sábado, 30 de abril de 2016

A trilha dos tupiniquins (Transcrição)

Os primeiros caminhos do Litoral ao Planalto Paulista
Um rol de dúvidas, confusões, enigmas e mitos
Antonio Joaquim Andrietta (*)
1 - Apresentação
O objetivo principal deste breve ensaio é realçar a importância dos primeiros caminhos de ligação do litoral ao planalto paulista, nos primórdios da colonização portuguesa no território paulista, ainda na primeira metade do século XVI. Tornou-se necessário um repasse nos relatos históricos sobre o tema e sobre os fatos adjacentes [2], com o auxílio de diversas fontes e o cruzamento de muitas delas, para proporcionar uma ordem cronológica, tanto no sentido temporal quanto racional.
Resguardado o respeito tributado ao esforço de pesquisa e divulgação, e à liberdade de pensamento e expressão de muitos autores, alguns anônimos, as abundantes fontes em meio eletrônico (Internet) que tratam do tema [3], lamentavelmente, em grande parte deslizam para imprecisões e incoerências, quando não se limitam à pura e simples cópia, às vezes sem reconhecer a autoria original. De tal forma, avolumam-se as dúvidas e confusões sobre aspectos já controversos do tema, ainda entremeado de enigmas e mitos.
Não se pretende aqui ter atingido a verdade histórica absoluta e cabal, porque se esta houvesse cessaria toda a necessidade de produção de novos conhecimentos. A contribuição pretendida é, a partir dos relatos narrados, apresentar outros aspectos e sugerir novas interpretações. Nada é definitivo, e muito ainda se pode pesquisar e acrescentar ao conhecimento de uma parte tão importante da história e do desenvolvimento paulista e brasileiro.
Com a intenção de produzir um texto de leitura mais palatável e corrida, omitiram-se nele as recorrentes referências bibliográficas, as mais relevantes apostas em notas ao final do texto, minimizaram-se as citações de autores e substituíram-se notas de rodapé por breves observações entre parênteses no próprio parágrafo. Acredita-se que tais reparos, que se fariam a um texto estritamente acadêmico, possam ser relevados em prol de um formato de cunho mais prático e, talvez, mais útil.
De todos os eventuais leitores, historiadores ou leigos interessados nos temas aqui tratados esperam-se e acolhem-se as contraposições, críticas, sugestões e contribuições adicionais que se dispuserem fornecer.
.................................................................................
7 - O Peabiru teria facilitado a penetração no território?
Os espanhóis foram muito rápidos em penetrar o interior bravio da parte do território sul-americano que lhes coubera pelo Tratado de Tordesilhas e, nessa empreitada, tiveram os indígenas locais como guias.
Partindo de Santa Catarina, os espanhóis seguiram o caminho indígena para chegar ao Paraguai e fundar Assunção (1537) e, logo depois, estabelecerem a estancía (similar às capitanias hereditárias do Brasil) do Paraguai, que incluía o território catarinense, nomeando seu primeiro governador, Juan de Sanabria. O mesmo se deu com missionários jesuítas e franciscanos espanhóis. Ainda em meados do século XVI instalaram-se missões jesuíticas no Paraguai.
Dos relatos mais antigos, consta a epopéia do português Diogo Aleixo, náufrago nas costas da Ilha de Santa Catarina (atual Florianópolis) que, acolhido pelos índios carijós do local, foi por estes conduzido em expedição que, em 1525, atingiu o Peru (Cuzco, a então capital do Império Inca, anos antes que o espanhol Pizarro o fizesse navegando pelo Oceano pacífico). O relato de Aleixo sobre a façanha e, principalmente, sobre a abundância de metais preciosos (ouro e prata) que encontrou naquelas terras, logo chegou à corte portuguesa (e, certamente, à de Espanha também).
Esse fato deve ter se somado a outros que incomodavam Portugal em relação às suas terras da América. Depois da expedição de Pedro Álvares Cabral, em 1500, a Ilha de Vera Cruz (logo a seguir mudada para Terra de Santa Cruz) esteve, praticamente, abandonada pelo reino português. Não havia recursos humanos e materiais para dar conta das novas possessões em três continentes além mar, e as Índias ainda representavam o foco prioritário de onde provinham valiosas cargas de especiarias.
