sábado, 1 de outubro de 2016

A Nova História Cultural (Transcrição)

A chamada História Cultural é uma nova linha de pesquisa que se difere da História dedicada a estudar as artes, a literatura, a filosofia, deve ser encarada como a Nova História Cultural, que não descarta as expressões culturais das classes sociais elevadas, mais prioriza a construção histórica a partir das manifestações das massas anônimas, por aquilo que é considerado popular. Existe na Nova História Cultural (NHC) a preocupação em retratar os conflitos e as estratificações existentes nas classes sociais, através de uma história plural que apresenta caminhos alternativos para a investigação do problema. Burke (1937), ao escrever sobre a História Cultural afirma que é difícil escolher o tema de trabalho, pois em determinado estudo sobre um grupo social, a NHC trabalha com termos referentes à cultura popular representada pelo povo, então surgem questionamentos sobre quem é realmente o povo? O que é considerado popular? Por isso, procura-se trabalhar com a pluralidade, utilizando-se de conceitos como rural e urbano, masculino e feminino, e assim por diante. Trabalhar com o termo cultura, para Burke, é ainda uma tarefa mais difícil do que definir o "popular", pois este termo já foi utilizado para se referir às artes e às ciências, posteriormente empregado na descrição de manifestações populares, e por último, para designar artefatos e práticas sociais. Na Antropologia encontra-se o expressivo conceito tyloriano onde cultura é o "todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade". É certo que conceitos para o termo cultura são múltiplos, porém um em especial assume um papel relevante no fazer-se historiográfico: "Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura dos significados. Um padrão historicamente transmitido, de significados incorporados em símbolos, um sistema de concepções herdadas, expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atitudes acerca da vida." (GEERTZ, 1989)
Assim, Geertz traduz aquilo que os historiadores culturais pretendem fazer, colocar a cultura como fonte científica de interpretação do cotidiano, ou seja, construir o conhecimento através das relações entre os homens e compreender, interpretar, os atos de significados sociais que os envolvem. Como afirma Geertz, diante de tantas definições de cultura, é preciso escolher uma para a realização do trabalho científico.  A obra de Geertz (1989) A Interpretação das Culturas, terá um impacto grande entre os teóricos da História Cultural, pois ao realizar estudos sobre a briga de galo em Bali, o autor promove aquilo que ele chama de "descrição densa", chegando a interpretar os mais particulares atos de significação. O filósofo Ryle relata o caso de dois meninos que piscam rapidamente o olho direito, e Geertz, utilizando-se desta fala de Ryle, aproveita para, a partir do fato, explicar a descrição densa, interpretando a significação das piscadelas, que num dos meninos é um tique involuntário e no outro é uma questão de conspiração, um pacto entre amigos. Isto nos leva a entender que para o pesquisador atento, preocupado com a interpretação cultural dos homens e agrupamentos humanos, as diferenças das piscadelas indicam exatamente comportamentos sócio-culturais, possibilitando assim, uma leitura mais profunda da significação das coisas do cotidiano.A citação abaixo, sobre o caso das piscadelas, reforça a percepção dos diferentes sinais de cultura: No entanto, embora não retratável, a diferença entre um tique nervoso e uma piscadela é grande [...]. O piscador está se comunicando e, de fato, se comunicando de uma forma precisa e especial, deliberadamente, a alguém em particular, transmitindo uma mensagem específica, de acordo com um código socialmente estabelecido e sem o conhecimento dos demais companheiros. Conforme salienta Ryle, o piscador executou duas ações – contrair a pálpebra e piscar – enquanto o que tem um tique nervoso apenas executou uma – contraiu a pálpebra. Contrair as pálpebras de propósito, quando existe um código público no qual agir assim significa um sinal conspiratório, é piscar. É tudo que há a respeito: uma partícula de comportamento, um sinal de cultura e – voilà! – um gesto." (GEERTZ, 1989)  A preocupação com a hermenêutica, através dos atos de significação, dará a este autor destaque entre os teóricos alemães da História Cultural. No Brasil, nos últimas décadas, a obra de Geertz vem sendo expressivamente lida e interpretada, como aliada das novas construções historiográficas. Burke em seu livro "O que é História Cultural", ressalta que essa linha de pesquisas não é algo recente, pois há mais de 200 anos na Alemanha ela já era praticada, havia histórias sobre determinados grupos humanos, regiões e nações. O termo cultura era cada vez mais empregado na Europa, principalmente nas questões conflituosas entre a Igreja e o Estado, como acontece na Alemanha em 1870 num conflito conhecido como "a luta pela cultura" ou "guerra cultural".  O que acontece é a divisão da história cultural em quatro momentos, onde o primeiro seria a fase clássica, retratando temas renascentistas, preocupados em estudar as conexões entre as diferentes artes, ao interpretar pinturas, poemas, entre outros, buscava-se evidências da cultura e do período em que foram produzidos, chegando-se assim ao estudo da cultura de um povo. Em seguida mudou-se o foco para a história social da arte, onde muitas contribuições históricas vieram de sociólogos como Max Weber, quesegundo Burke, trabalha com a questão das raízes culturais do sistema econômico dominante na Europa Ocidental e na América, obra intitulada de "A Ética Protestante e o Espírito Capitalista", que tinha como eixo principal apresentar uma explicação cultural para as mudanças econômicas. O terceiro momento da história cultural é visto como aquele em que ocorre a descoberta do povo, assim como a produção artística e cultural que este realizava. Certamente que a cultura popular já era estudada desde o século XVIII, porém este tema estava destinado mais aos antropólogos e folcloristas do que propriamente aos historiadores. Somente a partir 1960 que estes historiadores se interessam por esse campo de pesquisa. Burke afirma que o mais influente estudo realizado nesse momento foi "A Formação da classe operária inglesa", onde Edward Thompson não só analisa as mudanças econômicas e políticas ocorridas na classe trabalhadora e assalariada, como também o lugar da cultura popular nesse processo, retratando rituais de iniciação de artesãos, questões sobre alimentação, religião, sentimentos, enfim a cultura do povo. Thompson influenciará muitos trabalhos produzidos durante o período, da Alemanha até a Índia, que caracterizam pela preocupação de produzir um conhecimento que envolva as pessoas comuns e que não se restrinja às questões econômicas e políticas, mas englobe diversos segmentos sociais. A discussão sobre estes temas culturais na Alemanha e Inglaterra, irão convergir com o interesse dos historiadores franceses da Escola dos Annales, o que resultará na chamada Nova História Cultural. Burke ainda acrescenta que é difícil responder a pergunta "O que é História Cultural", pois ela é multidisciplinar e também interdisciplinar, utiliza-se principalmente da antropologia e da sociologia, assim como da história da arte e literária para a realização das pesquisas, para a elaboração do conhecimento histórico. Sendo assim, embora não se espere que os historiadores culturais sejam vistos como heróis a resolverem os problemas cotidianos contemporâneos, afirma que o estudo da história cultural deve permitir às pessoas pensarem com mais lucidez em relação aos problemas e questionamentos da vida, e cita ainda Gilberto Freyre: "o estudo da história social e cultural aproxima as pessoas, abre vias de compreensão e comunicação entre elas".  O estudo das culturas abandona os temas generalizantes e superficiais, para se concentrar em questões de grupos particulares em momentos específicos, o que possibilita ao pesquisador, ou seja, ao historiador, uma melhor compreensão e interpretação das relações que envolvem esses indivíduos, permitindo assim o conhecimento daquilo que é a essência da vida para essas comunidades.
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