terça-feira, 25 de outubro de 2016

As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet, que foi com Thomas Cavendish em sua segunda viagem ao mar do sul – 1591 - Decifrando, ou seja, Compreender o sentido de uma escrita desconhecida ou pouco legível: decifrar um manuscrito


Eu e os doze portugueses de quem falei nos despedimos do capitão, preferindo seguir em direção ao mar do Sul do que voltar sem nada.1 Os nomes dos portugueses eram: Francisco Tavares, Luís de Pina, Gonçalo Fernandes, Tomás do Vale, Luís Coelho, Matias de Galo, João da Silveira, Pedro da Costa, Antônio Fernandes, Jorge Dias, Manuel Caldeira2 e eu mesmo, Anthony Knivet. Depois que deixamos o capitão, fizemos uma canoa bem grande da casca de uma árvore e começamos a descer um rio chamado Jaguari3. Uma semana depois chegamos a uma pequena aldeia de seis casas que parecia estar há muito desabitada. Abandonamos então nossa canoa e decidimos continuar o trajeto por terra. Nessa aldeia encontramos grande quantidade de vasos de cerâmica e, dentro de alguns, pepitas de ouro amarradas a linhas com as quais os índios costumam pescar. Também encontramos pedras verdes como grama e uma grande quantidade de pedras brancas e brilhantes como cristal. Muitas das pedras, no entanto, eram azuis e verdes, vermelhas e brancas, todas deslumbrantes de olhar. Quando vimos as pepitas de ouro e essas pedras, calculamos estar muito próximos de Potosí.4 Rumamos então para sudoeste e subimos uma enorme montanha coberta de floresta. Chegamos num lugar de terra seca e marrom, cheio de morros, rochas e nascentes de vários córregos.6 Em muitos desses córregos encontramos pequenas pepitas  de ouro do tamanho de uma noz, e muito ouro em pó feito areia. Depois disso, chegamos a uma região bonita onde avistamos uma enorme montanha brilhante à nossa frente.7 Levamos dez dias para alcançá-la pois,  ao tentarmos atravessar a planície,8 mesmo longe da serra, o sol ficava forte demais e não podíamos mais avançar por causa da claridade que refletia e nos cegava. Enfim, lentamente conseguimos chegar ao sopé dessa montanha, onde encontramos muitos tamanduás.9  Seguimos por ela pelo menos vinte dias antes de encontrarmos algum meio de subi-la. Finalmente achamos um rio que passava por baixo da montanha e decidimos descobrir algum modo de atravessá-lo.10 Alguns dos nossos, no entanto, achavam melhor continuar margeando o sopé da montanha ao invés de penetrar no seu subterrâneo pois, diziam, se o rio não atravessasse até o outro lado, estaríamos perdidos, uma vez que seria impossível retornar contra a corrente. Então respondi: “Amigos, o melhor é arriscar nossas vidas agora como já fizemosantes em outros lugares. Caso contrário, temos que nos preparar para fi car vivendo como animais selvagens aqui onde nossa vida durará quanto Deus quiser, sem que pesem posses, nome ou religião. Por isso, creio que o melhor caminho a seguir é tentar atravessar, pois sem dúvida Deus, que já nos livrou de perigos sem fi m, não há de nos abandonar agora. Além disso, se tivermos a sorte de atravessarmos para o outro lado, decerto encontraremosespanhóis ou índios, pois sei que todos vocês já ouviram que num dia claro pode-se ver o caminho desde Potosí até esta montanha.” Quando terminei de dizer isto, os portugueses decidiram arriscar a travessia. Com grandes caniços, construímos uma coisa larga, tinha três jardas e meia de largura por seis de comprimento, para que coubéssemos deitados e pudéssemos dormir nela. Matamos grande quantidade de tamanduás e os assamos bem para servirem de alimento, pois não sabíamos quanto tempo ficaríamos no subterrâneo. Depois que tínhamos feito todos os preparativos, que incluíam levar boa quantidade de madeira e encomendar nossas almas a Deus, nos lançamos no túnel, onde o ruído das águas ressoava tão alto que nos parecia algum feitiço. Entramos numa segunda-feira de manhã e saímos numa outra manhã (se ficamos um ou dois dias no subterrâneo não sei). Logo que avistamos a claridade ficamos muito contentes mas, ao sairmos, vimos casas nas duas margens. Reunimo-nos então para decidir o que seria melhor fazer: escondermo-nos e tentar passar pela aldeia durante a noite ou nos apresentarmos aos índios. Todos nós concordamos que o melhor seria irmos até eles. Então eu disse: “Bem, amigos, já que
