância, é preciso que se diga que as aldeias-fazendas criadas por Afonso sardinha - o Velho, no Ybitátá, no Jaraguá, no Byturuna [arraial] e na Carapocuyba, não têm sede-casa bandeirística, mas sede-casa de logística rural e minerária, além de serem centros de discussão política, uma vez que os vereadores paulistanos reúnem mais entre si, e em suas casas, do que na Casa piratininga.
A finalizar, porque os meus livros “Gente da Terra” e “Araçariguama – do Ouro ao Aço” [16] dizem o resto, sublinho que Afonso Sardinha - o Velho desbrava o Oeste Paulista para levar bandeirantes e religiosos católicos aos confins da “Insulla Brasil”, um verdadeiro continente de povos e de riquezas. 
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Fonte Noetica Pensamento & Liberdade :http://noetica.com.br/cap-afonso.html