quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Atribulada obra rara - “André João Antonil” - Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas - (Transcrição)

Atribulada obra rara Mais de um século depois de sua proibição,o livro Cultura e opulência aguçou a curiosidade de historiadores. Afinal, quem foi Antonil? Andrée Mansuy-Diniz Silva 1/8/2011
Quando o reitor do Colégio dos Jesuítas da Bahia, o padre João António Andreoni – usando o pseudônimo de “André João Antonil” –, mandou para Lisboa o manuscrito da obra que havia acabado de escrever, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, mal podia imaginar o que o destino lhe reservava. No mesmo mês em que saiu do prelo da Oficina Real Deslandiana, em março de 1711, a obra foi destruída por ordem real. Raríssimos exemplares escaparam das chamas. Mas que razões havia por trás dessa decisão?
Como qualquer outro livro, o de Antonil também havia sido submetido ao exame dos censores, que deveriam reprová-lo caso seu conteúdo estivesse em desacordo com a moral, a religião e os costumes vigentes. O curioso é saber o que poderia haver de tão condenável em uma obra que tratava apenas de assuntos econômicos, como rezava seu título completo: Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas, com várias notícias curiosas do modo de fazer o açúcar, plantar e beneficiar o tabaco, tirar ouro das minas e descobrir as da prata; e dos grandes emolumentos que esta Conquista da América meridional dá ao Reino de Portugal com estes e outros géneros e contratos reais. E mais: ela havia sido “oferecida aos que desejam ver glorificado nos altares ao venerável Padre José de Anchieta, sacerdote da Companhia de Jesus, missionário apostólico e novo taumaturgo do Brasil”.
O livro foi submetido às censuras obrigatórias entre 8 de novembro de 1710 e 6 de março de 1711, e acabou sendo aprovado. Os censores do Santo Ofício declararam que a obra não continha “coisa que seja contra nossa Santa Fé ou bons costumes” e que era “muito merecedora da licença que pede”. O frade e censor Paulo de São Boaventura chegou a proferir a seguinte conclusão: “Porque por este meio saberão os que quiserem passar ao Estado do Brasil o muito que custam as culturas do açúcar, tabaco e ouro, que são mais doces de possuir no Reino que de cavar no Brasil. Por isso se pode estampar com letra de ouro.” O censor do Desembargo do Paço, frade Manuel Guilherme, não teve a menor dúvida em conceder seu parecer favorável: “Vi o livro que V. Majestade foi servido remeter-me, seu autor André João Antonil. E sobre não achar nele coisa que encontre o real serviço de V. Majestade, me parece será muito útil para o comércio, porque despertará as diligências e incitará a que se procurem tão fáceis interesses”.
Mas o livro ainda teve que passar por outra verificação que não era habitual: a do Conselho Ultramarino, cujos membros tinham competência para examinar e resolver todos os problemas relativos aos domínios do Ultramar. Em 17 de março de 1711, representaram ao rei o perigo que havia em divulgar, “entre outras coisas (…) todos os caminhos que há para as minas de ouro descobertas”, e recomendaram muito “que se não façam públicas nem possam chegar à notícia das nações estranhas pelos graves prejuízos que disso podem resultar à conservação daquele Estado, da qual depende em grande parte a deste Reino e a de toda a Monarquia”. Para isso, era fundamental que o rei ordenasse “que este livro se recolha logo e se não deixe correr”. Três dias depois, D. João V assinou a ordem para que se recolhesse o livro.
Durante quase um século, não se falou mais de Cultura e Opulência do Brasil. Até que, em 1800, frei José Mariano da Conceição Velloso, diretor da CasaLiteráriadoArcodoCego – criada por D. Rodrigo de Souza Coutinho, então ministro da Marinha e Domínios Ultramarinos –, encontrou um exemplar do livro. Ele acabou tomando a iniciativa de publicar a parte da obra dedicada à cana-de-açúcar, que se integrava perfeitamente no seu programa de edições pedagógicas –  atitude que, efetivamente, revogou o antigo veto.
