quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O Mito Negro – Cap. III de “Tornar-se Negro” de Neusa Santos Souza (Transcrição)

Cap. III – O Mito Negro
O mito é uma narrativa mais ou menos fantasiosa de uma realidade social. É o que nos adverte Neusa Santos ao dizer o que decorre quando a natureza toma o lugar da história e o mito se instaura. O mito tem a função de naturalizar e cristalizar certas relações sociais e se apresentar como um tipo de verdade e criar uma nova realidade feita de fantasia, ilusão e verosimilhança. Assim o mito adquire a condição de dissolver simbolicamente as contradições que existem ao seu redor.
Por isso, o mito é uma fala do poder para o povo – só se torna mito aquilo que cai na boca do povo, que se torna senso comum. O mito é um discurso – verbal e visual – do exercício de um poder, uma forma de comunicação sobre qualquer objeto, seja ele uma coisa, a própria comunicação ou a pessoa. O mito é assim uma fala competente que “objetiva escamotear o real, produzir o ilusório, negar a história, transformá-la em natureza”.
Como um instrumento da ideologia, “o mito é um efeito social” que se forma para ocultar certas relações de poder na sociedade. Um mito é tão mais eficaz quando “cai na boca do povo”, quando se torna senso comum. Nesse sentido é que o mito resulta de determinações econômicas, politicas, ideológicas e é também um produto psíquico. Como produto do psiquismo o mito é um conjunto de representações ordenadas pelo processo primário, pelo princípio de prazer e pela ordem do imaginário. Desse modo, o mito estrutura algumas relações sociais fundamentais e outras que são próprias da formação do sujeito. O mito serve ainda para re-ligar pelo sacrifício ritual a nossa existência com a transcendência.
O “mito negro” é uma variável que produz o “problema negro” e que se apresenta em três dimensões:
1. pelos próprios elementos de sua composição;
2. pelo poder do mito de determinar e estruturar o espaço ocupado pelo negro historicamente como objeto histórico;
3. pelo desafio que impõe ao negro como sujeito histórico.
Neusa Santos observa que o “mito negro” se impõe como um desafio a todo negro que recusa o destino da submissão, já que se tornou constitutivo da sua estrutura psicológica e da própria estrutura social.
O “mito negro” se apresenta como o desafio do mito o da Esfinge grega (“Decifra-me ou te devoro”) oferecido para negros e não negros. Portanto, afirma Neusa Santos que “é vital apodera-se do conhecimento, desvendar a resposta e assim destruir o inimigo para seguir livre”. Ainda que, caiba a negros e não negros esta tarefa, cabe fundamentalmente ao negro ser a vanguarda desta luta “assumindo o lugar de sujeito ativo, lugar de onde se conquista uma real libertação”, diz.
O “mito negro” se impõe com a marca do insólito rompendo com a identificação que é uma característica da função do mito. Diante do “seu” mito, o negro vai “tornar-se (um) negro” com a marca da diferença que o desumaniza, isto, onde deveria existir a identificação. Com a incorporação da diferença em lugar da identificação, o negro em comparação ao branco se inferioriza e subalterniza, torna-se exótico. Este processo resulta em manter o negro permanentemente em estado de alerta (defesivo/agressivo) e lhe impondo uma “natureza negra”. Assim, o negro que acredita no “mito negro” passa a se ver com os olhos, a falar com a linguagem do dominador e por fim acredita também em traços de uma superioridade sensível ou sexual que são aquelas mesmas que “simbolizam uma verdadeira inferioridade e que definem ‘a besta’ (citado de Florestan Fernandes)
“Você é um negro!” Funda uma diferença baseada numa negação, numa oposição ao branco como ideal de ser, daí abre-se o espaço para a formação dos estereótipos que vão alimentar, o racismo, os preconceitos, as desigualdades, a infelicidade e a subordinação. Fonte: http://migre.me/vaaul