quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A POLÍCIA E AS POPULAÇÕES “PERIGOSAS” NO INTERIOR PAULISTA, 1880- 1900 por Karl Monsma (Transcrição)

pág 21 - LIBERTOS
Nos primeiros anos depois da abolição final, os delegados retratavam os libertos mais ou  menos da mesma maneira que descreviam os escravos fugidos nos últimos anos da escravidão, como vagabundos e desordeiros. Sem dúvida suas percepções dos libertos eram  moldadas em parte por disposições e esquemas cognitivas formados no regime escravista. Era difícil ver libertos sem ver escravos fugidos e atrevidos, que se recusavam a reconhecer a autoridade de seus superiores. Para os de legados, a presença de grande número de ex-escravos, agora sem senhores e com liberdade para ir e vir quando quisessem, em si mesmo  constituía um perigo e uma ameaça constante de desordens.
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pág 27 - Além disso, o recrutamento para combatera Revolução Federalista de 1893 a 1895 erauma boa oportunidade para os delegados do interior “limpar” seus municípios de indivíduos que consideravam indesejáveis. Boa parte dos recrutados eram libertos. Os delegados enviavam os recrutas com notas como as  seguintes: De Santa Rita do Passo Quatro: “Remetto-vos o preto Daniel, preso aqui como turbulento e desordeiro, devendo V. S. collocal-o nalgum dos corpos do Exercito”.77 De Taubaté: “Remetto-vos o preto Marcos de Mattos que tem por costume desrespeitar senhoras casadas e solteiras honestas, pelo que não se póde telo neste municipio, e sendo rapas robusto e apto para o serviço militar, julguei prestar um bom serviço mandando-o  á Capital à vossa disposição.”78 Em outros casos os delegados simplesmente identificavam os recrutas como vadios, sem menção de cor, mas  muitos deles sem dúvida eram negros. De Ribeirão Preto: “Escoltados por seis praças faço-vos apresentar 3 individuos aptos para o exercito, de nomes (...), todos solteiros e conhecidos  nesta cidade como vagabundos”.79 De Brotas: “Devidamente escoltado por praças da Guarda  Nacional desta Comarca, faço seguir para essa Capital os vagabundos Benedicto Carlo de Oliveira, Malaquias José de Oliveira, (...)”.80