sábado, 5 de novembro de 2016

História da Ilha Grande Pirataria e Tráfico de escravos (Transcrição)

PIRATARIA

A Ilha Grande teve um importante papel histórico, de destaque internacional, registrando episódios de pirataria, tráfico de escravos e contrabando de mercadorias ocorridos entre os séculos XVI e XIX. Com a descoberta do ouro e da prata no Peru, no fim do século XVI, a bacia do Prata tornou-se o local de onde as riquezas vindas do Peru eram carregadas pela frota espanhola. Entre a Europa e a bacia do Prata os locais mais convenientes (ao sul) para o reabastecimento de água e lenha eram as ilhas de Santa Catarina, São Sebastião e Ilha Grande. No mesmo período, ocorreu o fim da “Invencível Armada”, quando Portugal ficou sob o domínio espanhol que incorporou a maior parte da armada lusitana . Portugal, desfalcado de sua Marinha, ficou a costa brasileira despoliciada. Desse fato resultou a intensificação do contrabando do Pau-brasil e depois, de muitos outros tipos de contrabando. Piratas e aventureiros de várias nacionalidades navegavam pela costa brasileira e assaltavam as naus espanholas carregadas de riquezas. Diversos pontos da costa brasileira serviam de refúgio, abrigo e porto de abastecimento. A Ilha Grande, ao sul, destaca-se. Nela os contrabandistas e Piratas encontravam o abrigo mais seguro, além da tranqüilidade para obter o repouso necessário. Havia fartura de água potável e madeira e dificilmente eram molestados pelos portugueses. Com as descobertas das minas brasileiras, que exigiam cada vez mais mão de obra, a Ilha foi base do contrabando de escravos, principalmente no século XIX, quando foi proibido o tráfico negreiro, pois as lavouras do café usavam o trabalhador africano que era proibido de entrar regularmente no país. O caminho novo para as Minas Gerais e os caminhos para as Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, eram percorridos por escravos contrabandeados na Ilha Grande. A história registra um grande número de corsários ingleses que surgiram em nossa costa, ora traficando escravos e contrabandeando pau-brasil , ora abordando navios e saqueando cidades . No Sul, seus lugares preferidos para a espreita eram as ilhas: da Marambaia, dos Porcos , Grande , São Sebastião, Santa Catarina, onde passavam as frotas espanholas e lusitanas que iam e vinham do Prata carregando riquezas, durante os anos de 1585 a 1605. Os holandeses também marcaram presença na Ilha Grande, no início do século XVII. Registraram-se alguns conflitos entre holandeses e mestiços índios-portugueses que habitavam a Ilha. Os holandeses deixaram herança genética na ilha, o que pode ser observada pela presença de nativos com alguns traços índios, olhos azuis e cabelos loiros. Com a invasão holandesa no norte do Brasil, a freqüência daqueles navios tornou-se rara na baía da Ilha Grande. Depois dos holandeses que tiveram passagem curta pela Ilha Grande, vieram os franceses, no início do século XVIII e por 17 anos (1701 - 1718) . Um dos pontos de interesse dos corsários franceses pela Ilha Grande, residia no fato da ilha ser vizinha à Paraty, porto marítimo de escoamento do ouro extraído das minas gerais; a inexistência de fortificações e de tropas; abundância de lenha e água, além do que, preferiam a Ilha Grande para se refrescarem, pois a geografia dela apresentava, ante qualquer surpresa,uma melhor possibilidade de fuga. Existem registros de que vários navios carregados de mercadoria de origem francesa, principalmente de tecidos, descarregaram na Ilha Grande, precisamente nas enseadas das Palmas, Abraão e Sítio Forte. Mesmo com a extinção da pirataria francesa em função de tratados de política internacional, os franceses continuaram navegando a costa legalmente, transportando colônias de franceses destinados a ilhas francesas no extremo sul da America-Latina. As razões pelas quais eles continuaram a preferir as águas da baía da Ilha Grande explica-se: na época, os navios de carga não pagavam os carregamentos de água e lenha, mas se esses eram feitos no porto do Rio de Janeiro havia sempre despesas e intermediários para o transporte até o navio. Atracar na Ilha Grande e dela tirar o que quisessem era bem mais fácil. Em 1827 aconteceram três ataques de corsários argentinos na Ilha Grande, autorizados pelo governo argentino. Um contra a fazenda de Dois Rios, outro ocorreu na ponta de Castelhanos e o último deu-se na enseada das Palmas. Os três ataques foram rebatidos pelos fazendeiros e forças militares postadas na Ilha. Batalhas foram travadas. No último ataque, os argentinos perderam um navio que foi incendiado pelas forças brasileiras.
TRÁFICO de ESCRAVOS
Foi entre 1510 e 1540 que se iniciou o tráfico de negros africanos para o Brasil . O contrabando de escravos foi feito pelos corsários e piratas ingleses, holandeses e franceses na costa da baía da Ilha Grande. A estadia dos traficantes era de pouca duração. Procedido o desembarque, os escravos eram conduzidos, clandestinamente, para as imediações de Paraty. No século XVIII, eram rotineiros os desembarques nas enseadas das Palmas e do Abrãao, locais que eram habitados por gente pobre que vivia em palhoças e onde existiam também fazendas que exploravam a mão de obra negra.
Registros apontam que em 1837, um total de 524 negros foram desembarcados na praia de Dois Rios, onde havia uma grande fazenda. Por fonte histórica não identificada temos conhecimento de que em frente à fazenda foram incendiados dois navios e que sua carga de escravos ficou escondida na toca das cinzas, por vários dias.
Na primeira metade do século XIX, os portugueses começaram a ser pressionados pelos ingleses a proibirem e combaterem o tráfico de escravos. Os ingleses tinham grande interesse na industrialização, que surgiu com a invenção da máquina a vapor, por James Watt. Com isso, foi intensificada a fiscalização na costa, que não funcionava na prática, pois as autoridades portuguesas tinham interresse econômico no tráfico. Foi quando em 1850, Portugual decidiu cooperar com os Ingleses e tornou realmente eficaz o patrulhamento feito nas enseadas de Lopes Mendes, Palmas, Abrãao e Estrelas, tendo nesta última, a Marinha mantido um posto avançado.
Mapa do Caminho do Ouro, via Registro (Piquete-SP),  Rota Afro da Diáspora.