sábado, 3 de dezembro de 2016

O SERTÃO E AS MINAS NAS DUAS PRIMEIRAS CAPITANIAS PAULISTAS - CAPÍTULO XVI (Transcrição)

Chegada da frota de Martim Afonso ao Rio de Janeiro. - Primeira entrada no sertão. - Notícias de metais preciosos. - Prossegue a armada em sua rota ao Rio da Prata, sem tocar em S. Vicente. - segunda entrada no sertão, "dos oitenta homens que partem de Cananéia, em busca de ouro e escravos". - Castelhanos e lusitanos ali encontrados. - Volta da esquadra aos mares do Sul; sua entrada no porto de S. Vicente. - As duas primitivas vilas fundadas pelo futuro donatário: S. Vicente e Piratininga - Pontos de controvérsia que não têm mais razão de subsistirem. - Fascinação dos povoadores pelos tesouros ocultos no sertão. - Delineamento das divisas entre os dois donatários das "terras auríferas". - Explorações no sertão. - Os caminhos de penetração e as grandes artérias fluviais. - As zonas auríferas do litoral. - A permanência de Pero Lopes em S. Vicente e seu regresso a Portugal.

um dos fitoincipais de Martim Afonso e Pero Lopes, escolhendo na partilha do vasto território brasileiro, feita por d. João III, em 1534, esta zona austral do continente para nela estabelecerem suas capitanias, era, está bem visto, a exploração, antes de tudo, de minas auríferas, prata e pedras preciosas, cujas notícias de existência eram correntes nessa época.

Ao chegar a armada de povoadores ao Rio de Janeiro - 30 de abril de 1531 a fim de prover-se do necessário para prosseguir a rota até o Rio da Prata, um dos primeiros cuidados do futuro donatário de S. Vicente foi enviar uma expedição ao sertão com o fim especial de explorar a bacia e vale do Paraíba, até as encostas da Mantiqueira, indagando dos índios as veredas que iriam até os primeiros afluentes do Rio S. Francisco.

"Daqui (do Rio de Janeiro), diz o Diário de Pero Lopes, mandou o capitão irmão quatro homens pela terra a dentro; ali foram e vieram em dois meses, e andaram pela terra em cento e quinze léguas; e as sessenta e cinco delas foram por montanhas mui grandes, e as cinqüenta foram por um campo mui grande; e foram até darem com um grande rei, senhor de todos aqueles campos (talvez Tibiriçá?) que lhes fez muita honra e veio com eles até os entregar ao Capitão irmão. E lhes trouxe muito cristal, e deu novas como no Rio de Paraguai havia muito ouro e prata".

Sobre a região vicentina e seu respectivo sertão cortado pelo Anhembi e outros caudais, afluentes do Paraná, Paraguai e Prata, caminho por onde já se aventuravam os europeus mais destemidos daquela época, não necessitaria, por certo, o capitão Martim Afonso, que os índios lhe dessem notícia, pois ele já bem o sabia, pelas informações de seus companheiros de jornada, o escrivão da armada, Pero Capico, Pero Annes Piloto, e outros que já tinham estado no Brasil, inclusive o seu próprio irmão Pero Lopes de Souza, conforme afirmam hoje alguns historiadores, baseados em documentos.

E foi por isso, por terem de antemão boas notícias dessa famosa região, onde Antonio Rodrigues e João Ramalho possuíam já uma feitoria, a qual era "o fito principal - ou a meta - da expedição dos povoadores de 1531" - foi por isso, como íamos dizendo, que a armada de Martim Afonso, ao sair do Rio de Janeiro, depois de fazer escala pelos Alcatrazes, passou ao largo sem tocar em S. Vicente, dirigindo-se para Cananéia, onde fundeou "no dia de Santa Clara - 12 de agosto de 1531 - "conforme escreve Pero Lopes de Souza em seu Diario" [57].

Ali, segundo reza esse documento irrefutável, o futuro donatário confabulou com castelhanos e lusitanos residentes no local, procurando ainda ter notícias do sertão e das sonhadas minas de ouro e, principalmente, dos caminhos e veredas que ligavam ou se ligariam, mais tarde, com o Paraguai e mesmo com o Peru, cujos tesouros já estavam em evidência.

