sábado, 24 de setembro de 2016

"A CASA GRANDE SURTA QUANDO A SENZALA APRENDE A LER" - "SENZALA NUNCA MAIS" - "ALERTA AOS GENOCIDAS" (Transcrição)

"Está é uma das histórias que as penas e a tintas azuis jamais contaram ou, antes procuraram sempre esconder"
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A tirania e a opressão por parte dos que governam esta Capitania  devem ser motivo de preocupação, mas não devem as rebeliões de  negros ser  razões para medo ou incertezas. El-Rei haverá de olhar por esta Capitania e  pôr cobro aos desmandos, sem o que se alevantaria a gente branca de boa cepa e escreveria com sangue a sua independência. Quanto à gentalha em  geral, dando-se tempo ao tempo, tudo se controlará, como sempre, pois, perigo só o haveria se viessem a se constituir  num povo ou nação, o que jamais ocorrerá. Um povo, para surgir como nação, mister é que se una num  passado comum e que tenha suas leis, tradições e heróis para cultuar. Mister é que tenha uma História. Esta, no entanto, só os que têm as luzes do saber é que podem escrever, preservar e cultuar. A oralidade é corrente que pode ser  facilmente quebrada e os mortos não rememoram seus feitos. Os brancos, nesta Capitania e no mundo, são os que estas luzes possuem e, por isto, as outras raças dominam, como Deus assim o determinou sempre. Portanto, deve haver preocupação e providências, mas não há razão para o temor. A intrínseca superioridade branca é inabalável. A própria anatomia dos negros, como têm demonstrado as ciências, circunscreveu-lhes um cérebro muito inferior, o que explica sua natural boçalidade. Os  pardos, caribocas e outras mestiçagens de negros, concentram algum perigo na metade branca que têm, mas, esta, pode ser perfeitamente anulada pela outra  parte negra e boçal que possuem, bastando que se-lhes encaminhe a soberba,  dando-lhes encargos e empregos, mormente no combate à própria gentalha e aos negros, em troca de muitos títulos e pouco ouro, fomentando-lhes sempre  a vaidade. A gentalha sem nome, como a boa prática tem recomendado, não deve ser muito oprimida e nem favorecida e sim, de uma forma lenta e gradual, engajada em postos de meios comandos de  trabalhos, serventias e ordens; o mesmo se pode praticar com os pardos mais claros e com os paulistas. Para que se não perca a ordem das coisas é preciso não descuidar e manter controle sobre as luzes do saber. Estas, se mal distribuídas, podem  ser faca de dois gumes.  Assim como há os símios e outros animais a quem Deus privilegia no aprender aos truques e meneios, *conhecem-se casos de negros que conseguem aprender a ler e a escrever. Isto é um grande perigo e devia ser obstado com um maior rigor,  não se permitindo que as luzes do saber viessem a chegar nem mesmo à gentalha branca e aos  mulatos, pois estes, por chiste ou galhofa, poderiam delas dar rudimentos aos negros e, alguns destes, por eventuais desvios da natureza, poderiam  conseguir assimilá-las tornando-se insolentes e perniciosos ao convívio com os de sua raça e escravaria. Caso escandaloso da espécie se teve exemplo há poucos anos na Real Cidade de Mariana. Um velho padre e professor do Seminário Episcopal da dita cidade alugara por jornal a seu dono, um crioulo, moleque dos seus vinte anos, a quem, para melhor cômodo, passou a utilizar como criado particular e bedel. Em pouco menos de um ano, o negrinho surpreendeu a todos e demonstrou que tinha aprendido, com maior proveito que os alunos, todas as lições de primeiras letras, o ler e o escrever correntemente. Outros  professores, padres incautos, por curiosidade ou por divertimento, cometeram o erro de introduzir aquele  negro - que sem dúvida era um desvio da natureza  - ao aprendizado da língua latina, da filosofia,  da teologia e da moral. Em  menos de dois anos, o dito negro, favorecido pelo demônio, já explanava e discutia com os professores as ciências em que estes eram mestres, distorcendo-as e corrompendo os alunos com idéias escandalosas semelhantes à lepra hebraica. O demônio prosseguiu em sua obra. O dono do negro, arruinado e sem outros ganhos a não ser o mirrado  jornal que pelo escravo recebia do padre, tirou-lhe o  negro e o alugou a um advogado. Este advogado, apesar de  viúvo e padre, era um tratante, falseador de papéis de processos e terras,  mentiroso, lascivo e corrupto. Com ele,  o dito crioulo terminou seu aprendizado mal dito, tornando-se rábula mordaz e finório, rato de cartório e repartição, e falseador hábil de escritos e papéis. Certo dia, a mando do dito advogado, falsificou recibo onde, por escritos e assinatura, seu dono o entregava à propriedade do  dito tratante, em pagamento de honorário e  mezinhas. Seu dono, doente e troncho na cama, ficou sem nada e morreu na  miséria. O castigo, às vezes, vem a cavalo. Dito padre - advogado era mesmo um  birbante e o  negro conheceu de todas as suas patifarias. Um dia não tardou em que dito crioulo falseou os escritos e a assinatura do dito advogado em um documento de manumissão e em outros necessários que fez registrar em câmara e cartório daquela real cidade. Fugiu, deixando a seu mestre de falcatruas uma carta, onde o informava de  que estava levando consigo diversos papéis que faziam sobejas provas de suas velhacarias e que, caso fosse procurado ou preso, entregaria incontinenti tais documentos aos oficiais que o amarrassem. Assim, ganhou sua liberdade o  negro, em prejuízo de todos aqueles que, sem nenhum temor a Deus, ousaram praticar ato tão hediondo e perigoso, como é o ensinar a ler a um negro. Este negro é, hoje, um dos facinorosos mais perigosos desta  Capitania. Inicialmente, após ter fugido de Mariana, viveu de quilombo em quilombo e tornou-se comparsa festejado de toda a canalhada. Apesar de letrado, fez-se, como todo negro que se vê longe do castigo, absoluto e sanguinário, mas o perigo maior que representa está em seus beiços e língua, pelos quais há um prêmio de trezentas oitavas de ouro, a quem lhos cortar. Por isto, deram-lhe o alcunha de O Beiçado. Por onde passa, introduz-se em meio à escravaria, a quem bate os beiços e solta da língua maldita palavras  corruptas como a lepra hebraica, fazendo perderem-se legiões de escravos que fogem de seus senhores e vão para os quilombos por ele indicados. Até mesmo aos pretos forros e à gentalha branca tem contaminado, enchendo-lhes os corações de revolta e sublevação contra El-Rei.