sábado, 31 de dezembro de 2011

Parte: 2 - Irmandades de Pretos e Pardos no Vale do Paraíba Paulista (XVIII e XIX). Fábia Barbosa Ribeiro (Doutoranda - FFLCH-USP)

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(Transcrição) No Brasil, as primeiras irmandades de homens pretos surgiram no Rio de Janeiro, em Belém e na Bahia, no século XVII, e se compunham majoritariamente por centro-africanos, os mais numerosos nas cidades desta época. A de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no Rio de Janeiro, foi organizada a partir de 1639 e reconhecida somente 30 anos depois.6 Estudos sistemáticos sobre as irmandades de negros e pardos na América portuguesa têm demonstrado que essas associações existiram em todas as províncias brasileiras e pontuam a importância de estudá-las historicamente ao longo do período da escravidão. Foram parte integrante de um catolicismo que denominamos de “tradicional” ou “popular” e se constituíram como ordens leigas, por serem seus fundadores e membros pessoas que geralmente não mantinham qualquer ligação
com os cânones oficiais. Dessa forma os devotos estabeleciam uma forte relação com o social e faziam das festas e das manifestações religiosas uma forma típica de reunião popular, configurandoas
em núcleos de convivência nas cidades. Segundo Cristina Wissenbach, a independência dos rituais do catolicismo popular havia possibilitado a percepção de práticas que extrapolavam as oficiais, incorporando concepções mágico-religiosas remotas.7 No Vale do Paraíba paulista foram localizadas imagens de Santo Antônio feitas em nó-de-pinho, artefatos que no século XIX, vem demonstrar a interação religiosa entre as práticas africanas e européias. Estar em contato com os santos se tornaria de extrema
importância para os africanos de origem banto e seus descendentes, grupo que cedeu a grande maioria dos braços incorporados nas fazendas de café, pois traziam de suas regiões, rituais pautados também pela interseção, utilizando objetos mágico-religiosos como a cruz desde antes da chegada dos europeus. Usos estes que auxiliavam a compreender o mundo visível e invisível que coabitavam num mesmo plano.8 É mister destacar que o mundo mental africano opera a partir de uma lógica totalmente oposta ao mundo europeu, no qual o valor moral mais alto está no indivíduo e em seus direitos: “penso, logo existo”, é a declaração da idade moderna. No universo africano o valor mais alto é a
comunidade: “pertenço, logo existo”. Cada indivíduo funciona como peça fundamental de umtodo e a importância de uma pessoa será medida pela qualidade de sua teia de relações. Aquele que mantém mais ligações dentro do grupo com pessoas de talento e conhecimentos diferentes se destacará, pois sua identidade é criada a partir das relações que mantém com a coletividade e o sujeito é aquilo que o seu grupo lhe permite ser. A experiência comunal da economia doméstica africana agrega valor às pessoas, às suas histórias, que são contadas sempre por meio degenealogias: “ele nasceu!”. Essa lógica de pertencimento foi transmutada para as irmandades de homens pretos. Viajou através dos navios negreiros, criou laços ainda na travessia dos malungos e foi incorporada sob novas formas de solidariedade. Assim, “a reunião em grupos oriundos da mesma etnia ou de regiões próximas, pertencentes a um mesmo complexo sociocultural, foi outra forma encontrada para recriar as afinidades antes fundadas nas relações de parentesco”. 9 Angolas, minas, nagôs, jejes, ao incorporarem para si as denominações de sua procedência10 teceram uma rede de relaçõesque propiciou formas de sobrevivência e sociabilidade na sociedade escravista e as irmandades católicas se inserem sobremaneira nesse contexto. Segundo Azzi, uma das particularidades deste catolicismo é: A ereção dos primeiros locais de culto, simples cruzes e ermidas, quer nas cercanias das cidades e aldeias, quer à margem dos caminhos ou em lugares solitários. Essas ermidas e capelinhas, construídas pelo fervor de pessoas particulares, dão origem às primeiras irmandades destinadas ao cuidado desses locais de culto, e cujos membros buscam a proteçãodo santo contra as vicissitudes da vida e para obter uma boa morte”.11
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GUIA DA UNESCO - Una guía para la administración de sitios e itinerarios de memoria.

Ficha 22: Ruta de la libertad (A Rota da Liberdade), São Paulo, Brasil (A Rota da Liberdade), São Paulo, Brasil ■ ANTECEDENTES ■ ANTECED...