Até a chegada de Martim Afonso de Souza, registraram-se apenas duas expedições portuguesas ao Brasil. A primeira, de 1501 a 1502, foi comandada por Gonçalo Coelho e André Gonçalves, participantes da armada de Cabral, e veio a mando do rei D. Manuel para reconhecimento da nova terra.
Dessa expedição fez parte o florentino Américo Vespuccio, companheiro da viagem de Cristóvão Colombo à América. Exímio cartógrafo, coube a Vespuccio dar nomes (de santos venerados no calendário católico do dia do reconhecimento) aos acidentes geográficos da costa nordeste e sudeste, desde o Cabo de São Roque até às ilhas de São Vicente e Santo Amaro (em tributo às cartas geográficas elaboradas por Vespuccio, ou talvez por engano, em 1507 o cosmógrafo alemão Martin Waldseemüller atribuiu o nome América ao novo continente).
A segunda expedição, de 1516, comandada por Cristóvão Jaques, visava o policiamento da costa e combate aos piratas franceses que contrabandeavam o pau-brasil. A ação predatória dos franceses irritava o reino português que arrendara a exploração do pau-brasil a uma companhia inglesa, e desse acordo arrecadava vultosas comissões.
Quando, então, D. João III decidiu enviar para cá seu amigo de confiança e reconhecida competência, Martim Afonso de Souza, entre as intenções de iniciar uma efetiva colonização e afastar os invasores - empreendimentos que o intrépido capitão logo pôs em ação - incluía-se uma disposição secreta, de avançar por aquelas trilhas indígenas e explorar as riquezas minerais nas terras interiores sob domínio espanhol. Pois até essa disposição real o capitão procurou executar, sem sucesso porém. Chegando em Cananéia em 1531, antes de aportar em São Vicente, enviou uma tropa de 80 homens armados em busca de ouro, subindo a Serra do Cadeado na região do Alto Rio Ribeira de Iguape, mas em combate com os ferozes Carijós toda a expedição foi dizimada.
Seriam, então, os Carijós os guardiões de todo o Peabiru, aqui e nas terras do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Do mesmo ramo dos Tupiniquins do litoral vicentino e do planalto paulista, a estes teriam ensinado apenas parte da trilha. Esta poderia chegar a Cananéia, no litoral sul, como continuação daquela que chegava em São Vicente, ou poderia estender-se até lá como um ramal da trilha que de Sorocaba alcançava Botucatu e depois seguia para o Paraná.
A Trilha dos Tupiniquins, tenha havido ou não a ordem governamental de interdição, acabou esquecida e abandonada. Talvez o receio de Tomé de Souza fosse seu possível uso pelos espanhóis, penetrando as terras em disputa, mas é evidente que a ordem não se aplicaria a eles.
Independentemente das trilhas indígenas, mais tarde os bandeirantes paulistas se incumbiram de encontrar as tão decantadas riquezas minerais, desbravar o interior das terras do Brasil de Portugal e até fazer recuar mais para Oeste o marco divisório de Tordesilhas.
Além do mais, a ligação litoral-planalto, pelos dois caminhos, havia cumprido seu papel e perdeu importância. A determinante geográfica foi decisiva para que o desenvolvimento paulista se desse no planalto, em sua região central, ao contrário de todas as províncias litorâneas (à exceção do Paraná que até 1853 pertenceu à província paulista).
O litoral não tinha riquezas minerais. A exígua faixa de terra entre o mar e a serra, a baixa produtividade do solo e a umidade determinaram a falência da cultura canavieira na orla vicentina. O porto de São Vicente foi assoreado por invasão do mar e, em 1624, a sede da capitania passou para Itanhaém que, por sua vez a perdeu para São Paulo em 1681.
Apenas quando findou o ciclo do ouro, já no século XVIII, e o açúcar do planalto requeria melhor acesso ao porto de Santos, o caminho do mar passou a receber sucessivas melhorias, iniciando-se então o movimento inverso do tráfego e do desenvolvimento, agora do planalto para o litoral.