domingo, 30 de outubro de 2016

Na Capitania de São Vicente Washington Luís 1.º Parte

Capítulo XIX - Nicolau Barreto  - Chegando a um sertão do Brasil, onde escassearam os víveres e onde, segundo informações de um indígena aprisionado, havia muitas tribos selvagens, conforme narra o roteiro de Guilherme Glymmer, a bandeira de André de Leão regressou a S. Paulo, sem descobrir minas e sem cativar índios.
Sendo pequena em número, 60 a 70 homens, e com poucos mantimentos, a bandeira não ousou prosseguir no descobrimento, nem fazer a guerra ao gentio numeroso e inimigo, que lá se achava.
A causa, pois, do insucesso dessa expedição foi sua organização deficiente em pessoal e em mantimentos, causa facilmente removível diante da pertinácia de d. Francisco de Souza, absorvido completamente em descobrir as minas de ouro e prata, já procuradas desde o Norte do Brasil, não trepidando ele em deixar a sede do governo, na Bahia, para vir encontrá-las partindo do Sul. Promoveu ele a organização de outra expedição muito mais numerosa e convenientemente abastecida, de modo, a devidamente explorar e descobrir a região tão procurada. 
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Azevedo Marques na sua Cronologia, pág. 224, informa que:
"em agosto de 1602 parte de S. Paulo para o sertão numerosa bandeira ao mando de Nicolau Barreto, em direção de Mogy das Cruzes, com o fim ostensivo de descobrir ouro. Dela fizeram parte pessoas importantes daquela época, tais como Simão Borges de Cerqueíra, fidalgo da Casa Real, Ascenso Ribeiro, Pedro Leme, Manuel Preto, Francisco de Alvarenga e outros."
Cita como fonte dessas informações o inventário de Ascenso Ribeiro, no cartório de órfãos de S. Paulo. Este inventário de Ascenso Ribeiro não foi encontrado no Arquivo Público do Estado de S. Paulo, por mais cuidadosas que tivessem sido as pesquisas feitas por Manuel Alves de Souza, encarregado pelo Governo do Estado de S. Paulo, de traduzir, copiar e publicar os inventários lá recolhidos do Cartório de Órfãos, e desejoso esse paleógrafo de cumprir as instantes recomendações que lhe haviam sido feitas.
Outros inventários, porém, publicados pelo Arquivo, vieram esclarecer, precisar e preencher lacunas da breve, contudo preciosa, notícia recolhida por Azevedo Marques.
Assim o inventário de Brás Gonçalves (Inv. e Test., vol. 11, pág. 9 e segts. e o de Manuel de Chaves, idem, V. 1º, pág. 459 e segts.) confirmaram a existência da bandeira comandada por Nicolau Barreto; ela porém partiu, não em agosto, mas nos princípios de setembro, porque esses dois bandeirantes, que nela tomaram parte, ainda se achavam em S. Paulo nos primeiros dias de setembro, e aí assinaram, neste mês, setembro, documentos de dívida, com o fim de obter recursos pecuniários para a entrada que fizeram na companhia de Nicolau Barreto (Inv. e Test., vol. 1º, pág. 486, vol. 11, pág. 17).
A partida em princípios de setembro se confirma na vereança de 8 desse mês na qual o único vereador do ano de 1602, restante na vila, Josepe de Camargo e o povo "por não haver oficiais e se irem todos os mais fora, elegem dois juízes, um vereador e um procurador do conselho que sirvam na ausência dos mais" (Atas, vol. 2º, pág. 109).
É lógico supor-se que indicando o mês de agosto para a partida da bandeira, Az. Marques se tenha apoiado em documentos de dívida, idênticos aos que se encontram nos inventários de Braz Gonçalves e de Manuel de Chaves, e que permitem agora marcar a partida da bandeira para princípios de setembro. Essa diferença de poucos dias para a partida não invalida a informação amplamente confirmada.
