terça-feira, 25 de outubro de 2016

Atlântico Sul é enfoque privilegiado para entender história do Brasil - Publicado em Cultura, Sociedade, USP Online Destaque por Denis Pacheco em 3 de março de 2015 (Transcrição)

 
Foto: Marcos Santos / USP Imagens Para o professor Luis Felipe Alencastro, Brasil deve investir mais em africanistas na academia
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O Ciclo do Tráfico Negreiro
Para Alencastro, a história do Brasil deve ser considerada sempre pelas óticas micro e macro, ambas permeadas pela ascensão e queda do tráfico negreiro. Desde o primeiro debate sobre a legitimidade da escravidão que, conforme o historiador, começou na Angola, até o fato de que nenhuma das grandes fases comerciais brasileiras existiria sem esse tráfico. “Só existe um ciclo no Brasil, o do tráfico negreiro. Todos os outros são sub-ciclos, dependentes dele, açúcar, café, ouro”, reforçou categoricamente.
Outro aspecto que precisa ser compreendido para se repensar o que sabemos é o conceito de que os próprios africanos também eram colonizadores. “Oito vezes mais africanos do que portugueses compuseram o Brasil. Ao menos dez expedições saíram diretamente do Brasil para combater nas guerras angolanas, mas a Angola foi cortada na história do Brasil”, argumenta o docente.
Um exemplo sobre como o Brasil era um local estratégico para que Portugal se tornasse uma potência no mercado de escravos reside no fato de que as viagens para a África a partir do Brasil eram 40% mais curtas do que a partir das Antilhas, localizada no chamado Atlântico Norte .   
“O Rio de Janeiro foi o maior porto negreiro do mundo”, conta o historiador ao expandir o assunto afirmando que foi devido a sua influência que o pólo econômico do país mudou do Nordeste para o Sudeste entre os séculos 18 e 19. Para o professor, somente o Porto do Rio de Janeiro foi capaz de “transferir a energia humana” necessária para alimentar os mercados do Sudeste, enquanto o Nordeste não conseguiu acompanhar o mesmo ritmo. Conforme os estudiosos desse fato, a imigração nordestina para o Sudeste, por exemplo, começou em 1850 e não em 1930 como é popularmente afirmado.
África presente no Brasil
“Existe uma comparação imprecisa que quer abstrair a escravidão e o tráfico, comparando escravos aos camponeses europeus”, reflete Alencastro. Para ele, temos que trazer para a centralidade o papel da África. “É preciso repensar sua influência aqui, ir além da história dos afrodescendentes e sua conquista de liberdade”, conclui ao reforçar que somente compreendendo a importância do tráfico negreiro e sua influência em toda a região do Atlântico Sul, assim como na África e América Latina, será possível enxergar a história com um maior grau de profundidade.
Para o pesquisador, o Brasil deve investir mais em africanistas na academia, assim como incentivar novas abordagens sobre o conteúdo que é ministrado nos Ensinos Fundamental e Médio. A lei que instituiu o ensino de história e cultura afro-brasileira completou doze anos no dia 9 de janeiro de 2015, mas ainda enfrenta desafios para ser implementada – embora continue vital para que as novas gerações tenham uma perspectiva diferente da história ensinada até hoje. Fonte: http://migre.me/vkB6L