domingo, 24 de abril de 2016

(Estrada dos Goayases) - Transcriçãao


Através de registros iconográficos conhecidos, podemos identificar na porção leste da Capitania, em uma região mais próxima a Serra da Mantiqueira, o traçado de uma estrada – a Estrada dos Goiases ou do Anhanguera – a avançar pelos sertões com o apoio de paragens e povoados como Mogi Guaçu, Casa Branca, Batatais, Franca. 

Aberta a partir do descobrimento das “minas dos goiases” em 1722, a Estrada do Anhanguera merecera, a partir de 1726, a concessão de alguns lotes de sesmarias (doados, inicialmente, aos descobridores das minas de Goiás), seguindo-se, entre os anos de 1728/1735, novas concessões voltadas a fixar “criações de gados e cavalgaduras em terras que se acham devolutas”, além de fornecer gêneros, promover a sustentação da estrada e permitir o “augmento na real renda dos dízimos, e taxação aos minérios”. Em 1730, já definida como estrada real, o caminho passaria a contar com “registros nos rios, sesmarias ao longo da rota e a instalação de funcionários reais” no controle e cobranças (BRIOSCHI, 1991, p12).

O “Caminho do Anhanguera” ou “Estrada dos Goyases”, como se tornou conhecida, partia de São Paulo rumo a Jundiaí, passava pelo bairro rural de Mato Grosso (Campinas), margeava a Serra da Mantiqueira e na altura do “sertão da farinha podre” (triângulo mineiro) tomava a direção oeste rumo as minas de Goiás e Mato Grosso. 

Esta estrada, no curso do século XVIII, acabou por fixar pousos, fazendas de gado e de cavalgaduras (que também forneciam gêneros para a sustentação da estrada), além de promover a instalação de povoados (instalações geralmente precedidas/acompanhadas pela obtenção de sesmarias) tornando-se “razão de existência e (..) sobrevivência” dos “primeiros assentamentos populacionais” (BRIOSCHI 1991) que dariam origem as cidades de Mogi Mirim (1769), Mogi Guaçu (1877), Casa Branca (1841), Batatais (1839), Franca (1821), entre outras. 

A “Estrada do Anhanguera”, na altura do “sertão da farinha podre” também dava acesso ao caminho para a comarca do rio das mortes (São João Del Rei) – a “Picada de Goiás” (aberta em fins da década de 1740) – prestando-se a interligar o sul de Minas Gerais ao território goiano. Este caminho possibilitaria aos mineiros disputar com os paulistas o fornecimento de gêneros e criações para os arraiais e vilas goianas e mato-grossenses, auxiliando-nos a compreender o porque do enfraquecimento vivido pela “Estrada dos Goiases” entre as décadas 1740/1800, período no qual praticamente cessaram as distribuições de sesmarias em seu trajeto. 

Na verdade, mais do que uma “via de comunicação e circulação de riqueza”, o “caminho do Anhanguera” cumpria com o papel de dar “razão de existência e (..) sobrevivência” aos “primeiros assentamentos populacionais” (BRIOSCHI, 1991, p13), fixando moradores para, a partir deles, promover a ocupação de uma região desconhecida - característica que permitiu à estrada e a vários de seus pousos sobreviver “mesmo após o surgimento dos primeiros núcleos urbanos da região” (BRIOSCHI, 1991, p18).

Além desta rota, surgiriam outras estradas destinadas a interligar as vilas paulistas com os mercados em desenvolvimento, entre elas: a “Estrada para a Vila da Constituição” - que interligava as vilas de São Paulo a Araritaguaba/Porto Feliz (1797), passando por Itu e Constituição/Piracicaba; a “Estrada para a divisa de Minas Gerais” – que seguia por Juqueri, Atibaia (1769) e Bragança (1797); a “Estrada do Norte de São Paulo”- que interligava São Paulo a Bananal, no Vale do Paraíba, através das atuais Mogi das Cruzes (1611), Jacareí (1653), São José dos Campos (1767), Taubaté (1645), Pindamonhangaba (1705), Guaratinguetá (1651), Lorena (1788), Areias (1816) e Bananal (1832); a “estrada para Ubatuba” (1637), que passava por Santos, São Sebastião e Caraguatatuba (1857); e ainda, o caminho para o Paraná “através de Cotia, São Roque, Sorocaba, Itapetininga e Faxina (atualmente Itapeva)” (MATOS, 2001). 

Em direção oeste também começavam a ser abertos caminhos por terra, entre eles, o “Picadão de Cuiabá”, que rumava para os ainda pouco conhecidos “campos do Araraquara” localizado entre os rios Tietê, Jacaré-Guaçu e Moji-Guaçú. 

Ainda no século XVIII, outros caminhos desempenharam papel fundamental no desvendamento e ocupação dos sertões, a começar pela rota fluvial que, a partir do rio Tietê alcançava as minas de Cuiabá,  desempenhando um papel central no abastecimento de parte da região centro-oeste. Ou ainda, um terceiro caminho aberto por ordem governamental em meados do século XVIII, o “Picadão de Cuiabá”, que pela margem direita do Rio Tietê procuraria alcançar os chamados “campos do Araraquara”, localizados entre os rios Tietê, Jacaré-Guaçu e Moji-Guaçú, em grande medida desconhecidos.