No seu livro História da Companhia de Jesus (vol. 1º, pág. 189 em nota) o padre Pablo Pastells transcreveu em nota, e na íntegra uma carta do padre Justo Mancilla van Surck, escrita da Bahia, a 2 de outubro de 1629, ao geral da Companhia de Jesus, em que descreve com cores vivas, e, com palavras veementes, acusa de crueldade os costumes paulistas de então, dizendo que "no ano de 1602 (?) foi de S. Paulo a buscar e trazer índios Nicolau Barreto, com licença de seu irmão Roque Barreto, capitão da terra, com capa de descobrir Minas".
Assim, quer com documentos municipais, quer com os jesuíticos, se mostra não haver dúvida alguma quanto à ida de Nicolau Barreto ao sertão, com "cerca de 270 a 300 homens", e mais índios escravos.
Acrescenta Azevedo Marques que a bandeira partiu em direção a Mogi das Cruzes. Quis ele designar não o destino, mas o itinerário e o fez pelo nome atual de uma das primitivas paragens que anteriormente foi chamada Mogi, designação que não ignoram os que cuidadosamente estudam a toponímia de S. Paulo.
É ele, mesmo, Azevedo Marques, que, sob o verbo Mogi das Cruzes, nos seus Apontamentos, informa que, em tempos remotos, tal localidade se denominou Bogi, que se transformou em Mogi com o acréscimo das Cruzes, porque no adro da primeira matriz, que lá houve, existiram plantadas três cruzes. Aí Braz Cubas, segundo ainda o mesmo informante, tinha uma fazenda de cultura em terreno compreendido em uma grande sesmaria obtida em 1560, e que começava abaixo da serra e ia até o cimo. Era uma paragem, bem conhecida na época da partida da bandeira, essa de Bogi, nome corrompido em Mogi, e mais tarde transformado em Mogi das Cruzes. Pedro Taques conta que foi Braz Cardoso o fundador da povoação de Mogi das Cruzes, em 1602, ereta vila em 1º de setembro de 1611 (História da Capitania de S. Paulo).
Bogi... Mogi... são modificações da mesma voz pronunciada pelos índios tupis e que eram grafadas conforme permitiam as poucas letras dos escrivões da época. É freqüente, nas Atas da Câmara, nos testamentos, no Registro das Sesmarias, encontrar-se o nome da mesma localidade ou duma mesma tribo indígena, escrito de macio diferente, na mesma página, nas páginas seguintes, e, em anos subseqüentes, como já disse, podendo-se ver as transformações de tal nome até a sua fixação atual.
Nas concessões de datas de terras nessa paragem se pode acompanhar a evolução dessa palavra, até se consolidar na atual Mogi das Cruzes.
Assim (livro 1 de Sesmarias, publicação do Arquivo de S. Paulo) o capitão-mor Gaspar Conquero concedeu a 24 de janeiro de 1609 a Francisco Vaz, terras pelo "... ombiaci para a banda da Paraíba, defronte de uma serra que se chama Tapeti, no Boixi miri (vol. 1º, pág. 38).
A 10 de novembro de 1609 o mesmo Gaspar Conquero deu a Fulano Rodrigues, morador em S. Paulo, uma légua de terra na banda dos campos de Utacurubitiva no caminho "que Gaspar Vaz fez e que vai para Boigi mirim a saber partindo da barra dum rio que se chama Guayoó... e correrá avante até dar no Rio Grande de Anhembi" (idem, vol. 1º, pág. 66)
A 27 de fevereiro de 1610, ainda Gaspar Conquero concedeu uma sesmaria ao clérigo João Álvares, natural da vila de S. Paulo, filho e neto de conquistadores, assistente em Boigi-mirim, uma légua de terra em quadra, que começará a partir pelo caminho para o dito rio da Paraíba e fica... para o Rio Anhembi (idem, v. 1º, pág. 90).
