terça-feira, 15 de novembro de 2016

POTOSI (Transcrição)

Quanto à prata encontrada em maior quantidade nos inventários do Planalto, 200.263,180 gramas (200 quilos em contas redondas) em 470 inventários, de onde teria vindo? Pois dela não temos referências quanto à mineração aqui no Brasil. Colocamo-nos em face da 3.a hipótese que formulamos há pouco, quanto à vinda de metais preciosos das possessões espanholas da América do Sul. O ponto de mineração da prata na América do Sul mais fácilmente atingido pelos planaltinos, teria sido Potosi, através do Pilcomaio, maior afluente do Paraguai. Infelizmente a documenação paraguaia que poderia provar a passagem de bandeirantes por essa via fluvial, não foi dirigida à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo e sim ao Departamento Municipal de Cultura, onde até hoje está arquivada, sem ainda ter vindo à luz. Potosi, o que foi Potosi? 
 Foi um grande centro de mineração da prata, situado no Perú. Sua atividade iniciou-se a partir de 1545, fornecendo grandes rendimentos à corôa espanhola. Humboldt (12) calcula o total da produção em mais de 25 mil toneladas de prata, no período que vai de 1545 a 1803, portanto, 226.000.000 de Libras, valor superior ao ouro brasileiro. A época de maior produção de Potosi, verificou-se entre 1585 e 1605, havendo, no século XVII, 1620, aproximadamente, um arrefecimento na produção, causando uma crise monetária na Espanha e a quebra do padrão monetário da prata, por algum tempo. Entretanto, nesse mesmo século, a situação normalizouse e a produção voltou ao ritmo comum. Com o decorrer do tempo, a quantidade de prata no Planalto se elevou (13), demonstrando um certo crescimento. De onde viria? A hipótese referente a Potosi é tentadora; teriam os bandeirantes mercadejado a mão de obra indígena capturada nas reduções, para o serviço nas minas espanholas? Teriam sido pagos em prata? São simples suposições que não se pode resolver, por falta de documentação. Muitos moradores do Planalto chegaram a Potosi, entre cs quais, Aleixo Garcia e Antônio Castanho da Silva, que lá faleceu em 1622 (14), e é possível, que a bandeira de Nicolau Barreto (1602-1604), lá tenha chegado, pois permaneceu no sertão durante um prazo exageradamente longo de dois anos. "O caminho para essas ricas minas castelhanas, nos Andes, era precisamente o que, segundo os documentos, havia sido seguido por Nicolau Barreto, isto é, via Guairá e Paraguai. Eis, pois, como é muito possível e provável mesmo, que Dom Francisco de Souza, já tendo visto fracassar várias tentativas de descobertas na região do alto São Francisco, orientasse Nicolau Barreto para as proximidades de onde os espanhóis se empanturravam de prata. Eis como se poderia interpretar aquelas palavras da Carta que a Câmara Municipal paulista dirigiu a Lobo de Souza na qual se diz que a bandeira de Barreto chegara ao Perú por terra" (15) . 
