quarta-feira, 26 de outubro de 2016

* Memórias de um escravo inglês no Brasil por Loraine Slomp Giron *(Transcrição)

Muitos têm sido os lançamentos editoriais ocorridos em 2007 sobre
a História brasileira; dentre eles está  As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony de Knivet: memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomaz Cavendish e foi abandonado no Brasil entre índios canibais e colonos selvagens , de autoria de Anthony Knivet que ganha sua terceira edição em Língua Portuguesa. A obra deixada fora da série publicada pela Universidade de São Paulo (USP) de relatos de cientistas e viajantes estrangeiros, a partir da década de 70, clamava por nova publicação. As memórias sobre o Brasil colonial quinhentista escritas por europeus são poucas e raras. Dentre elas estão  Viagens e aventuras no Brasil, de Hans Staden, marinheiro alemão aprisionado pelos índios tupinambás no litoral do Rio de Janeiro, em 1554 que conseguiu escapar após três anos, voltando para Europa em 1557, escreveu suas lembranças sobre o Brasil. O sucesso editorial do livro influenciou outros autores e, mais do que isso, marcou o Brasil como terra exótica povoada por canibais selvagens. Então havia sido perdida da memória a antropofagia dos homens primitivos, e julgava-se que o canibalismo fosse fruto da selvajaria americana. Outros autores seguiram Staden, mas não tiveram o mesmo sucesso editorial. Em 1558, André Thevét publica Singularidades da França Antártica ; em 1567, Ulrico Shmidel, a História verdadeira de uma viagem curiosa feita por U. Shmidel e, em 1578, Jean de Léry, a Viagem à terra do Brasil.  Fechando o ciclo de memórias de aventureiros que passaram pelo Brasil no século XVI, estão as de Anthony de Knivet. Intituladas  As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony de Knivet: memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomaz Cavendish e foi abandonado no Brasil entre índios canibais e colonos selvagens,  nome bem ao gosto da época, que foram publicadas em 1625. As edições Knivet vendeu seu manuscrito contendo suas memórias escritas, após sua volta para a Inglaterra, ao pesquisador inglês Richard Hakluyt, que planejava uma série de obras sobre viagens e conquistas inglesas. Após a morte de Hakluyt, Purchas comprou os manuscritos de Knivet, para completar a série de memórias. A obra foi publicada na Inglaterra, como parte da coleção Hakluytus Posthumus or Purchas his Pilgrimes in Five Bookes,  organizada por Samuel Purchas. A coleção visava a revelar ao público as vantagens do colonialismo inglês. O período elizabetano, apesar de seu esplendor cultural, foi pouco propício à Inglaterra, em relação ao colonialismo, durante o qual a hegemonia política mundial pertencia ao império espanhol. Entre 1580 e 1640, a Espanha era a maior potência mundial com a anexação dos domínios coloniais de Portugal, entre os quais estava o Brasil. O relato de Knivet sobre o Brasil era importante para o conhecimento da então colônia espanhola que interessava à Coroa inglesa. Apenas em 1625, o relato foi publicado na Inglaterra em coleção organizada por Samuel Purchas. Knivet estava vivo na época da publicação. É possível que tenha notado e até concordado com as modificações realizadas em seu texto por Purchas, especialmente no terceiro capítulo. Logo após a publicação do livro, o manuscrito desapareceu. Com a perda do original, a referência para a tradução tem sido a edição inglesa de 1625. A primeira edição da obra de Knivet em português foi feita à de 1878, que se baseou na versão holandesa de 1706. A nova edição em português, realizada em 1947, foi traduzida a partir da edição inglesa de 1625. A terceira edição da obra foi publicada no Rio de Janeiro, em 2007, pela Jorge Zahar Editores; foi organizada e anotada por Sheila Moura Hue, apoiando-se, nas notas geográficas no artigo de Teodoro Sampaio: Peregrinações de Antonio Knivet no Brasil que reconstitui o roteiro percorrido por ele no Brasil. O artigo do geógrafo Sampaio foi publicado em 1914, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A tradução cuidadosa de Vivien Kogut Lessa de Sá especialista em literatura inglesa elizabetana, foi feita a partir da edição inglesa de 1625. Sendo um livro precioso, sob o ponto de vista histórico, poderia ter mais ilustrações e uma mais bem cuidada apresentação.