assim decidimos, vamos definir desde já o que faremos e diremos, pois sem dúvida eles nos perguntarão quem somos e de onde viemos.” Os portugueses então disseram: “Nós lhes diremos que somos portugueses.” Eu então respondi: “Eu lhes direi que sou francês.”11 Fomos em direção às casas dos índios, que, assim que notaram nossa presença, vieram aos brados, sacudindo seus arcos e flechas. Ao se aproximarem, amarraram nossas mãos e  nossas cinturas e desse jeito nos levaram até suas casas. Logo vieram dois ou três anciãos e nos perguntaram quem éramos, ao que os portugueses responderam que eram portugueses e eu, que era francês. Duas horas depois levaram um dos portugueses, amarraram-lhe outra corda à cintura e conduziram-no a um terreiro, enquanto três índios seguravam a corda de um lado e três do outro, mantendo o português no  meio. Veio então um ancião e pediu a ele que pensasse em todas as coisas que prezava e que se despedisse delas pois não as veria mais. Em seguida veio um jovem vigoroso, com os braços e o rosto pintados de vermelho, e disse ao português: “Estás me vendo? Sou aquele que matou muitos do teu povo e que vai te matar.” Depois de ter dito isso, ficou atrás do português e bateu-lhe na nuca de tal forma que o derrubou no chão e, quando ele estava caído, deu-lhe mais um golpe que o matou. Pegaram então um dente de coelho12 , começaram a retirar-lhe a pele e carregaram-no pela cabeça e pelos pés até as chamas da fogueira. Depois disso, esfregaram-no todo com as mãos de modo que o que restava de pele saiu e só restou a carne branca. Então cortaram-lhe a cabeça, deram-na ao jovem que o tinha matado e retiraram as vísceras e deram-nas às mulheres. Em seguida, o desmembraram pelas juntas: primeiro as mãos, depois os cotovelos e assim o corpo todo. Mandaram a cada casa um pedaço e começaram a dançar enquanto todas as mulheres preparavam uma enorme quantidade de vinho. No dia seguinte ferveram cada junta num caldeirão de água para que as mulheres e as crianças tomassem do caldo. Durante três dias nada fizeram a não ser dançar e beber dia e noite.13 Depois disso mataram outro da mesma maneira que lhes contei, e assim foram devorando todos menos eu. Ao ver todos os portugueses sendo mortos, esperei que o mesmo acontecesse comigo, mas quando os índios interromperam os banquetes vieram até onde eu estava e disseram: “Não tenhais medo, pois os vossos antepassados foram nossos amigos e nós, amigos deles, mas os portugueses são nossos inimigos, e nos escravizam, e por isso fizemos com eles isto que vistes.” Depois de ouvi-los,  disse-lhes que não tinha o que temer pois sabia que eram meus amigos e não meus inimigos, e que eu por muito tempo tinha sido prisioneiro dos portugueses. Eu já estava há dois meses com esses índios chamados tamoios,14quando eles foram guerrear contra os temiminós. Na hora da luta, quase perdemos terreno,  pois os temiminós estavam em muito maior número, de tal forma que tivemos que nos refugiar nas montanhas.Quando notei a forma primitiva como lutavam, e como, desordenadamente, lançavam-se sobre o inimigo como touros, ensinei-lhes como se portarem numa batalha,como prepararem uma emboscada e como retrocederem levando seus inimigos a uma armadilha. Foi assim que mantivemos a vantagem sobre o inimigo e me tornei tão importante entre eles que não iam para uma batalha sem que eu os acompanhasse. Em pouco tempo, de tanto combatermos os temiminós, eles decidiram abandonara região fugindo de nós. Assim pudemos viver em paz. Os tamoios me ofereceram várias esposas, mas recusei, dizendo que não era do nosso costume tomar por esposas mulheres que não fossem da nossa terra. Depois que vencemos os temiminós, vivemos em paz por quatro meses até que veio uma outra tribo de canibais, chamada tupiniquins.15 Estes montaram sua aldeia muito perto de nós, numa montanha chamada pelos índios de Itapeva16, isto é, “montanha de ouro”. Logo que soubemos de sua chegada, nos preparamos para lutar contra eles. Juntamos cinco mil dos mais fortes e, em cinco dias, chegamos à sua aldeia. Mas, como eles já tinham nos avistado, haviam abandonado a aldeia e fugido. Perseguimo-los durante dez dias, aprisionando muitos anciãos e mulheres que, assim  que capturávamos, matávamos. Assim os seguimos até e nada lhes faltava, mas que agora já não tinham facas nem machadinhas, ou outras coisas, e se achavam tão desprovidos. Ao ouvir isto respondi que eu desejava ardentemente que ele e os seus fossem morar de novo na costa, livres das ameaças dos portugueses. 18 Voltamos para a aldeia e o índio contou a todos o que eu lhe tinha dito. Na manhã seguinte vieram pelo menos vinte dos seus principais na casa em que eu dormia e me perguntaram se eu conhecia o local exato em que eles poderiam encontrar navios franceses. Eu lhes respondi que tinha certeza que entre o rio da Prata e um rio chamado pelos portugueses de Patos encontraríamos franceses e, se não os encontrássemos, lá os portugueses não poderiam nos fazer mal. Além do mais, acrescentei, seria melhor morar na costa, onde teríamos abundância de tudo, do que ali, onde não tínhamos qualquer outro alimento exceto raízes. Esses anciãos contaram isto ao povo e todos quiseram ir para  a costa, então decidiram partir. Preparamos as provisões  e partimos de nossa morada, sendo ao todo trinta mil.
