domingo, 9 de setembro de 2012

Parte 3 - O lado oculto da opulência: comunidades rurais no século XVIII mineiro (Transcrição)

A ocupação
Nessa pesquisa, pretendemos acompanhar aqueles indivíduos e grupos mais periféricos pertencentes às camadas mais baixas da sociedade em diferentes escalas de observação. Objetivamos compreender o comportamento sócio-econômico de sociedades agrárias coloniais ou mesmo reavaliar conceitos ao se perceber quais as respostas dadas aos diferentes desafios surgidos na trajetória de suas vidas, seja no que diz respeito à organização familiar, aos bens, à falência, o recurso à emigração, dentre outras. Ao promover o cruzamento dos registros de batismo com inventários e fontes de outra natureza, buscamos uma articulação entre vidas individuais, família e o contexto histórico. O recurso aos inventários é de valiosa importância, pois através deles podemos perceber a trajetória do indivíduo e sua capacidade de reiteração no tempo, ao adquirir bens, formar família, e administrar seus ativos. Contamos, evidentemente, com a sorte e com a lucidez de que serão poucos aqueles indivíduos cujos atos importantes na vida são passíveis de serem acompanhados em longo prazo.
Toda referência feita aos primeiros anos da ocupação das Minas opõe dois grandes grupos, que guardariam muitas diferenças: de um lado, os paulistas, desbravadores incansáveis, experientes sertanistas em busca de negros da terra e das melhores oportunidades de comércio, responsáveis pela interiorização do processo colonizador; do outro lado, portugueses recém chegados, aventureiros de toda sorte, em busca do enriquecimento fácil na lavra do ouro.
Mas, o que significava ser paulista no início do século XVIII? Desde o primeiro século da colonização foi a Capitania da São Vicente a única do “Sul” da colônia a ser efetivamente ocupada por jesuítas e colonos, voltados para uma economia subsidiária, com a produção de trigo, açúcar e alimentos, marcada principalmente pelo apresamento e comercialização da escravidão indígena. Para John Monteiro, a introdução de portugueses naquelas terras proporcionaria a futura ocupação pelos invasores e a redefinição do papel da identidade do índio na sociedade colonial que se formava. Antes de tudo, São Paulo representava a porta de entrada do sertão, pela qual vastas regiões foram integradas ao cenário da colonização, milhares de índios foram dizimados e, por fim, o ouro foi descoberto.17 Através de diversas bandeiras os limites da colônia eram testados a alargados. Muitas expedições particulares, a exemplo da de Fernão Dias Pais, que saiu de São Paulo em 1674 e permaneceu no sertão até sua morte em 1681, permaneceram na região das Minas dando origem aos primeiros núcleos de colonização branca.18 Junto a estes primeiros levas sucessivas de Taubaté, Pindamonhangaba e Parati, abandonavam seus familiares provisoriamente para buscá-los depois, sob novas condições, nos povoados recém fundados.
Paulistas eram, sobretudo, filhos de portugueses nascidos no planalto paulistano de, no mínimo segunda geração, ou já instalados há anos, possuidores de toda uma organização social, familiar específica, na qual o parentesco possuía uma vital importância a cimentar as relações sociais diante da imprevisibilidade da vida na colônia.19 Uma sociedade marcada também pela mestiçagem, perceptível pela presença de mamelucos e bastardos entre os colonos.20 É evidente que sendo a mestiçagem reflexa do contato entre os diferentes grupos étnicos e de distintas gerações de portugueses no espaço colonial, permaneciam não só os critérios de identificação, como também aqueles que mantinham certa diferenciação cultural21. Estavam dispostos a fazer valer seus interesses de acesso a terras, homens e as possíveis benesses da Coroa Portuguesa.22
Por outro lado, quem eram os portugueses? O levantamento inicial já realizado com os registros paroquiais de batismo demonstra que vinham da região do Minho, basicamente dos distritos de Braga, Porto e também de Guimarães, região noroeste de Portugal que, no início dos setecentos se caracterizava pela presença de pequenas propriedades, produção de milho, feijões e outros legumes, além da produção artesanal de tecidos. Em geral, caracterizam-se pela exploração agrícola de caráter familiar, tal como foi mencionado no início desse artigo.
Francisco Vieira da Rocha, filho de um casal de portugueses, casou-se com Anna Maria da Rosa, filha de um casal de paulistas, originários de Parati e Taubaté e neta, provavelmente, de um sertanista também de São Paulo.23 Os pais de Anna Maria já moravam na Aplicação de Nossa Senhora da Ibitipoca, termo da Borda do Campo e, como consta no cruzamento dos Registros de Batismo de 1751, estavam levando à pia batismal um outro filho, Sebastião. Portanto, em um mesmo livro, constam registros de batismo de uma filha e um irmão de Anna Maria. Para padrinhos de sua menina, seu cunhado e esposa.
Francisco Vieira da Rocha teve seu inventário aberto em 1790 e, àquela época, já havia tido dezesseis filhos com sua única esposa, estando apenas quatro casados e os demais doze, solteiros (ao final do inventário todos aparecem casados). Encontramos um padrão melhor de objetos e utensílios de casa, bem como ferramentas de trabalho. Constam 226 cabeças bois e vacas, além de animais de tiro, ovelhas e porcos. Entre seus bens de raiz, apesar de não constar nenhuma sesmaria em seu nome, nos arquivos pesquisados, consta a presença de fazendas de cultura ( com todas as benfeitorias) e mais duas outras sesmarias. Entre seus escravos constam cinco cativos adultos (entre eles um casal) e quatro outros menores, filhos destes. Concede dotes às suas filhas, cujo conteúdo é o mesmo: um escravo, às vezes designado como moleque e umas vacas com crias. O teor do dote confirma os estudos clássicos sobre a questão. Sugeria uma doação que pudesse alavancar a formação de uma nova unidade de produção doméstica e escravista. Essa propriedade revela um padrão de média a grande propriedade escravista, vinculada às redes de mercado interno, próxima ao padrão de propriedades agroepcuaristas encontradas para toda a região da Mantiqueira.24
Como seu nome, bem como de seus pais e sogros, não constam nos documentos de capitação e dízimo, para períodos mais recuados, no início até meados do século XVIII, sugerimos que sua presença na região deve-se menos à aventura da extração de ouro nas primeiras décadas dos setecentos e mais à sua readaptação às novas condições dos meados do século. Ou seja, com o rápido esgotamento da extração de ouro naquelas paragens, a dedicação à agricultura tornou-se a saída mais eficaz aqueles indivíduos e grupos que buscavam acesso estável a terra. Ser proprietário de terras na Borda do Campo, região bastante estratégica ao escoamento de mercadorias para os mercados mais distantes, representava uma importante oportunidade tanto para os chamados paulistas, como para portugueses.
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Fonte: Créditos - Mônica Ribeiro de Oliveira Universidade Federal do Juiz de Fora http://migre.me/aDtej
Piquete, espaço colonial: Registro (Piquete-SP), Conceição do Embaú (Cruzeiro-SP)
Piquete, espaço colonial: Registro (Piquete-SP), Conceição do Embaú (Cruzeiro-SP) Fonte: http://migre.me/aDuS2

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