“A PRESENÇA INDÍGENA NAS CAPELAS DA CAPITANIA DE SÃO VICENTE (SÉCULO XVII)”
PROF. DRA. GLÓRIA KOK (UNICAMP) SÃO PAULO 17 A 22 DE JULHO DE 2011
Durante o século XVII, formou-se, nas capelas administradas pelos
jesuítas, uma cultura ibero-ameríndia que conjugou acervos culturais dos jesuítas, do mundo ibérico e de diversos grupos indígenas. Além dos índios aldeados ou cristãos e dos índios “administrados”, a sociedade colonial criou a categoria “índios encapelados”, que viviam em torno das capelas das propriedades particulares. Trata-se, assim, de uma outra categoria do índio colonial, indicativa
de uma forma de vínculo dos nativos com os adventícios em São Paulo. Segundo a historiadora Karen Spalding, a história da sociedade colonial não é apenas a do transplante da sociedade européia para o Novo Mundo, mas é, sobretudo, a história do desenvolvimento de novas tradições culturais e de interações entre diversos grupos sociais (SPALDING, 1972, pp. 47-76). Os índios das capelas exerceram múltiplos papéis e funções, como, por exemplo, nos movimentos de expansão paulista em busca de índios e de ouro em direção ao Vale do Paraíba e às regiões de Minas Gerais (1698), Cuiabá (1718) e Goiás (1725). Se, por um lado, as capelas representavam um espaço religioso da conquista ibérica, por outro, podiam se transformar em locais de manifestações e de negociações indígenas. Guardiãs de múltiplos significados, as capelas, não raro, traduziram estratégias indígenas de preservação das identidades na história colonial de São Paulo..
de uma forma de vínculo dos nativos com os adventícios em São Paulo. Segundo a historiadora Karen Spalding, a história da sociedade colonial não é apenas a do transplante da sociedade européia para o Novo Mundo, mas é, sobretudo, a história do desenvolvimento de novas tradições culturais e de interações entre diversos grupos sociais (SPALDING, 1972, pp. 47-76). Os índios das capelas exerceram múltiplos papéis e funções, como, por exemplo, nos movimentos de expansão paulista em busca de índios e de ouro em direção ao Vale do Paraíba e às regiões de Minas Gerais (1698), Cuiabá (1718) e Goiás (1725). Se, por um lado, as capelas representavam um espaço religioso da conquista ibérica, por outro, podiam se transformar em locais de manifestações e de negociações indígenas. Guardiãs de múltiplos significados, as capelas, não raro, traduziram estratégias indígenas de preservação das identidades na história colonial de São Paulo..
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A expulsão dos jesuítas da Capitania de São Vicente, em 1640, motivada pelos conflitos que envolveram colonos, jesuítas, a Coroa portuguesa e os grupos indígenas em torno da mão de obra e das terras levou à desarticulação da cultura ibero-americana e a depopulação das aldeias dos arredores da vila de São Paulo. A aldeia de São Miguel passou para os religiosos franciscanos, enquanto Carapicuiba ficou sujeita ao vigário da paróquia de Cotia. Na última década do século XVIII, segundo informa um documento
da época, a capela estava com suas paredes danificadas pelos animais e seus oradores viviam “a mais miserável das existências”.
da época, a capela estava com suas paredes danificadas pelos animais e seus oradores viviam “a mais miserável das existências”.
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Durante o século XVII, milhares de índios despovoaram as aldeias coloniais acompanhando as correntes de expansão paulista em direção ao Vale do Paraíba, estabelecendo-se nas vilas de Mogi das Cruzes (1611), Parnaíba (1625), Taubaté (1643), Guaratinguetá (1651), Jacareí (1653), Jundiaí (1655), Itu (1658), Sorocaba (1661) e Curitiba (1693), enquanto outros se deslocaram para as regiões de Minas Gerais (1694), Cuiabá (1718) e Goiás (1725), para trabalhar nas minas de ouro. O movimento centrípeto da população de São Paulo articulado ao bandeirismo foi observado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda. Diz ele: “[...] despejando em periódicas pulsações as sobras de seu povo, a vila de S. Paulo se vai projetando no século XVII em novas comunidades que sucessivamente se vão formando ao largo do sertão. Se o fenômeno não tem o alcance espetacular das grandes entradas bandeirantes, o certo é que a estas se enlaça pela sua origem e serve para clareá-las de luz nova. Que ele se dava com iguais características nas comunidades secundárias ou derivadas, por sua vez erigidas em outros tantos focos de expansão, é desnecessário dizê-lo, embora seja lícito pensar que se revelasse mais sensível no núcleo primitivo e já ‘saturado’ do planalto” (HOLANDA, 1966, pp. 162-163). Na maioria das vilas recém-fundadas, a população indígena superava a dos brancos. Em Sorocaba, por exemplo, a população indígena representava 83% do total (HOLANDA, 1966, p. 87). Em contrapartida, uma denúncia de meados do século XVII alertava sobre o estado das aldeias jesuíticas do Planalto Paulista (Barueri, Pinheiros, São Miguel e Guarulhos): “se acham impossibilitadas de gente por serem os índios dellas levados de moradores ao sertão, onde perecem todos, com que remontando-se nesta conformidade se vão as aldeias extinguindo [...].”(Apud PETRONE, 1995, p. 185). O despovoamento das aldeias coloniais de São Paulo pode ser atribuído ao alto índice de fugas e também aos numerosos “negros da terra” que permaneceram por tempo indeterminado nas fazendas e em casas particulares, deixando os seus parentes nas aldeias da vila. É patente, no entanto, a intensa movimentação dos índios entre as aldeias, o sertão, as fazendas e as vilas.
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Imersos na pobreza rural do cinturão de São Paulo, os índios foram transmudados em caipiras e mestiços. À sombra da identidade caipira, porém, a capelinha devotada a um orago, com variados sinais de tradições culturais indígenas, resistiu à ação do tempo como centro da religiosidade e de sociabilidade de uma população itinerante e dispersa (CANDIDO, 2003, p. 95).
Nota: As Roças de Bento Rodrigues na região do Guaipacaré, foram formadas e mantidas por quem, senão, com a força de trabalho indigena, inclisive dos que habitavam às veredas das brumas das terras ermas, Núcleo Embrião de Piquete ?
Nota: As Roças de Bento Rodrigues na região do Guaipacaré, foram formadas e mantidas por quem, senão, com a força de trabalho indigena, inclisive dos que habitavam às veredas das brumas das terras ermas, Núcleo Embrião de Piquete ?