A expansão dos negócios de abastecimento mineiros, por sua vez, viria ocupar um lugar importante na constituição “moderna” do Estado de São Paulo, em especial, na proporção em que suas atividades agro-pastoris começaram a adentrar o território paulista e alterar sua dinâmica interna “de negócios”. Na verdade, o crescimento destas atividades e a penetração de um forte e contínuo contingente de mineiros pelos sertões paulistas da década de 1740 em diante, acabou por promover mudanças profundas no sistema de ocupação e produção original, imprimindo-lhes um sistema e dinâmica de posses, pastagens e criações diretamente associados às relações mercantis. 

Com base, então, em uma outra econômia de subsistência, a colonização dos sertões paulistas começou a ganhar nova configuração, enfraquecendo-se pouco a pouco sua agricultura itinerante tradicional (verdadeira barreira ao fortalecimento das relações de mercado) para dar lugar a um regime de posses, uso da terra e técnicas, organização específica de trabalho e produção voltada para o mercado interno sob moldes mineiros.

De forma concomitante, a dinâmica migratória revelou-se intensa: em pouco tempo passou-se a registrar a presença, ao longo da Estrada dos Goiases, de uma sucessão de posses e/ou sesmarias associadas a pousos que, segundo a obra Entrantes do Sertão do Rio Pardo, assemelhavam-se mais a fazendas especializadas “em atender aos viandantes e às tropas que seguiam pelo caminho”; verdadeiras unidades produtivas que mantinham seus roçados (mandioca, cana, feijões, bananas, algodão, milho, entre outros) associados, muitas vezes, a campos de pastagem e criação de gado vacum, cavalar e suínos, oferecendo não apenas sustentação para a estrada mas o próprio desenvolvimento econômico à Capitania. Em lugar, portanto, da maneira tradicional “paulista” de habitar os sertões (fundada na agricultura itinerante e no convívio - mais ou menos violento - com etnias indígenas), o que começava a se interiorizar eram relações de mercado no próprio trato da terra, das criações e atendimento aos viajantes.

As atividades de abastecimento das paragens passaram, pouco a pouco, a estabelecer relações com outras paragens e a promover uma dinamização comercial entre suas atividades e localidades, transformando-se antigas “bocas de sertão” em “paragens de viajantes”, e em alguns casos, em povoados promotores do desenvolvimento de “novas fronteiras”; localidades estruturadas em “pequenas e médias unidades produtoras dedicadas a diversas atividades voltadas para o auto-abastecimento, para o mercado interno e, mais tarde, para o mercado externo” (MESSIAS,  p20/21).

Através da “Estrada dos Goiases” e dos demais caminhos (terrestres e fluviais) pelos sertões paulistas, as atividades agrícolas e criatórias associadas ao mercado interno ganharam mais uma especialidade no início do século XIX: lavouras extensivas de cana de açúcar e café voltadas para o mercado externo. Estas lavouras começaram a surgir nas últimas décadas do século XVIII na porção sul da Capitania, no chamado “quadrilátero do açúcar” (formado entre as regiões de Constituição/Piracicaba, Mogi Guaçu, São Carlos/Campinas e Itu), em resposta a um conjunto diverso de fatores econômicos e políticos, entre eles, uma nova política governamental que se voltava a promover a ocupação, produção e povoamento do território através da concessão de sesmarias em regiões consideradas estratégicas, da adoção de medidas para a reestruturação do porto de Santos, da melhoria das vias de comunicação entre o planalto e o litoral, ou ainda, da definição de novas diretrizes de comercialização com a Metrópole. (continua)
Fonte: http://hzoom.com.br/en/artigo/146
 
 Parafraseando: É certo que a “Estrada do Anhanguera”, na altura do “sertão da farinha podre” também dava acesso ao caminho para a comarca do rio das mortes (São João Del Rei) – a “Picada de Goiás”. Todavia, a referida "Picada de Goías", também denominada Estrada Real de Pitangui, tem sua origem muito antes, ou seja, nãp foi aberta  em fins da década de 1740. Trata-se de caminho originariamente percorrido pelos paulistas que após a guerra dos Emboabas em 1709, deixaram a região de Sabara. Assim sendo, seguiram em direção a Mato Grosso. Fazendo-se necessário lembrar que, a descoberta de ouro em Mato Grosso, antecedeu a descoberta do ouro em Goiás. Portanto, a primeira itinerário rumo a sertão do Oeste, foi pelo caminho Geral do Sertão, Caminho dos Paulistas, Estrada Real do Sertão, via Vale do Paraíba, interligando o sul e região central  de Minas,  ao território goiano, de Mato Grosso.
Aberta a partir do descobrimento das “minas dos goiases” em 1722,