terça-feira, 25 de outubro de 2016

HISTÓRIA E MUNDO ATLÂNTICO: CONTRIBUIÇÕES PARA O ESTUDO DA ESCRAVIDÃO AFRICANA NAS AMÉRICAS por Matheus Silveira Guimarães (Transcrição)

Introdução
Quando, em 1989, caía o Muro de Berlim, simbolizando o fim da Guerra Fria, o mundo passou a vivenciar uma nova fase das relações entre os países. As inovações tecnológicas ocorridas desde a década de 1970, as transformações políticas e econômicas aceleraram os processos de integração regional nas Américas e,  principalmente, na Europa, o desenvolvimento de meios de transporte e comunicação,  entre outros aspectos, passaram a configurar o que se denominou de “nova ordem mundial”. O mundo estaria vivenciando uma nova fase: a globalização. Contudo, o  fenômeno da globalização que tanto é citado nos últimos anos é apenas mais uma fase de um processo mais amplo iniciado desde o século XV. A expansão europeia inaugurada pelos ibéricos desde o século XV com as grandes navegações permitiu, pela primeira vez, um contato entre os povos de todos os continentes do planeta. Desde então, vários fatores contribuíram para que o intercâmbio entre as diversas regiões do mundo se intensificassem. Europeus, africanos, os nativos da América e asiáticos estabeleceram (intencionalmente ou não) uma rede extremamente complexa de trocas econômicas, políticas, culturais e biológicas. Uma das principais atividades que permitiram a conexão entre esses vários continentes foi o comércio de escravizados. Diante desses aspectos, os historiadores têm pensado em formas de compreender essas interações estabelecidas. Dentre as propostas discutidas, nos últimos anos,  destaca-se o conceito de Mundo Atlântico.
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As considerações desses historiadores também são feitas por David Armitage (2004). Para este autor, o principal atrativo da história atlântica está em seu caráter natural. Quando pensando no Mundo Atlântico, as fronteiras geográficas forjadas pela formação dos Estados Nacionais não são prioritárias. Contudo, apesar de sua característica natural, o Atlântico foi construído historicamente. A expansão europeia da modernidade conectou as várias partes do oceano e só a partir desse contexto que podemos pensar em um Mundo Atlântico.
Armitage propõe três formas de compreensão para essa história atlântica: circunatlântica; transatlântica; e cisatlântica. 
A primeira deve ser pensada como uma área de trocas e circulação constante. Sendo a maneira mais óbvia de se pensar o Atlântico, a história circunatlântica apresenta-se não como nacional ou regional, mas como interconexão constante das áreas em que transitavam europeus, africanos e americanos. Uma zona de circulação de ideias, mercadorias, pessoas, doenças etc. Uma história necessariamente diaspórica, em que há resquícios de heranças culturais, mas os indivíduos estão em contato direto com novas experiências. Nessa história circunatlântica, devem ser considerados apenas os aspectos culturais e identitários, bem como os políticos e econômicos  
A segunda forma proposta por Armitage (2004) é a transatlântica. Esta seria feita por intermédio de comparações. Uma história pensada em perspectiva atlântica, mas que leva em consideração os Estados que compõe o oceano. Várias sociedades distintas que são pensadas a partir de um ponto comum, que é a experiência do Atlântico. Essa é uma preocupação apresentada também por outros historiadores. Uma abordagem ampla e complexa como a proposta feita pelos historiadores do atlântico necessita de uma articulação entre várias partes que formam o oceano e, muitas vezes,  estabelecer comparações entre elas, identificando o que há de semelhante e distinto.  John Elliot (2006), por exemplo, pensando em uma perspectiva atlântica propõe um estudo comparativo entre os impérios espanhol e britânico.
Por fim, o último conceito de história atlântica, a cisatlântica. Esta busca a articulação entre o local e o global. Pensar em especificidades regionais, levando sempre em consideração o contexto mais amplo do Atlântico a qual estava inserido. A economia atlântica interferia nas relações econômicas domésticas. A lógica de dominação desenvolvida nos quatro cantos do oceano também necessitava a incorporação das elites locais. Por mais distantes que pudessem estar, a vivencia local estava conectada ao contexto amplo do Atlântico. Vale ressaltar, como destaca Armitage, que essas três formas de se pensar a história atlântica não se excluem. Elas estão articuladas entre si e podem ser pensadas concomitantemente.
Fonte: http://periodicos.ufpb.br/index.php/ci/article/viewFile/21838/12853