domingo, 18 de setembro de 2016

ECOS EM SÃO PAULO DA GUERRA DOS EMBOABAS. (Transcrição)

Capítulo XV
ECOS EM SÃO PAULO DA GUERRA DOS EMBOABAS. ORGANIZAÇÃO DA COLUNA DE AMADOR BUENO DA VEIGA VINGADORA DO MORTICÍNIO DO CAPÃO DA TRAIÇÃO. MALOGRO DESTA EXPEDIÇÃO. A HÁBIL POLÍTICA DE ANTÔNIO DE ALBUQUERQUE COELHO DE CARVALHO. PACIFICAÇÃO DOS ESPÍRITOS. A CRIAÇÃO DA CAPITANIA DE SÃO PAULO E MINAS DO OURO. ELEVAÇÃO DE SÃO PAULO A CIDADE CAPITAL
A TENSÃO de relações entre paulistas e emboabas reflete-se nítida nas Atas da Câmara de São Paulo e pela primeira vez em fins de 1707.
Os primeiros ecos nos acontecimentos sanguinolentos das Minas Gerais ressoam nas Atas a 15 de fevereiro de 1709. Lança a Câmara Paulistana alto brado de solidariedade, em solene e orgulhosa atestação dos direitos de sua gente sobre aquele território “nossa conquista”.
Apelava para o veredicto de uma assembléia popular.
Foi então que “a instância e requerimento no Povo, todos universalmente e todos por uma voz, elegeram por cabo universal para qualquer invasão e defensa da pátria, bem comum dela e sua conservação ao Capitão Amador Bueno da Veyga, a quem haviam de obedecer como a seu cabo maior em tudo o que fosse em prol do que assim ficava dito”.
Cento e dezessete cidadãos acompanharam a Câmara. A assinatura de Amador Bueno da Veiga, o eleito Cabo Maior, foi a primeira que surgiu após as dos oficiais.
A ela se seguiram as de muitos homens notáveis do bandeirantismo.
Curiosas as declarações restritivas de dois personagens da mais alta importância, em uma república: Pedro Taques de Almeida que declarou “assino constrangido” e Manuel Bueno da Fonseca que ainda mais longe foi: “Assino constrangido e molestado”.
Quatro meses decorreram antes de se porem os paulistas em marcha para o revide do morticínio no Capão da Traição.
Interessante a declaração que Amador Bueno da Veiga deixou perante os camaristas. À expedição qualificava de “viagem para as Minas por bem da pátria”.
A 24 de agosto clamou a câmara à sua presença o Cabo Maior e fez-lhe observações graves. Levaram estas o caudilho a compromissos sérios, tendentes a demonstrar que acima de tudo eram os paulistas leais vassalos de Sua Majestade.
Sabedor no que ocorria com São Paulo alvoroçou-se o recém-nomeado Capitão-General Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, a quem incumbira D. João V a pacificação na zona mineira. Empossado do governo, a 11 de junho de 1709, no Rio de Janeiro, partiu imediatamente para as Minas. Ali, como se sabe, obteve a submissão de Nunes Viana, excluído, aliás, da anistia régia, indo então a São Paulo, a ver se conseguia aplacar a justa ira dos paulistas.
Foi então que em Guaratinguetá encontrou acampado o corpo de exército de Amador Bueno da Veiga.
Não conseguindo desarmar os paulistas, e receoso de desacato, retirou-se para o Rio de Janeiro. Fracassou, porém, como tanto é sabido, a campanha de Amador Bueno ante a resistência dos emboabas assediados no Rio das Mortes mais tarde São João d’El-Rei. Hábil político de largas vistas começou Albuquerque a entabolar negociações com a Câmara de São Paulo a quem enviou um retrato de D. João V.
Era El-Rei que, embora em efígie, visitava os seus bons vassalos.
Assegurava-lhes anistia geral e proteção, para que no território mineiro, por eles descoberto, garantias houvesse, plenas, para todos os súditos da Monarquia.