Basta a citação dêste trecho de Alfredo Ellis Júnior, para que se possa pensar numa rota entre o Planalto e Potosi, pois a quantidade de prata em Piratininga crescia com o decorrer dos anos. Certamente os paulistas não abandonaram o caminho seguido por Nicolau Barreto, aventurando-se constantemente nas possessões argentíferas espanholas. E com que dinheiro comprariam a prata tôda que desde 1578 a 1700 atingiu 200 quilos e 263,180 gramas sómente em poucos inventários? Que mercadoria seria trocada pela prata? Não poderia ser o escravo indígena brasileiro? Sabe-se que o negro foi muitas vêzes levado a Potosi pelos portuguêses e que quando se deu uma diminuição no ritmo produtivo nas minas de prata, os holandeses controlavam a navegação do Atlântico. A crise que em Potosi acarretou a quebra do padrão prata para a Espanha, poderia ter sido provocada por falta de mão negra fornecida pelos portuguêses, ou também pelo fato de não haver transporte para Espanha, devido aos holandeses que se alastravam pelo Atlântico. "O problema não foi ainda suficientemente estudado de maneira a se conhecer suas causas; é possível que haja alguma relação entre êsse fenômeno e o rompimento das linhas de comunicação com os centros africanos produtores de escravos e que a crise da prata peruana esteja ligada de certa maneira à crise da mão de obra" (16) . O mercado de prata entre Potosi e o Planalto, seria, entT etanto, de baixas proporções, pois a quantidade dêsse metal averiguada, já nos dá uma idéia de suas limitadas quantidades não trazendo riqueza ou melhoria de vida para Piratininga. Enrique de Gandia (17), escritor argentino, faz a seguinte referência quanto às relações planaltinas com Potosi: "Además, los portugueses se iban avecinando en aquellas regiones que, por estar relativamente cerca de Potosi, eran causa de que por ellas se extravie mucha plata para el Brasil". No "Caminho do Perú", capítulo do livro "Histôria da Civilização Brasileira", Pedro Calmon concorda com a tese de Alfredo Ellis Júnior — "A comunicação por terra com o Perú constituiu, em algum tempo, um objetivo dos bandeirantes paulistas .  
Haviam de ser clandestinas aquelas viagens, temidas dos espanhóis e que, entretanto, enriqueciam no século XVII, certas casas fidalgas de São Paulo, como a de Antônio Castanho da 'Silva, segundo Pedro Taques" . (Ésse "enriqueciam" deveria vir entre aspas, pois riqueza, na extensão da palavra, não existiu no Planalto, basta se observar os "Inventários e Testamentos") . Alcântara Machado, em sua obra "Vida e Morte do Bandeirante", notou, em contraste com a pobreza paulista, uma relativa abundância de prata em vários inventários e testamentos, como por exemplo os de André Fernandes, Salvador Jorge Velho, Bartolomeu Bueno Cacunda, etc. Citamos o texto de Taques (18), ao qual se referiu Calmon em sua obra: "Tendo Antônio Castanho passado ao Prú, como então faziam os antigos paulistas, penetrando o sertão do Paraguai, sem dependência de buscarem o passo da cordilheira por Mendonça (Mendoza), e por inumeráveis nações de gentios bárbaros, chegavam ao Perú, donde traziam a prata, de que foi muito abundante a cidade de São Paulo e nela houveram casas com copa importante de pêso, mais de 40 arrô- bas. Nas minas de Tatasi, província de Chichas, no reino do Perú, faleceu com testamento, Antônio Castanho da Silva, a 9 de fevereiro de 1622"... Outras referências a êste assunto são também feitas por A. P. Canabrava (19): "outra via de acesso existiu ligando as colônias portuguêsas do Atlântico às regiões do vice-reinado do Perú, a via terrestre do Guairá. As comunicações entre São Vicente e os núcleos espanhóis do Paraguai, por intermédio de Guairá, eram bem mais antigas do que as que se efetuaram por via do estuário... ...desde 1526, há referência à presença de portuguêses no Guairá" . "...A região do Guairá-Paraguai não perdeu, contudo, sua função tradicional de zona de passagem para os territórios do Alto Perú, para os sertanistas procedentes do Planalto paulista..." . "Sertanistas continuaram a rumar para Sudoeste, pois em 1613, D. Diogo Corral, fiscal do Conselho das índias declarava que Guairá, Vila-Rica e Jerez serviam de ponto de passagem para os paulistas atingirem as minas do