quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil foi coordenado pelo Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI) da Universidade Federal Fluminense, em parceria com o Comitê Científico Internacional do Projeto da UNESCO "Rota do Escravo": Resistência, Herança e Liberdade” - Piquete-SP, no Caminho do Jongo, no Caminho do Ouro, no Caminho da História. (Na foto Mestre Gil do Jongo de Piquete-SP)

Jongo no Sudeste (Transcrição)

Acervo Iphan
O Jongo no Sudeste é uma forma de expressão afro-brasileira que integra percussão de tambores, dança coletiva e práticas de magia. É praticado nos quintais das periferias urbanas e em algumas comunidades rurais do sudeste brasileiro. Foi inscrito no Livro das Formas de Expressão em 2005. Nessa região, é praticado nos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Ao longo do processo de Registro, comunidades manifestaram o desejo de participar da discussão: jongo de Campos, tambor da Fazenda Machadinha em Quissamã e jongo de Porciúncula (RJ), jongo de São José dos Campos (SP), jongo de Carangola (MG) e de Presidente Kennedy (ES).
Os atuais jongueiros são, geralmente, descendentes de jongueiros. Vivem em bairros pobres das cidades, onde são trabalhadores - ativos ou aposentados - e estudantes. Ali se radicaram seus avós e bisavós no período pós-abolicionista, em zonas intermédias entre campo e cidade. Alguns deles, nascidos na primeira metade do século 20, fizeram um percurso migratório entre o local de origem, geralmente uma vila ou área rural, e a cidade onde moram agora.
Guardam lembranças vívidas das rodas que viam quando crianças, dos cantos que ouviam e das histórias que seus pais e avós contavam sobre o jongo. Acontece nas festas de santos católicos e divindades afro-brasileiras, nas festas juninas, nas festas do Divino, no dia 13 de maio (Dia da Abolição da Escravatura). É uma forma de louvação aos antepassados, consolidação de tradições e afirmação de identidades, com suas raízes nos saberes, ritos e crenças dos povos africanos, principalmente os de língua bantu. São sugestivos dessas origens o profundo respeito aos ancestrais, a valorização dos enigmas cantados e o elemento coreográfico da umbigada.
No Brasil, o jongo consolidou-se entre os escravos que trabalhavam nas lavouras de café e cana-de-açúcar, no sudeste brasileiro, principalmente no vale do Rio Paraíba. Trata-se de uma forma de comunicação desenvolvida no contexto da escravidão e que serviu também como estratégia de sobrevivência e de circulação de informações codificadas sobre fatos acontecidos entre os antigos escravos por meio de pontos que os capatazes e senhores não conseguiam compreender. O Jongo sempre esteve, assim, em uma dimensão marginal onde os negros falam de si, de sua comunidade, através da crônica e da linguagem cifrada. É também conhecido pelos nomes de tambu, batuque, tambor e caxambu, dependendo da comunidade que o pratica.
 Nota: O dossiê encaminhado ao IPHAN, objetivando a inscrição do Jongo do Sudeste, no Livro de Registro da Formas de Expressão do Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial descreve a dança Rural jongo, informando outros nomes pelos quais também é conhecida, ou seja, "Tambor" e "Caxambu". Entre outras considerações, afirma tratar-se de uma herança cultural de linguá banto, habitantes do vasto território do antigo Reino do Congo, que teriam sido trazidos para trabalhar nas fazendas do Vale do Vale do Paraíba nas lavouras de cana de açúcar e café, (2)
Entretanto, dada as evidências documentais, é possível afirmar que a manifestação e existência da herança banto está relacionada no Sudeste com o inicio, ou até mesmo, antecedendo, ao período que se determinou chamar de 'a corrida do ouro". A assertiva faz sentido uma vez que, em uma das obras mais importantes para a historiografia brasileira, "Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas", (Andre João Antonil), de 1711. Em seu "Roteiro do caminho da Vila de São Paulo para as Minas Gerais para o Rio das Velhas", um verdadeiro registro toponímico de um Itinerário Cultural a "Rota da Diáspora Africana". Ao citar como exemplo as Cinco Serras Altas, correspondente ao contraforte da Mantiqueira, espaço colonial de Piquete-SP, onde a dança rural africana se faz presente até os dias de hoje. Em especial, após a transposição da Serra da Mantiqueira, ao descrever aspectos dos campos de altitude afirma: "Tem este campo seus altos e baixos; porém moderados; e por ele se caminha com alegria; porque tem os olhos que ver e contemplar na perspectiva do Monte Caxambu, que se levanta as nuvens com admirável altura". Ao referir-se a Caxambu, considerando que, uma toponímia está relacionada a consolidação de uma vivência, no contexto de uma visão de mundo. As informações passadas ao articulista, veio de alguém que se Caxambu não viu, possibilita no minimo, afirmar sua existência, resultante da cosmovisão reinante no seu tempo de viver ou de uma memória reinante. Ademais, a diáspora africana não se tratou de um fato isolado, mas da razão de ser, ou seja, os braços e penas dos senhores eram os escravos, como asseverou o mesmo André João Antonil. Hoje com o reconhecimento pela UNESCO, através do Projeto Rota do Escravo, do caminho do ouro, como lugar de memória da Escravidão e do Tráfico Atlântico, bem como a manifestação da dança rural Jongo. Esta mais que na hora, das comunidades do caminho,  em especial a cidade de Caxambu, apropriarem-se dessa magnifica História, e passar a ser, uma das mais valiosa representação de resgate e vivencia dessa memória,  na década Internacional do Afrodescendente, como um direito fundamental do Homem. 
Fonte: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/59