Muitos anos se passariam até que fossem feitas reedições completas de Cultura e opulência do Brasil e resolvidos os dois enigmas levantados pela obra: os motivos de sua destruição e a personalidade do autor que usava o pseudônimo de Antonil. Os historiadores se debruçaram sobre este assunto a partir do final do século XIX e ao longo do XX, emitindo hipóteses – umas sólidas, outras fantasiosas –, até que eu mesma descobrisse nos arquivos portugueses os dois documentos de março de 1711 que esclareceram definitivamente os motivos da destruição da obra: a consulta do Conselho Ultramarino  e a ordem dada pelo próprio rei, acima citadas.
 O responsável pela descoberta do pseudônimo do autor foi o historiador brasileiro Capistrano de Abreu (1853-1927), que se deu conta de que “André João Antonil” era o anagrama quase perfeito de “João António Andreoni”, jesuíta italiano que havia ocupado cargos importantes na Bahia entre os séculos XVII e XVIII.
O padre Serafim Leite (1890-1969), incansável investigador da história dos jesuítas no Brasil, chegou a levantar dados biográficos sobre o autor de Cultura e opulência no Brasil. Segundo a pesquisa do religioso, Andreoni nasceu no dia 8 de fevereiro de 1667 em Lucca (Toscana) e se formou em Direito pela Universidade de Peruggia. Assim que foi admitido na Companhia de Jesus em Roma, em 20 de maio de 1667, conheceu o padre Antônio Vieira, relacionamento que incutiu nele o desejo de vir para o Brasil, em janeiro de 1681. Já na Bahia, em agosto de 1683, o padre Andreoni assumiu o ensino de várias disciplinas no Colégio dos Jesuítas. Foi nomeado Provincial em 1705 e por duas vezes reitor do Colégio da Bahia. Excelente jurista, foi confessor de dois governadores gerais – o marquês das Minas e D. João de Lencastre – e gozou da  inteira confiança do arcebispo D. Sebastião Monteiro de Vide. Muito estimado na Corte de Lisboa, obteve a suspensão de cartas régias que proibiam os religiosos estrangeiros de desempenhar cargos importantes e obrigavam os jesuítas italianos concentrados no Colégio da Bahia a serem dispersados. Morreu na Bahia no dia 13 de março de 1716, aos 67 anos.
Foi justamente Serafim Leite quem colocou o motivo da apreensão do livro na devida conjuntura histórica,associando-a às disputas pelas minas de ouro no começo do século XVIII e aos ataques que o Brasil sofreu naquela época por parte dos espanhóis (ocupação da Colônia do Sacramento, 1705) e dos franceses (ataque ao Rio de Janeiro por Duguay-Trouin, 1710), justificando os receios dos membros do Conselho Ultramarino.
Passados trezentos anos da sua primeira edição, Cultura e opulência do Brasil continua a cativar historiadores e leitores que simplesmente se interessam pela história e pela literatura do Brasil. Até porque, além de tudo o que revela, o livro também é uma obra literária, principalmente na parte dedicada ao açúcar, na qual, em puro estilo barroco, Antonil evoca o martírio da cana-de-açúcar e as vicissitudes da sua transformação num produto que “torna por muitas vezes a ser vendido e revendido, preso, confiscado e arrastado, (…) tão seguro de ser comprado e vendido entre cristãos como arriscado a ser levado para Argel entre mouros. E ainda assim, sempre doce e vencedor de amarguras”.
Cultura e opulência do Brasilé uma obra fundamental cuja leitura atenta, nas linhas e entrelinhas, revela muitos aspectos da vida daqueles homens que estavam imersos na conjuntura econômica do começo do século XVIII. No seio de uma sociedade baseada no trabalho escravo, eles contribuíram, à custa do dinheiro de uns e do suor e do sofrimento de outros, para a riqueza de um império cobiçado e ameaçado por potências estrangeiras. 
Andrée Mansuy-Diniz Silvaé professora aposentada da Universidade de Paris III, autora da versão comentada com estudo crítico de André João Antonil, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. (Paris: IHEAL, 1968EDUSP, 2007). 
Saiba Mais - Bibliografia
MELLO E SOUZA, Laura de, e BICALHO, Maria Fernanda. O império deste mundo: 1680-1720. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial. 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. Fonte: Revista de História.com.br http://www.revistadehistoria.com.br/secao/leituras/atribulada-obra-rara