domingo, 16 de outubro de 2016

O maravilhoso mundo "reencontrado" na América Portuguesa Por Ana Cristina Araújo

A interferência da mitografia edénica no processo de exploração da América hispânica e  portuguesa constitui a temática central da obra de Sérgio Buarque de Holanda,  Visão do Paraíso.  Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil Este estudo arrojado e pioneiro  é, no entanto, passível de aprofundamento e  de revisão crítica no que toca à apropriação,  circularidade e reversibilidade do paradigma simbólico utilizado para "baptizar" o Novo Mundo. Recorrendo a um vasto manancial de fontes: literárias, cosmográficas e teológicas,  Buarque de Holanda examina as diferentes  modalidades de representação e projecção das  ideias e crenças dos primeiros inventores do continente americano, com o objectivo de  demonstrar o efeito de refracção provocado pelo deslocamento do imaginário europeu no  espaço atlântico. Por esta via, não afasta essa espécie de ilusão original dos fundamentos  remotos da História do Brasil, embora reconheça que: "O gosto da maravilha e do mistério,  quase  inseparável da literatura de viagens na era dos grandes  descobrimentos marítimos,  ocupa um espaço singularmente reduzido nos  escritos quinhentistas dos portugueses sobre o  Novo Mundo" 1 . O comedimento assinalado não decorre apenas da estranheza ou da resistência à novidade que a longa experiência de contacto com outros povos e lugares,  igualmente estranhos e exóticos, proporciona va aos navegadores portugueses, é antes o resultado do desfasamento espacial gerado pela convicção de que os sinais sobrenaturais  deixados pelo rasto da criação divina se concentravam noutra direcção, isto é, a Oriente e não  a Ocidente. Só a índia ou as regiões adjacentes ao Gion bíblico (Génesis, II, 13) - um dos  quatro rios cujo curso, identificado com o Nilo, derivava do Paraíso terrestre - podiam abrir  caminho, de acordo com a cosmografia cristão ocidental, à primitiva morada do homem. No  quadro da regularidade de uma certa visão do mundo, a fantástica demanda lusa do  maravilhoso cristão, ao reforçar o fascínio  pelo Oriente, vinha responder ao desejo de  identificação de uma herança sobrenatural  comum ao Ocidente. A este respeito, é  esclarecedor o investimento memorial centrado  na celebração da chegada de Vasco da Gama  à índia, na medida em que os símbolos que objectivam, no discurso das artes e da literatura,  a mensagem ecuménica e messiânica da ideologia imperial da dinastia de Avis-Beja, repetem  os signos da origem da cristandade e do reino no espaço físico do império 2 . No âmbito desta  identidade da memória, D. Manuel, recorrendo ao bom ofício dos homens de letras, procura  tornar patente, através da cronistica, da arquitectura, da escultura e da pintura, o universo  mítico que herda, instaurando um "tempo monumental" (P Ricoeur), de recorte legitimador,  que,  simbolicamente, principia e termina a Oriente.
Fonte:  * Professora auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de História da Sociedade e da Cultura http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2830.pdf