Ao tratar da estadia da frota em Cananéia, diz o Diarista de Bordo: "Por este rio arriba (mar-pequeno, ou lagamar que vai a Ararapira e a Ribeira de Iguape),mandou o capitão irmão um bergantim e a Pedro Annes Piloto que era língua da terra (N.E.: língua = tradutor de idiomas) que fosse haver fala com os índios. QUinta-feira dezessete dias do mês de agosto, veio Francisco de Chaves, e o bacharel (mestre Cosme) e cinco ou seis castelhanos. Este bacharel havia trinta anos que estava degredado nesta terra, e o Francisco Chaves era mui grande língua desta terra. pela informação que dela deu ao capitão irmão, mandou a Pero Lobo com oitenta homens, que fossem descobrir pela terra dentro; porque o dito Francisco de Chaves se obrigava - que em dez meses tornaria ao dito porto de Cananéia, com quatrocentos escravos carregados de prata e ouro.
"Partiram desta ilha (para não mais voltarem) ao primeiro dia de setembro de mil quinhentos e trinta e um, os quarenta besteiros e os quarenta espingardeiros...".
Todos sabem o desastroso fim que teve esta infeliz bandeira por Martim Afonso expedida às terras fatídicas dos Tapés e Carijós.
Ao voltar a frota dos mares procelosos do Sul, em demanda do seu almejado fim - S. Vicente -, em cujo porto fundeou no dia 22 de janeiro de 1532, e não em Bertioga, como erradamente se supõe, o capitão Martim Afonso deu início, imediatamente, à vila que vai ser de então em diante a sede de sua colônia e da futura Capitania.
Uma vez estabelecidas as bases fundamentais da vila e da respectiva governança da colônia, casa de conselho, Igreja, Pelourinho etc., o futuro donatário tratou de galgar a serra, em companhia de Ramalho e do chefe Tibiriçá, e parte do seu séqüito, a fim de visitar a aldeia da Borda do Campo e - principalmente - "a paradisíaca Piratininga", situada na ridente colina, próxima ao Tietê (Anhembi), em cujo local estava estabelecida a aldeia do grande Morubixaba.
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Fonte: BENEDITO CALIXTO Calixto e as Capitanias Paulistas - 20http://migre.me/vDYTk


Nota: Costa do texto a assertiva no sentido que: "Ao chegar a armada de povoadores ao Rio de Janeiro, 30 de abril de 1531 a fim de prover-se do necessário para prosseguir a rota até o Rio da Prata, um dos primeiros cuidados do futuro donatário de S. Vicente foi enviar uma expedição ao sertão com o fim especial de explorar a bacia e vale do Paraíba, até as encostas da Mantiqueira, indagando dos índios as veredas que iriam até os primeiros afluentes do Rio S. Francisco." 
No que diz respeito a controvérsia, relativamente ao sábado 30 dias de abril de 1531, quando afirma Pero Lopes de Souza em seu Diário de Navegação,  "...no quarto d'alva,  éramos com a boca do Rio de janeiro, e por nos acalmar o vento surgimos a par de uma ilha, que está na entrada do dito rio, em fundo de 15 braças de área limpa". Faz-se necessário ter em consideração, que a manobra objetivando a entrada na boca do Rio de Janeiro, ocorreu exatamente na latitude 23' correspondente a Baia Grande ou seja, o Núcleo Embrião de Parati. Definitivamente, a localidade definida com a toponímia "Rio de Janeiro" corresponde a Baia de Parati. Fundamenta a afirmação somado ao entendimento de alguns Historiadores de que, a expedição esteve no Vale do Paraíba, bem como, no contra forte da Serra da Mantiqueira algumas incontrastáveis evidências.
a) A expedição em questão, como se abstrai do roteiro, simplesmente foi enviada ao sertão, a partir da localidade em que se encontravam, ou seja, em momento algum constou que tivesse a expedição percorrido, algum trecho navegando, para alcançar o caminho, ou mesmo quando do retorno ao ponto de partida. Sendo essa condição necessária, se houvesse partido da Baia de Guanabara. Ademais, essa foi a circunstância que mais tarde veio a determinar a Coroa Portuguesa, que fosse construído o Caminho Novo da Piedade, justamente para evitar o trecho de mar, para alcançar a localidade que só  posteriormente veio a ser designada de Rio de Janeiro, a qual era alcançada pela via do Porto de Sepetiba. 
b) Outra condição necessária, impossível de ser descartada, é  a designação do termo "Rio de Janeiro",  ou seja, qualquer expedição que desconsiderasse, a indispensabilidade de buscar sempre a foz de um rio, em decorrência da indispensabilidade de busca de água doce,  estava fatada ao infortúnio.  Desta feita, em se tratando de foz de um Rio, e caminho de entrada para o Sertão, resta clara que, todos os portos  de abastecimento  estão associado a foz de um Rio,  a exemplo do Maranhão,  Espirito Santo, São Vicente etc.  
c) Ademais, dúvida não resta no sentido que a costa já estava devidamente mapeada, a exemplo da passagem de Américo Vespúcio em 1502. Assim como a posteriori, manteve se como principal caminho de entrada para o Sertão. A exemplo de Anthony Knivet,  que estando no mesmo contraforte da Mantiqueira, nas mesmas veredas,  traz noticia de um Morubixaba. Assim como, do rio Para (São Francisco), buscado permanentemente pelo indígenas da localidade conforme relatos. 
e) Ademais não foi em razão da inexistência da foz de um rio, indispensável a provisão do necessário, que os Franceses que se instalaram na Guanabara em 1555, tiveram seu projeto da França Antártica fracassado? Ou seja, "Segundo os primeiros relatos de Thévet e Barré, publicados em 1557 na Europa, o convívio entre católicos e protestantes foi inicialmente pacífico. A relação amistosa com os índios tupinambás também foi fundamental para a consolidação da colônia. Os nativos forneciam alimentos e água aos franceses, pois a ilha de Serigipe, escolhida por razões puramente militares, não possuía fonte de água doce. Em troca, os indígenas obtinham mercadorias europeias, especialmente instrumentos de ferro."
Fonte: Conflitos da França Antártica  - Franceses se instalaram na Guanabara em 1555, mas diferenças religiosas enfraqueceram a empreitada http://migre.me/vE1rd