terça-feira, 15 de novembro de 2016

8 O mito religioso do Peabiru - OS PRIMEIROS CAMINHOS DO LITORAL AO PLANALTO PAULISTA: um rol de dúvidas, confusões, enigmas e mitos por Antonio Joaquim Andrietta1

Associados ao caminho do Peabiru há alguns mitos de cunho religioso, em que se misturam tanto as crenças indígenas quanto até as cristãs dos primeiros missionários que se dedicaram à catequese, segundo autores dessas correntes históricas. O Sumé é o mais antigo, e seria um personagem branco, de grande estatura, origem desconhecida e poderes sobrenaturais. Entre outros ensinamentos, teria ensinado aos indígenas da costa brasileira o cultivo da mandioca e, ao tentar introduzir outras crenças religiosas entre eles foi hostilizado de tal sorte que se retirou para o Oeste, em direção ao Peru. Nessa ocasião, usando seus extraordinários poderes, à medida que caminhava. à sua frente ia se formando a trilha demarcada, de oito palmos de largura e dois de profundidade, forrada com uma gramínea fina e leve. Alguns associam o trajeto do caminho com aspectos astronômicos, visualizando no ziguezague da trilha a posição de determinadas estrelas de constelações da Via Láctea, visíveis nas latitudes do hemisfério sul. Conta-se que os primeiros missionários teriam indagado aos indígenas quem construíra o Peabiru, e ao ouvir o nome Sumé, acreditando que somente forças sobrenaturais o pudessem faze-lo, entenderam Tomé, ou São Tomé, o Apóstolo de Cristo, que por aqui teria andado em trabalho de evangelização, quinze séculos antes. Outro mito é o yvy maraey (a “terra sem mal”) ou yvyju miri (a “terra perfeita”), o paraíso, que se encontraria além da “grande água” (o mar). Corrente entre os índios Guaranis do Paraguai e da Argentina, dos grupos Mbya e Nandeva, eles partem em busca desse lugar mítico, e se fixam nas faixas do litoral atlântico, numa posição aparentemente ambígua: o mar representa tanto um obstáculo a atravessar para atingir o alvo, como um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, terminal, pois ali a vida vai acabar. Este mito tem sido desenvolvido mais recentemente, por várias correntes indigenistas, na procura de justificar as migrações desses grupos para o litoral brasileiro, onde constituíram aldeias de uma a duas centenas de indivíduos, algumas delas reconhecidas (ou em processo de reconhecimento) como “reservas” ou “terras indígenas” (TIs) pelos governos federal e alguns estaduais. Hoje, algumas dezenas dessas aldeias se espalham pelo litoral desde o Rio Grande do Sul até o Espírito Santo8 . No Estado de São Paulo essas migrações se iniciaram no começo do século XX com os Guarani-Nandeva e, a partir de 1970 com os Guarani-Mbya, que convivem na maioria das aldeias, mas hoje os Mbyas superam os primeiros na população total, que está em torno de 1.700 a 1.800 indivíduos9 . Distribuídos em 14 TIs, três se localizam no município da capital do estado, sendo duas na região sul, no distrito de Parelheiros, próximas entre si, e nas imediações de onde a Trilha dos Tupiniquins atingia o planalto de Piratininga vinda de São Vicente, e a terceira no Pico do Jaraguá, na região norte. As demais estão localizadas no litoral, sendo seis na região da Baixada Santista, entre São Vicente e Peruíbe, três no litoral sul (uma em Iguape e duas em Cananéia) e duas no litoral norte (uma entre Bertioga e São Sebastião e outra em Ubatuba). Coincidência ou não, a maioria das aldeias dos Guaranis está no percurso, ou nas proximidades, da Trilha dos Tupiniquins, embora não haja registros da existência desses grupos indígenas no território à época do início da colonização portuguesa. Os Carijós foram dados como extintos, no território paulista e nas províncias do Sul antes do final do século XVII10. Porém, é possível que parte deles tenha se refugiado em matas inacessíveis entre o Paraguai, a Bolívia e as respectivas fronteiras com o Centro-Oeste brasileiro, ou mesmo na Argentina. A tradição oral das lendas indígenas, passadas de geração em geração, poderiam ter chegado aos atuais Guaranis, tanto para a busca da “Terra sem Mal”, quanto para o percurso pelas trilhas do Peabiru. Quiçá sejam eles os únicos que ainda possam indicar os vestígios atuais desses antigos caminhos, se ainda existirem. Santo André, novembro de 2004.
Fonte: O autor é professor e pesquisador universitário, estudioso da colonização, povoamento e desenvolvimento posterior do Estado de São Paulo. http://migre.me/vvo5C