terça-feira, 25 de outubro de 2016

A VIAGEM DO CORSÁRIO INGLÊS ANTHONY KNIVET AO MAR DO SUL E SUA PASSAGEM PELO VALE DO RIO PARAÍBA (1591 - 1597) 1 por GIOVANNA LOUISE NUNES

3 RIO PARAÍBA COMO TRAJETO NOS RELATOS DE KNIVET
O rio Paraíba está localizado entre as serras do Mar e da Mantiqueira, no corredor chamado vale do rio Paraíba. Por sua posição de destaque, serviu de rota para muitas incursões ao território, sendo utilizado por muitos aventureiros desde 1560 para a navegação rumo ao sertão, onde haveria rumores da presença de ouro. Embora as datas sejam ainda imprecisas, podemos destacar algumas incursões como a comandada por Brás Cubas em 1561. Há dúvidas quanto ao seu local de saída, se seria de Santos ou São Paulo, mas sua rota segue passando por Mogi das Cruzes, em seguida descendo pelo rio Paraíba até a paragem de Cachoeira, onde encontrou o caminho que atravessava a serra da Mantiqueira, rumo ao sertão dos Cataguás. A entrada funcionava como parte na guerra e caça ao indígena e interesses da coroa na possível descoberta de metais (LIMA, 2011, p. 56) . Já na década de 1580, depois de muitas incursões conhecidas ou não, a “conquista” da região do vale foi finalizada, mas isso não significa que a exploração da região tinha chegado ao fim, como apontado por Santos (2011):
                      Uma vez amenizado o problema dos ataques inimigos, buscou-se conhecer cada vez mais as potencialidades naturais do local visitado e de suas redondezas. Talvez por isso que se ainda mantinham em alta as incursões (LIMA, 2011, p. 57). E com isso,  passam pela região  outras  entradas com o intuito de verificar se procediam os  rumores de haverem sido encontrados metais nos sertões dos Cataguás, como a de 1596, com João Pereira de Sousa Botafogo. No ano seguinte, em 1597, o corsário inglês Anthony Knivet e Martim de Sá  também  percorreram a região até o sertão. Essa entrada perdurou mais tempo, enquanto as anteriores com a participação de Knivet funcionavam como uma espécie de prospecção da região. É interessante ressaltar que por conflitos de datas e de possíveis entradas, poucos fatos foram afirmados.  Como citado  anteriormente, ao decidirmos tratar da viagem de Knivet ao vale do rio Paraíba,  levamos em consideração os dados que chegaram até  nossos dias  para a orientação geográfica do período e o relato de  viagem como instrumento de governabilidade, neste caso, servindo  à Inglaterra. Retomando o rio Paraíba e sua utilização durante a entrada e ocupação do território, vale lembrar que por sua posição geográfica estratégica entre as serras e por cortar grande parte das terras da região, se tornou um rio  muito importante e carregou esse “título”  durante muitos anos.  A importância deste rio foi creditada à considerável influência exercida na ocupação da área o que se verá a seguir e que, aliás, muitos anos mais tarde, ainda era tido como um dos rios de maior relevância. Vale lembrar que a referência dada aqui à ocupação diz respeito tanto aos silvícolas, que há muito habitavam o local, quanto aos brancos que progressivamente foram se instalando logo depois da década de 1620. Porém, antes mesmo de qualquer indício de fixação da população branca no médio vale do Paraíba, a atração exercida por este território chamou atenção de muitos aventureiros que por aí transitavam (LIMA, 2011, p. 55) Essa importância pode ser vista nos relatos de Knivet, quando este segue ao encontro dos indígenas que possam ser levados como escravos em outras vilas, inclusive em Piratininga, justamente em razão da escassez de mão de obra em torno da vila. Durante a entrada na região, vindo da Serra do Mar, temos como referência a navegação no rio Paraibuna, que deságua no Paraíba, como aponta o relato:
                       Depois disso voltamos a viajar através das montanhas por uns quarenta dias até que chegamos a um rio muito largo chamado  Paraibuna. Atravessamos esse rio com umas coisas feitas de caniços amarrados com cipós  que os portugueses chamam de jangadas. Levamos quatro dias para poder atravessar esse rio, já que era tão largo e tinha uma correnteza tão forte (KNIVET, 2007, p. 96). Com isso verificamos que a região atingida é fronteiriça às possessões valeparaibanas, a entender que o rio Paraíba faria parte dessa rota. Para o historiador Teodoro Sampaio, o jovem Knivet estaria próximo ao atual município de São José dos Campos,  navegando  no  sentido  do Rio de Janeiro. Após afirmar que atingindo o rio Paraíba encontrou-se com os  