A 22 de agosto escrevia D. João V ao seu delegado longa carta sobre a guerra dos Emboabas e seu feliz término.
Como complemento deste notável documento, a 8 de novembro de 1709, surgia a carta régia, criando a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, autônoma, desligada do governo fluminense. E dela era provido Antônio de Albuquerque.
Com muito tato procurou o hábil e prudente delegado régio atrair a boa vontade dos seus jurisdicionados de suspeitosa fidelidade.
Nada mais brando nem mais político do que a carta que, a 26 de fevereiro de 1710, endereçou à Câmara de São Paulo, enchendo-a de promessas da mais elevada tolerância.
A 12 de junho de 1710 era novamente empossado, agora solenemente, em São Paulo, onde a Câmara tomara providências especiais para a sua recepção. Festa extraordinária devia ser esta. Chegado Albuquerque, os paulistanos o receberam com grandes demonstrações de júbilo e deferência.
Não tardou que convocasse junta geral de satisfação a estes bons e leais vassalos.
E deste meeting soleníssimo se fez não menos solene auto declarando que os convocados haviam, com toda atenção e obediência de verdadeiros vassalos, convindo uniformemente que a vista de S. Majestade se ter dignado de querer dar nova forma de governo, “a esta Conquista para reparo da atenuação dela ocasionada com as inquietações das minas, e sua alteração, não podiam duvidar em obedecer ao dito Senhor e em continuarem o mesmo Comércio, e continuação às minas, e sua assistência, na certeza de que se conservaram as que nelas assistiam, com justiça, e sem vexação alguma ocasionada pelos forasteiros”.
Depois desta ressalva essencial assentou-se que de forma alguma seria inquietado o livre trânsito dos paulistas que da região mineira quisessem voltar às suas terras.
“Pareceu uniformemente a assembléia que se devia representar a S. Majestade a pouca, ou nenhuma observância que tinham as suas reais ordens expedidas para o sal, desobedecidas pelos contratadores”.
Além da carência do fornecimento havia a vergonhosa exploração dos povos pelos monopolistas, insaciáveis escorchadores.
Assim procurasse o Governador conseguir que fossem algumas sumacas de Santos a buscar o gênero onde quer que o achassem, a fim de ser vendido por preços justos e acomodados. Para remédio de tão grande dano, permitisse e ordenasse S. Majestade navegassem diretamente do Reino para Santos dois navios, carregados de sal, anualmente.
Esperava a Junta, da real grandeza de Sua Majestade, fosse servido mandar considerar os danos que se seguiam dos muitos caminhos abertos para as minas. Não só pelo que daí resultava como descaminho dos reais quintos, como de por eles se introduzirem pessoas prejudiciais. Assim se deveria trancar o Caminho Novo para o Rio de Janeiro para que só o de São Paulo existisse como sucedia quando principiara a lavra das minas.
“E da mesma sorte pedia desde logo a S. Majestade que Deus guardasse e lhe seria proposto pela Câmara desta vila a justa razão com que merecia que S. Majestade a autorização com a mercê de lhe fazer Cidade desta dita vila.”
“E, quando possível fosse, dar-lhe também Bispo, pois a distância em que viviam os do Rio de Janeiro, e as dificuldades que lhe ofereceram sempre para virem visitar estas suas ovelhas as tinha posto na maior necessidade e falta.”
Respondeu Albuquerque, que tudo envidaria a fim de que as suas ações correspondessem à obrigação em que se achava de amparar e favorecer os povos de São Paulo conservando-os pacíficos como S. Majestade lhe ordenava, pois fiava de todos eles que soubessem assim merecer.
Entendeu o sensato delegado régio de ótimo alvitre pleitear estas pretensões junto ao monarca. 
 Grande domínio exerceu, embora de longe, sobre os seus governados, sendo os provimentos que fez das maiores autoridades da capitania acatados com a máxima deferência.
Afinal, a 11 de julho de 1711, surgiu a nova carta régia. Passava São Paulo a condecorar-se com o título de cidade! Mas quanto à sua elevação a diocese El-Rei contemporizava! Tratava-se de pagar! e como pagadores os Senhores Reis mostravam-se sobremodo timoratos.
Eis o teor do documento de agraciamento do título de cidade a São Paulo: “Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho – Amigo – Eu El-Rei vos envio muito saudar.
“Havendo visto a proposta dos oficiais da câmara da vila de São Paulo, e o que sobre ela me escrevestes, principalmente a em que me pedem se lhe dê o nome de cidade à vila e Igreja Catedral com bispo, fui servido por haver por bem que a vila de São Paulo tenha o nome e título de cidade. E assim vos ordeno o façais praticar e publicar, mandando registrar esta minha ordem nos livros da Secretaria desse Governo e Senado da Câmara e partes aonde convier. E sobre a concessão da Catedral e bispo, me pareceu ordenar-vos me informeis do número de famílias que há nessa vila e nos mais da terra e gente das minas e donde poderá sair à despesa que se há de fazer com a nova Sé e côngrua do bispo e cônegos.”
Aliás com esta decisão pagava El-Rei em palavras um pouco da grande dívida que dizia haver contraído para com os paulistas. A 2 de março de 1711 ordenava a Antônio de Albuquerque agradecesse à Câmara de São Paulo “o amor e empenho” que haviam demonstrado quando do assalto de Duclerc ao Rio de Janeiro.
Verificava-se a velha aspiração paulistana tão legítima e contrariada em fins do século XVII pela relutância, não menos legítima, mas desarrazoada, dos vicentinos.
Daí em diante jamais esqueceram os escrivães de lançar a indicação: “Em a casa do Senado da Câmara.” E realmente elevada São Paulo a cidade, passava o Conselho vilarejo a nobre Senado.
Com a entrada do governo dos delegados Régios, munidos de tão latos poderes, obumbrar-se-ia a velha e soberba autonomia municipal paulistana.
Indo para as Minas Gerais o Capitão-General, entendeu a Câmara de São Paulo, a 4 de julho de 1712, provocar do Rei, formal explicação.
Seria realmente a sua cidade a capital da Capitania Geral de São Paulo e Minas do Ouro?
Esta o Rei lha deu por carta a 16 de dezembro do mesmo 1712, esquecendo-se, porém, que já elevara a vila a cidade: “Pareceu-me dizer-vos que a assistência dos governadores há de ser nessa vila de São Paulo, como cabeça principal dessa capitania, porém, isto não tira que ele possa ir a todas aquelas terras, e partes, que a necessidade o pedir e for mais do seu serviço.”
Foi um ato de prudência e providência este do Senado paulistano estabelecer a praxe de que a cerimônia de posse dos eventuais sucessores de Albuquerque ocorreria sempre em São Paulo.
Assim se deu com os seus substitutos imediatos, D. Brás Baltasar da Silveira, em 1713, e D. Pedro de Almeida Portugal, Conde de Açumar, em 1717. 
Fonte:História da Cidade de São Paulo, de Afonso d’Escragnolle Taunay http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/0006-01759.html#xix