1. Knivet e seus companheiros pretendiam fazer o mesmo que os japoneses do navio de Cavendish: atravessar o continente até atingir as lendárias riquezas do Peru, no mar do Sul. Andrew Battell, inglês que esteve no Brasil e na África, indicara o caminho
por todos desejado: “Da cidade de Buenos Aires chegam todo o ano quatro ou cinco caravelas à Bahia, no Brasil, e a Angola, na África, que trazem grande carregamento de tesouros, que é transportado, por terra, do Peru até o rio da Prata.”
2. No original “Lewes de Pino, Tomas Delvare, Lewis Loello, Matheas del Galo, John de Silvesa, Petro de Casta, Gorgedias”.
3. No original “Janary ”. Segundo Teodoro Sampaio, após abandonarem a canoa, seguiram na confluência do Jaguary com o Camanducaia, próximo à atual cidade mineira de Santa Rita da Extrema.
4. Cálculo muito de acordo com a geografia da época, em que o sertão de São Paulo juntava-se ao Peru, a terra das fabulosas riquezas minerais.
5. Segundo Teodoro Sampaio, essa montanha seria o atual morro do Lopo, de 1.710 metros de altura, na divisa entre São Paulo e Minas
6. Ainda segundo Teodoro Sampaio, esse sítio estaria nas vizinhanças do Guaripocaba  de Bragança Paulista.
7. A montanha brilhante, segundo Teodoro Sampaio, seria a serra de Itaberaba, um prolongamento da Mantiqueira, entre os municípios de Nazaré Paulista e Santa Isabel. Itaberaba, em tupi, quer dizer “montanha reluzente”. Gabriel Soares de Sousa, em seu Tratado descritivo do Brasil, de 1587, dá testemunho semelhante: “E não há dúvida senão que entrando bem pelo sertão desta terra há serras de cristal finíssimo, que se enxerga o resplandor delas de muito longe, e afirmaram alguns portugueses que as viram que parecem de longe as serras da Espanha quando estão cobertas de neve,  os quais e muitos mamelucos e índios que viram essas serras dizem que está tão bem criado e formoso esse cristal em grandeza, que se podem tirar pedaços inteiros  de dez, doze palmos de comprido, e de  grande largura e fornimento.” Também Pero de Magalhães de Gândavo, no Tratado da Terra do Brasil, se refere ao mito tupi do itaberabaçu, ou sabarabuçu: “A esta capitania de Porto Seguro chegaram certos índios do sertão a dar novas dumas pedras verdes que havia numa serra muitas léguas pela terra adentro, e traziam algumas delas por amostra. E os mesmos índios diziam que daquelas havia muitas, e que esta serra era mui formosa e resplandecente.
 8. Essa planície seriam os campos entre Bragança e Atibaia, no estado de São Paulo,  de onde partiram para o sul e atingiram a montanha brilhante.
9. No original “tamandros”.
10 . Segundo Teodoro Sampaio, um sumidouro, uma furna, cuja parte superior encontrava-se coberta de vegetação, como o então conhecido sumidouro do rio São Francisco. Esse sumidouro descrito por Knivet seria no rio do Peixe, afluente do Jaguari.
11. Muitos anos antes, Hans Staden também se salvara de ser devorado por esses mesmos índios dizendo ser francês
 12. Provavelmente, dente de capivara.
13. Descrição extremamente precisa do ritual de canibalismo, também relatado por  outros cronistas do século XVI.
 14. No original, “tamoyes”.
 15. “Topinaques” no original. Os tupiniquins eram aliados dos portugueses. 