A 1º de abril de 1610, mais uma vez esse capitão-mor concedeu a Domingos Agostin em Boigi-Mirim uma légua de terra do outro lado do Anhembi partindo com Gaspar Vaz (idem, vol. 1º, págs. 91 e 92).
A 15 de março de 1611, Amador Bueno, morador em S. Paulo, em petição ao capitão-mor Gaspar Conquero, declarando que está informado que junto a Maria Álvares, dona viúva, mulher que foi de Manuel Eianes, perto de S. Miguel, aldeia dos índios, estão terras devolutas para a banda de Mogi, as pede etc. (idem, vol. 1º, pág. 145).
Por Aguiar Barriga é concedida em Mogi-Mirim, a Manuel da Siqueira e a Francisco Bicudo, moradores em S. Paulo, filhos e netos de povoadores e conquistadores, uma légua de terras, nas cabeceiras do padre João Alvres e outros, que com elas partem, rio acima em Taquaquecetiba no termo da vila de Santa Ana da outra banda do Anhembi (idem, vol. 1º, págs. 252 e 253).
A 4 de janeiro de 1641 é concedida a João Portes de El Rey e outros, filhos e netos de povoadores e conquistadores desta capitania, na vila de Santa Ana das Cruzes de Mogi-Mirim duas léguas de terras de matos daninhos pelo rio arriba à mão esquerda do Rio Anhembique (idem, vol. 1º, pág. 418).
Nessas sete sesmarias – das quais as duas primeiras trazem a data de 1609, época muito próxima à da partida da bandeira de Nicolau Barreto – nessas sesmarias o nome e escrito de diversas maneiras; mas as indicações locais, que o acompanham como a Serra Tapeti, que fica na vizinhança de Mogi das Cruzes, o rio Anhembi, a barra do Rio Guaiaó, a aldeia de S. Miguel, Tacuaquecetuba (acidentes geográficos e povoações intermediárias entre S. Paulo e Mogi das Cruzes), Boacica, o Rio Paraíba, as confrontações coincidentes com Gaspar Vaz e com o padre João Alvres, levam a identificar, sem dúvida alguma, Boigi, Mogi, Mogi-Mirim com Sant-Anna das Cruzes de Mogi-Mirim e afirmar que Mogi-Mirim, antiga povoação que se fez na sesmaria de Braz Cubas, fundada por Braz Cardoso, criada vila em 1611, elevada a cidade em 1855, é a atual Mogi das Cruzes.
Avisadamente andou Az. Marques indicando em 1872, época em que escreveu os seus Apontamentos, "Mogi das Cruzes" como sendo a direção da bandeira de Nicolau Barreto, porque, se o fizesse com o nome contemporâneo da entrada, estabeleceria confusão com uma outra localidade, mais tarde chamada, e ainda hoje, "Mogi Mirim", situada próxima ao Rio Mogi-Guaçu, afluente do Rio Pardo. 
Fonte: http://www.novomilenio.inf.br/sv/svh072t.htm 
Parafraseando: Acrescenta Azevedo Marques que a bandeira partiu em direção a Mogi das Cruzes. Quis ele designar não o destino, mas o itinerário e o fez pelo nome atual de uma das primitivas paragens que anteriormente foi chamada Mogi, designação que não ignoram os que cuidadosamente estudam a toponímia de S. Paulo. Relativamente ao itinerário, foi este, o mesmo percorrido por Andre de Leão. Por outro lado, percorrendo no inicio itinerário diferente, Anthony Knivet, Adré de Leão, e Nicolau Barreto, seguiram a mando de Dom Francisco de Souza o mesmo destino percorrendo o rio Paraiba até o Guaipacaré, em demanda da Serra da Mantiqueira.  Em conclusão no que diz respeito ao destino, os relatos de Guilherme Glymmer, conincide com os relatos de Anthony Knivet e fundamenta os relatos trazidos a respeito da Bandeira de Nicolau Barreto.