Puris e  teve possibilidade se alimentar, continuou a viagem por mais  sete dias à aldeia, encontrando alimentos como ervilhas, milho e mandioca. Seguiu então até completar o rio. Em um dia passamos o Paraíba e no dia seguinte continuamos viagem para a aldeia de que os Puris nos tinham contado. Levamos sete dias entre o rio e a aldeia, mas quando lá chegamos, encontramos somente mulheres (KNIVET, 2007, p. 99). Nesse trecho, ele alerta mais uma vez sobre a escassez de mão de obra indígena. Ao e ncontrar somente mulheres na aldeia,  ele questiona o porquê da falta dos maridos. As mulheres da aldeia afirmaram que seus maridos haviam ido guerrear com os Tamoios e  muitos não retornariam. Tanto a escassez de mão de obra, que impulsionava o  descimento indígena para abastecer o mercado escravo e as incursões que foram crescendo ao longo dos anos, permitiu o uso  do rio Paraíba como recurso ao desbravamento das terras. Sendo um rio importante, deve essa nomeação a sua posição geográfica estratégica e sua extensão que compreende quase todas  as cidades do vale do Paraíba.  Neste caso, foi analisada sua utilização durante as entradas  realizadas por Martim de Sá com a ajuda  de Knivet, cujo relato,  guardadas as devidas críticas, pode servir como base à geografia colonial e a criação de uma cartografia de viagem, com as análises dos recursos hídricos utilizados que cortam nosso território e a região valeparaibana. 
                       CONCLUSÃO
Apesar da pouca documentação referente ao período colonial sobre a navegação do rio Paraíba, tem-se a partir dos relatos de viajantes e entradas ou bandeiras, referências do que foi o rio e sua contribuição para a ligação com o sertão dos Cataguás. É de  costume tanto nas Monções verificarmos o uso dos rios como o Tietê, no Piratininga para as entradas para a região do  Cuiabá, com a utilização e comércio de canoas , assentamentos, criação de animais e roça para o abastecimento da região. Como  marca principal, no  vale do rio Paraíba não seria diferente. Verifica-se um comércio não somente de escravos, mas também de alimentos e transporte deles através do Paraíba. Além disso, suas margens eram muito bem aproveitadas, pois em um dado período do ano, na sua cheia, ele transborda e  umedece as terras ao redor, permitindo a prática da agricultura. Esses fatores tornam a região atrativa e propícia ao  abastecimento, servindo de rota para as incursões, que desde 1560, vasculham com o intuito de fazer o reconhecimento da região e dos  nativos, tornando o rio Paraíba importante durante os anos  verificados na pesquisa e permitindo com isso o deslocamento não somente de brancos, mas também de outros indígenas para ocupar a região. Esse processo fica mais intenso até 1640, principalmente na região onde seria formada a vila de Taubaté. E os muitos relatos de viajantes e bandeirantes que por vezes partindo da vila foram formar muitas cidades mineiras e nessas descrições falam do intenso fluxo de povoadores passando pela região. A precisão dos dados fica comprometida, uma vez que se encontra em algumas documentações o aproveitamento dos nomes indígenas aos pontos de referência geográfica como rios, mares e serras, que parecem se repetir em outras localidades. Bem verdade, não pode ser esquecido que a nome nclatura dada coincide, porque as semelhanças geográficas desses pontos recebiam o mesmo nome. O caso do corsário Anthony Knivet é um estudo específico sobre a viagem e a produção de sua crônica, ainda no primeiro século da colonização. Passível de questionamentos sobre a  veracidade de sua escrita, traça um panorama dos comportamentos indígenas da região do vale do rio Paraíba e o relacionamento entre eles e os portugueses, bem como o funcionamento do comércio de escravos. Outros viajantes também passaram pela região, mas o interessante do relato se dá na quantidade de informações apresentadas, o enfoque na construção do imaginário da colônia, e levanta uma questão: até onde se pode dizer que havia um interesse por parte do escritor do relato em promover esse  imaginário? Ou mesmo, nas reedições do livro  há possibilidade de  um “ajuste” que levaria a essa interpretação? A discussão sobre a originalidade do relato que chega até os  dias de hoje é pauta para muitas discussões e não cabe a este artigo a função de esgotá-las. Mas cabe a interpretação da  contribuição do rio mais importante para a região do vale utilizado  como um recurso  a serviço do território, da povoação e da exploração dos metais.