16. No original “Tamiuva”. Segundo Teodoro Sampaio, a serra de Itapeva (ou do Jambeiro) se estende entre o rio Jaguari e o rio Guararema, afluentes do Paraíba.  Segundo Carvalho Franco, a leitura correta seria “Itajubá”, que significa pedra ou montanha amarela.
 17. O rio Tietê, segundo Teodoro Sampaio
 18. No capítulo IV, Knivet dá uma versão diferente: “Muitas vezes eu lhes falava sobre  as idas e vindas de nossos navios ingleses para os estreitos de Magalhães e como tratávamos bem todas as tribos e como tínhamos todo tipo de coisa útil para eles.
Essas palavras fizeram com que os canibais quisessem ir até o litoral e me perguntaram
como poderiam ir viver na costa sem se tornarem escravos dos portugueses.”

Obs: Segundo Carvalho Franco, a leitura correta seria “Itajubá”, que significa pedra ou montanha amarela, “montanha de ouro”. Por conseguinte, definitivamente o caminho percorrido, foi via Vale do Paraíba. Inclusive porque, esse foi o caminho percorrido por seu capitão Martim Correia de Sá após passar por Paraty. O rio Jaguari em questão é um afluente do rio Paraiba. Descendo o paraiba, como desceu Andre de Leão em 1601, a partir da pequena Aldeia desabitada, no Guaipacaré, tomou rumo Sudoeste, transpondo a Serra da Mantiqueira pelo Alto da Serra, espaço colonial de Piquete-SP. Garganta do Sapucai. Quanto a essa montanha muito alta, a que se refere, em um outro momento, faz referência ao mesmo relevo, tratando com a  denominação de montanha dos pinheiro, onde viviam os índios lopo, que se alimentavam de pinhão. A leitura correta é itajuba, “montanha de ouro” na Serra de Jaguamimbaba, onde Afonso Sardinha veio logo após, por volta de 1597, encontrar ouro.  Chegou num lugar de terra seca e marrom, cheio de morros, rochas e nascentes de vários córregos, sendo esta região a região dos pinheiros citada por Andre João Antonil. e Andre de Leão. Quanto as nascentes não resta dúvida que são, entre outros do rios Santo Antonio, Lourenço Velho, Sapucai, Verde, afluentes do rio Grande.  Quando em outro momento de seus relatos após transpor o rio Paraíba, faz referência ao rio Para onde os índios da região costumavam ir pescar esta  falando do Rio São  Francisco, cuja nascente é na Serra das Vertentes na região central de Minas, também espaço de vivência dos Tamoios. Portanto, os índios Tamoios, amigo,  que poupou da morte Anthony Knivet, são os mesmo que abandonaram o litoral, Cabo Frio,  após a confederação dos Tamoios, por volta de 1560, exatamente em decorrência da parceria que há muito mantinham com os franceses, inadmissível pelos portugueses,  e foram viver na região do Vale do Paraíba e Rio Sapucai, reiterando, igualmente na região central de Minas Gerais. Simples assim. 
Nota: "Os franceses, desde o início do século XVI, freqüentavam as costas do território brasileiro e estabeleceram um próspero e pacífico comércio com os índios do litoral, em que a principal mercadoria era o pau-brasil, sendo a primeira viagem a de Binot Paulmier de Gonneville, em 1504. As primeiras incursões sistemáticas de ingleses na América do Sul teriam sido em associação com navios franceses. Segundo W. E. Minchinton,23 entre 1539 e 1541 houve uma joint-venture entre França e Inglaterra no comércio no litoral brasileiro. Um exemplo disso é a viagem do navio Barbara of London, em 1540, uma empresa comercial inglesa, comandada por John Phillips, que contava com um experiente piloto francês. Ainda na década de 1530, o navegador William Hawkins, segundo registra Richard Hakluyt, teria feito três lucrativas viagens ao Brasil, também contanto com a expertise de um piloto francês. Na década de 1530, segundo Eva G. R. Taylor, várias viagens comerciais ao Brasil foram empreendidas, não apenas as de William Hawkins.24 Nesse período realizam-se ainda outras viagens, na década de 1540, registradas por Hakluyt, como a dos comerciantes Robert Reneger e Thomas Borey, e a de John Pudsey, que teria erguido um forte na Bahia." Fonte: Anais da Biblioteca Nacional Volune 126/ 2006, pág 26 http://migre.me/vlchT