Perú" (20) . Entretanto, houve uma penetração no Perú, também pelo Amazonas, o que constituiu o "ciclo nordestino", ao qual se filiaram várias pessoas de destaque na Bahia e Pernambuco, após denunciadas pelo Santo Ofício (1591-1594), quando Portugal foi anexado à corôa espanhola (1580-1640). Êste "ciclo nordestino" nada tem a ver com a penetração por Mendoza que foi relacionada com o "ciclo sulista", ou paulistano. Enfim, supõe-se que os paulistas estiveram em Potosi, pelo afluxo de prata para o Planalto, pois, desde que as bandeiras atingiram as reduções próximas dos locais em que se situavam as minas, por que não chegariam até lá, desde que houvessem possibilidades? (Sabemos que havia) . Não possuímos referências a minas de prata em território brasileiro; de Portugal também parece não ser possível ter vindo êsse metal, pois o Planalto, abandonado pela Metrópole, não oferecia nenhum mercado que atraisse os portuguêses e achava-se ainda mais isolado pela Serra do Mar, obstáculo que dificultava a ascensão à Piratininga, tanto de pessoas, como de mercadorias. Seria mais lógico atribuir a prata encontrada nos inventários e testamentos, às colônias espanholas mineradoras (21); e por que não a Potosi, local acessível e próximo do qual os paulistas iam prear índios em terras castelhanas, para si e para o nordeste açucareiro? "Don Juan de Lizarazu, em 1628, dirigiu a Don Diego Paredes, "capitan de guerra" e tenente de governador na fronteira de Santa Cruz de la Sierra, uma denúncia contra os paulistas, de que havia uma bandeira em Itatim, província de Orejones, a 30 léguas da cidade de São Lourenço a velha (Sul de Mato Groso, Bolívia?) que era "el camino de Potosi aun no alrá sesenta leguas" (22) . "De sus intentos de conquistar el Perú, consta papeles autenticos y cartas de la aundiencia de Charcas; y de otras per-. sonas zelosas del servido de V. M., por las cuales consta haberen llegado al paso de Santa Cruz de la Sierra, tierra ya vecina a Potosi" (23) . Quanto à última hipótese que formulamos, seria a de que a prata encontrada tivesse provindo do Nordeste, sob a forma de moedas, em pagamento dos escravos índios enviados pelo Planalto.
Nesse caso, como explicaríamos uma relativa escassez de moedas de prata aqui no Planalto? Teriam sido fundidas e reduzidas a objetos, por não serem de grande necessidade, em virtude do regime de trocas, tão comum naquela época? Tem-se a impressão, no entanto, de que a mão de obra enviada ao Nordeste, além de ser paga com dinheiro sonante, também poderia ser paga com certa quantidade e variedade de gêneros e é possível, também, que tenha havido um regime de crédito. A possibilidade da prata ter vindo de Potosi é bem mais interessante, pois seria muito mais compreensível que os paulistas empregassem a prata saída das minas, transformada em barras, pronta para ser trabalhada, do que fundissem um grande número de moedas, para transformá-las em tamboladeiras, colheres, garfos, pratos, etc., sôbre os quais rezam os inventários. "Em Potosi, no "mercado mais caro do mundo", onde os preços atingiam somas extraordinárias, os mercadores recebiam em pgamento, no século XVI, barras de metal (avaliadas em 250 castelhanos), pela dificuldade de se cunhar moeda, por causa da deficiência de combusítveis apropriados" (24). Apesar disso, entretanto, o fato de existirem nos Inventá- rios e Testamentos referências a "pesos" e "reales", demonstra que alguma moeda espanhola deveria ter existido no Planalto. Teria também existido uma relação comercial entre a região platina e o pôrto de São Vicente e a cidade de São Paulo, isto é, o Planalto, é o que afirma o testamento de Afonso Sardinha, ao referir-se a operações comerciais realizadas com o Rio da Prata, por intermédio de um tal Francisco de Barros, morador em Buenos Aires (25) . Seria, no entanto, um comércio pouco acentuado, em virtude da pobreza reinante na Capitania, principalmente no Planalto, onde eram escassas as moedas espanholas, o que não se deu na Bahia, em virtude da riqueza proporcionada pelo açúcar. Salvador foi o principal centro de comércio com o Prata, cujo próprio governador se admirou da quantidade de moedas espanholas no Brasil. 
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