As memórias de Knivet
As memórias de Knivet sobre a expedição de 1591, conduzida por Thomas Cavendish (ou Candish), que pretendia realizar a segunda viagem de circunavegação, foi frustrada, e não foi a única. Sobre ela existem outros relatos, um dos quais do próprio comandante, outro de autoria de John Jane tripulante da nave Desire e, por fim, a de Thomas Lodge. Em relação à viagem de Cavendish, as memórias de Knivet, reles marinheiro, acabam no Litoral da Ilha Bela, mas sobre o Brasil e suas gentes seu relato é único. Knivet filho bastardo de um nobre inglês que se engaja na expedição de Cavendish em busca de fortuna, tinha a cultura própria da sua classe e de seu tempo. Observador arguto e possuindo grande facilidade para as línguas, permaneceu no Brasil como escravo de Martim Correia de Sá, por dez anos, de 1591 a 1601. Levado para Portugal por seu amo, continua escravo; trabalhando como intérprete no porto amealhou recursos para voltar à Inglaterra. Na sua pátria escreve memórias, que são vendidas ao editor Hakluyt. Dadas as relações familiares, consegue um emprego público na Royal Mint (casa da moeda) onde permanece até 1649. Suas memórias estão divididas em cinco partes: na primeira, conta a chegada ao Brasil até seu aprisionamento; a segunda, trata da sua estada no Rio de Janeiro e suas viagens pelo interior do Brasil ; a terceira narra suas provações na selva e sua tentativa de fuga para Angola; a quarta parte trata das várias tribos de selvagens existentes e, finalmente, na quinta fornece a descrição dos vários rios, portos, enseadas e ilhas do Brasil – para orientar os navegadores. Cavendish teve sérios problemas a bordo: muitas doenças e feridos nas batalhas travadas entre sua esquadra e os portugueses. Ao chegar na ilha de São Sebastião, em 1591, lembra Knivet: “A primeira coisa que se fez foi abandonar os homens doentes em terra para cuidarem de si  mesmos.” (KNIVET, 2007, p. 62). Ainda que muito doente, sendo jovem e cauteloso conseguiu sobreviver ao abandono ao contrário de seus outros companheiros que morreram envenenados por um tipo de ervilha selvagem. Ao abandonar a praia cheia de mortos, encontra outros marinheiros abandonados por Cavendish. Atacados pelos portugueses e auxiliados por escravos índios, os ingleses são derrotados. Após a vitória, os portugueses matam 28 ingleses, poupando apenas dois, um dos quais Knivet. Martim Correia de Sá comandava as tropas. Leva suas tropas e os dois sobreviventes de barco, para o Rio de Janeiro, onde o governador da capitania confirma a condição de escravo de Knivet, sendo seu proprietário Correia de Sá. Como escravo, trabalha na lavoura de cana de açúcar. Como apresentava facilidade para as línguas foi mandado aacompanhar algumas das expedições promovidas por seu dono, na caça e compra de escravos índios. Conheceu assim o Litoral dos atuais estados de São Paulo, Rio de Janeiro, seguindo a trilha dos sertões mais tarde percorrida pelas bandeiras de 1599 e 1600, chegando ao sertão mineiro. Em suas viagens, assiste a cenas de canibalismo e de genocídio. As primeiras protagonizadas pelos nativos, e as segundas, pelos portugueses. Vivendo dois meses entre os Tamoios, presenciou a morte e as refeições preparadas com carne humana. Suas descrições acerca do canibalismo são vívidas e terríveis, mas ainda assim isentas de preconceito. As viagens realizadas no sertão em busca de escravos índios revelam seu modo de ver o outro com uma certa fleuma e isenção de espírito, procurando entender o modo de vida do nativo, com o qual comercia, convive e chacina, dada sua condição de escravo. Ele escreve: “Nessa aldeia carijó encontramos uma enorme quantidade de comida: mandioca, farinha de milho, batatas, bananas, abóboras e tudo o mais que a terra dá, em abundância.” (KNIVET, 2007, p. 127). Completa logo: “Fizemos trezentos prisioneiros entre homens e mulheres, que os Tamoios mataram e depois devoraram.” (p. 127). Os portugueses se lançam sobre as tribos dos Tamoios, “ matando todos os velhos e mulheres, ao todo dez mil”. (p. 129). Outros 20 mil foram feitos escravos. Na narrativa objetiva de Knivet, o português é tão ou mais assassino do que os canibais, palavra que usa no texto como sinônimo de selvagem e de índio, a palavra usada por Colombo, para designar os Caraíbas, torna-se, no fim do século XVI, sinônimo do nativo americano.  Segundo a narração de Knivet, o Brasil em 1591, era uma terra de muitos povos e muitas gentes. Tribos de Tamoios, Carijós, GoitacasesTemininós, entre outros, que lutavam entre si e tinham preferências por um ou outro dos muitos invasores de suas terras. Eram nativos que viviam, plantavam e comercializavam com outras tribos e com navegantes de povos europeus diversos. Pelo Brasil passavam ingleses, holandeses, alemães e os muito estimados franceses que realizavam comércio com os nativos e lutavam contra os portugueses. Knivet, na frase que serve de epígrafe à de seu livro (introdução do livro) resume sua posição: “Preferi colocar-se nas mãos da piedade bárbara dos selvagens devoradores de homens do que a da crueldade sanguinária dos portugueses.” (2007, p. 9). Tendo fugido algumas vezes de seu amo cruel, busca abrigo com os Tamoios dizendo-se francês. Dessa fora, como hóspede da tribo, vivência a bravura do chefe Abauçanga que lutou até a morte contra os portugueses preferindo morrer “como homem livre e grande guerreiro, a se tornar escravo”. (p. 132). A obra é fundamental para o estudo da História do Brasil quinhentista, período em que ainda os nativos viviam como parte integrante da colônia espanhola, seu número era tão grande e suas atividades tão variadas que a colônia parecia pertencer a eles e não aos portugueses, grandes predadores dos povos nativos americanos. Um tempo que merece ser conhecido. Fonte:  MÉTIS: história & cultura  – GIRON, Loraine Slomp.  p. 297-301, jul./dez. 2007 297 ** Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) e  Professora na Universidade de Caxias do Sul (UCS).  E-mail: loraines@terra.com.br Loraine Slomp Giron * Memórias de um escravo inglês no Brasil link - http://migre.me/vlMya