segunda-feira, 14 de novembro de 2016

AFONSO SARDINHA o Velho (Trascrição)

Introdução
   Rústica e de pura sobrevivência, a economia quinhentista e seiscentista no planalto piratiningo tem base na bravura, às vezes sanguinária, dos colonos portugueses, até por que, alcançado o topo da Serra do Mar, não têm outra alternativa que não seja o avanço sobre as aldeias guayanazes [ou tupis, em geral] e guaranis que encontram no planalto e nos sertões do Piabiyu e de Ypanen. É por isso que entre Santos, S. Vicente e Piratinin [antes da S. Paulo dos Campos de Piratinin], nasce um complexo familiar de oficinas de artesanato de peças para a sobrevivência dos colonos. Entretanto, e “...até à chegada dos jesuítas, em 1554, a principal actividade dos colonos é a de embucharem as mulheres nativas, de preferência filhas de chefes tribais, a exemplo do Bacharel de Cananéia [Cosme Fernandes], e de Ramalho, logo seguidos por Afonso Sardinha e outros cristãos-novos fugidos da Inquisição católica ibérica, pois, no seu entender, é preciso marcar presença sanguínea” [Macedo, 1976]. Um dos mais poderosos colonos de entre os Sécs XVI e XVII é o político, paramilitar, mercador e minerador Afonso Sardinha - o Velho, que “negociava com o Reino, a Bahia, o Rio de Janeiro, Buenos Aires e Angola, fabricando e exportando marmelada. Posteriormente, outro Creso da época, o famoso Padre Guilherme Pompeu de Almeida, igualmente produziu milhares de caixinhas de marmelada, que mandava vender em Minas Gerais” [Taunay, 1958]. E pode-se dizer que o grande ciclo luso-paulista se inicia com a abertura de uma nova picada na Serra do Mar, entre S. Vicente e o planalto, na qual já trabalha também o destemido Afonso Sardinha, a colaborar com os jesuítas: é o Caminho de Anchieta.
Instalados na Piratininga, por ordem do padre Manoel da Nóbrega, os jesuítas recebem um apoio de grande relevância: o suporte de Afonso Sardinha, que o dá a outras congregações vaticanas, numa espécie de “mão aberta” incomum, mas que é para ele mesmo de grande valia logística no sonho de chegar às minas dos metais preciosos que tanto escuta nos falares dos nativos. Assim, a expansão jesuítica na Capitania de S. Vicente é feita a par da expansão dos negócios da Família Sardinha, principalmente a de mineração em sociedade com Clemente Álvares, pois, no final do Séc. XVI, Afonso já põe o filho mameluco, dito o Moço, a representá-lo em algumas empreitadas e o acompanha – aliás, a quem repassa a arte da mineração contrariando os seus pares da Câmara municipal paulistana, que haviam determinado que os colonos não poderiam ensinar aos mamelucos [filhos de brancos com nativas] as artes de fabricar peças metálicas, para que essas não chegassem às mãos dos escravos...  Da sua Fazenda Ybitátá à Fazenda Carapocuyba, passando pela Fazenda Jaraguá e o Arraial-Fazenda da Mina de Ouro do Byturuna, além dos arraiais mineiros de Cubatão e de Byraçoiaba, que constitui a primeira Via do Ouro na Capitania de São Vicente, Afonso Sardinha - o Velho, a par da sua atividade de banqueiro [que financia e vive de rendas, a grande atividade judaica] e vereador, é um autêntico imperador nos sertões do Piabiyu [Ybitátá e Carapocuyba] e d´Ypanen [Jaraguá, Byturura e Byraçoiaba], e é dele a maioria das casas alugadas a padres e oficiais do reino em Santos e São Paulo... Obviamente, esse português não chegou pobre à colônia, mas fez dobrar muitas vezes os seus cabedais a ponto de se tornar rei e senhor e exigir abertura política na metrópole para comprar escravos negros d´Angola, enquanto envia anualmente para Lisboa mercadorias em nome da Coroa! 
   Este é o senhor Afonso Sardinha, uma das principais referências da história luso-brasileira no que ao estabelecimento do Brasil diz respeito, nas partes dos sertões da Capitania vicentina, e mais propriamente no oeste da villa de sam paolo dos canpos de piratinin, e desta até Byraçoiaba, onde se abre o caminho para Araritaguaba, o porto [feliz] onde acontecem depois as monções destinadas a bandeirar o Brasil continental.