domingo, 16 de outubro de 2016

A DOUTRINA FEITA AOS ÍNDIOS Brasil, século XVI José Maria de Paiva ∗ UNIMEP (Transcrição)

O encontro com os habitantes da terra.
Na mentalidade então vigente, os portugueses só concebiam a possibilidade de um único mundo, o mundo cristão, representando a única realidade possível e a qual, portanto, todos os povos deviam reconhecer. Por isto, as cruzadas. Por isto, a preocupação exacerbada com a conversão dos infiéis e, no caso, dos gentios . Esta mentalidade já se põe presente no primeiro documento do achado da terra:
                         ... não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qual quer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso
Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. (CAMINHA, 1963: 60)
 
                           A vida portuguesa se realizava sob a ótica da fé cristã que, mais que a nacionalidade, algo que mal se esboçava na Europa, significa união e comunhão. A concepção cristã de mundo, de ordem social, não conferia direitos iguais para todos, senão    
um a função para cada parte do corpo social, função que devia ser executada, com pondo o  todo da sociedade. Insisto neste aspecto para que o leitor se represente vivida mente as relações sociais, os agires sociais, sem a preocupação de harmonizá-los, mas atento à
diversidade de interesses imediatos e, portanto, à existência de conflitos, uns e outros  pendendo sem pre do entendimento  religioso/sagrado fundante da concepção de mundo  portuguesa. Os diversos fazeres da vida social, com o governar, fazer guerra, comerciar,  pregar a doutrina, etc., tudo isto se explicitava segundo o entendimento do  mundo  radicalmente  cristão. Não há por que se espantar da dominação imposta aos povos que não  aceitavam a sua fé, nem das guerras, nem do uso de mão-de-obra, nem da imposição dos  costumes cristãos, nem dos castigos, etc.: tudo refletia a visão unívoca do universo.  Os portugueses, encontrando aquigentios, com eles praticaram o seu  entendimento de mundo. O rei manda, sim, os padres da Companhia de Jesus  especialmente para sua  doutrinação. Tarefa específica. A  conversão, porém, interessava a  todos e todos deveriam realizá-la. Por mais distantes que capitães, mercadores, senhores de  engenho, exploradores do sertão e demais funções parecessem (para nós) estar do processo de  conversão, todos eles, na hora de prestar conta do que faziam, reconheciam que tinham procedido exatamente para atender a este objetivo fundamental decorrente da  visão de  mundo que lhes era própria e que eles diziam fé . Mais do que qualquer outro testemunho,  os autos da Inquisição o com provam.  A conversão  se chamaria, hoje, incorporação, num desenho evidentemente  religioso: um povo estranho, fazendo-se cristão  (português), estaria assemelhado a todos os demais cristãos. As diferenças, que ocorreriam , seriam de posição social, segundo a  imagem do corpo. Fundamentalmente, todos,  igualmente, com poriam o corpo social,  segundo suas competências, disso resultando o bem com um.  A  doutrina  feita aos índios deve continuar a ser analisada de acordo com os  conflitos de interesse imediato – jesuítas, ordens religiosas, clero secular, senhores de engenho, mercadores, capitães, etc.  – mas, se iluminada pela visão corporativa de  sociedade, recompõem-se distorções de interpretação e torna-se possível um a maior  sensibilidade para entender o modo com o os portugueses quinhentistas sentiam sua própria situação. Em outras palavras, a compreensão da realidade pela lente do  sagrado unifica o olhar, a interpretação e os atos de todos os portugueses, sem contudo estabelecer  uniformidades ou harmonia. As diferenças se fazem possíveis porque sustentadas por um a  referência com um vivenciada por cada um, a seu modo portanto. A assim ilação dos  gentios via  conversão  os fazia  cristãos, iguais aos demais  cristãos.  Por outro lado, a vida portuguesa continuava, segundo toda a tradição:  primeiramente, a crença no modelo absoluto de afirmação da realidade; daí resultando o  respeito às posições sociais e aos direitos  delas derivados; os quefazeres sociais e as  profissões decorrentes; o entendimento da prática mercantil em nível global, obrigando à  produção; e, acima de tudo, os fundamentos  religiosos da viver social. Havia, pois, que se descobrir a competência  dos índios, pela qual contribuiriam para o bem da república.  Nenhum estrato social português  – nem o clero, pois; nem a Companhia de Jesus  –  teve  dificuldade em o assinalar: eles serviriam para o trabalho braçal, onde fosse necessário, e para a defesa. A forma de serem produzia, no entanto, ambiguidades nas relações  – os  índios feitos realmente  cristãos
mas se com portando destoantemente – delas tirando os  portugueses argumento para procederem com mais determinação em função dos seus  próprios interesses e conveniência. 3
A doutrina, que se lhes fazia, tem que ser percebida com o exigência cultural  dos  portugueses; nos termos, pois, em que a eles se punha. Era condição  a prioridade incorporação. Mas,  doutrina, os próprios portugueses a viviam
diversamente; e, segundo o  grau de exigência pessoal ou grupal, exigiam-na dos  gentios. Os jesuítas os queriam com prometidos com a prática ritual (batismo, assistência à missa e à pregação, práticas devocionais, conformação com os  bons costumes, etc.). Muitos senhores de engenho não se sentiam envolvidos com esse tipo de prática proposto pelos jesuítas e, consequentemente, não viam necessidade dela para os índios. Nem por isto não os queriam cristãos.  Simplesmente, seu entendimento do que fosse  ser cristão estava condicionado pela própria vivência. A vivência se tornava a medida da  conversão e, enquanto tal, de confrontos. É interessante observar o entusiasmo jesuítico dos primeiros anos, batizando largamente2, com o se apenas o dizerem querer ser cristãos já satisfizesse a assimilação da  fé. Os capitães, por certo, os senhores de engenho, os mercadores, se satisfariam com o batismo: tratariam, doravante, com cristãos , i.e. com gente de sua sociedade, nos termos  dispostos por sua sociedade. Os jesuítas perceberam que só o batismo não garantia os  bons costumes e começaram a ser mais rigorosos. Os de mais não se incomodavam muito com os  bons costumes, inclusive porque eles próprios eram mais largos nessa matéria. Nesta prática de efeito social inventava-se um modo próprio de ser cristão, tanto no que tocava ao índio quanto no que dizia respeito aos próprios portugueses.  Desta forma, pensam os focar a doutrina aos índios  no contexto do entendimento cultural português quinhentista. Só em segundo plano distinguirem os interesses imediatos  de um ou outro grupo social (senhores de engenho, exploradores do sertão e jesuítas  sobretudo).  Na prática, são estes interesses  que ditam os rum os das ações. Na análise,  porém , há que se enfatizar a trama cultural  que circunstancias os significados, inclusive  desses mesmos interesses.  O quadro, em que se realiza o encontro portugueses/índios, não se põe no  abstrato, em termos de hipóteses, mas deve se r compreendido na sua historicidade. Há que  se observar a razão do estabelecimento dos por tugueses nestas terras e as circunstâncias  que constituíram o contexto desse estabelecimento. Destaco o caráter de conquista,  subentendendo pois o poderio militar dos portugueses, o índio acontecendo como um dado  a ser conformado em função dos objetivos  definidos. Neste texto, quero destacar dois  aspectos desse encontro: o entendimento cultural que os portugueses tiveram do índio e,  segundo, o próprio português sob o impacto da novidade que lhe acontecia.
Fonte: IX Simpósio Internacional - Processo Civilizatório http://migre.me/vgbzs