quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A "CAPITAL" DO BANDEIRISMO (Transcrição)

O fato dominante da história de São Paulo, durante o seiscentismo, é á expansão das Bandeiras. O reduzido núcleo de povoamento, que se condensara e consolidara no século XVI, passava a exercer uma função nova, como centro irradiador das famosas penetrações de sertanistas: função de desbravamento e de conquistá, tão considerável por suas relevantes consequências para a formação territorial e política do Brasil, mas que de modo algum concorreu para o desenvolvimento urbano, demográfico e econômico da vila paulistana. Inicialmente impulsionado pelo Governador-Geral D. Francisco de Souza (63), ampliou-se espontaneamente o movimento das Bandeiras, sob a influência de incoercíveis imperativos, sobretudo econômicos, ativando-se continuamente até fins do seiscentismo. Movimento assim tão vasto estimulou as melhores iniciativas, absorveu as energias mais varonis da população válida, atraída pela miragem do sertão, onde o bandeirante aventuroso esperava descobrir a sonhada prosperidade, que lhe negavam as limitadas possibilidades econômicas dos campos de Piratininga. A partir da Regência do Príncipe D. Pedro de Portugal (1667), voltou a Corôa, avidamente interessada na descoberta de minas, a incentivar os sertanistas de São Paulo, mediante a concessão de favores, títulos e honrarias. E só quando foram localizadas as primeiras jazidas auríferas, começou a declinar o movimento, ao qual sucedeu a época da mineração e do povoamento regular das terras anexadas ao domínio português, em virtude dessa expansão. Foram predominantemente econômicas as causas do Bandeirismo. Era notória a pobreza da vila, como atestam os inventários paulistas da época colonial, paciente e argutamente analisados por Alcântara Machado (64). Era frisante o contraste entre o escasso valor das lavouras de São Paulo e a opulência dos engenhos de açúcar do Nordeste. Daí, na vida paulistana do século XVII, a . importância do sertão misterioso e ignorado, "por os moradores não poderem viver sem o sertão", como declararam os Oficiais da Câmara, numa vereança de 1640 (65), ou porque muitos partiam, à maneira de Afonso Dias, "...a buscar minha vida neste sertão...», conforme depõe com simplicidade aquele sertanista, em seu testa mento (66). Entretanto, nesse traiçoeiro El-Dorado, o bandeirante muitas vezes encontrou menos a riqueza que os simples meios de subsistência, não raro achando apenas a miséria ou a morte. O primeiro móvel econômico das Bandeiras foi a escravização do indígena . Já existia a escravidão, desde os primórdios do povoamento em São Vicente. E, em 1548, um observador coevo calculava, para a Capitania de Martim Afonso de Souza, cerca de 3.000 escravos, numa população em que havia somente 600 brancos (67).
  A necessidade de mão-de-obra para as roças e fazendas locais, a utilização de arcos e flechas para a guerra e a. defesa dos colonos, mais ainda a procura de braços para os latifúndios açucareiros do Nordeste, durante o domínio holandês, quando ficou temporariamente interrompido o tráfico de negros africanos — todas essas causas determinaram o desenvolvimento das Bandeiras de apresamento ou de caça ao índio, de "cunho francamente guerreiro" (68). Com a decadência do Bandeirismo de apresamento (69), o objetivo econômico das expedições passou a ser a busca de minas de ouro e pedras preciosas, que assume maior vulto com a heroica arrancada de Pernão Dias Pais, no sertão mineiro, a partir de 1673. Desde então, multiplicaram-se as Bandeiras do ciclo do ouro, no rumo das Minas-Gerais, desviado depois para Mato Grosso e Goiás, quando o advento dos Emboabas provocou o interesse por novos descobertos auríferos. O elemento humano por excelência das Bandeiras foi o mameluco paulista do século XVII, audaz, vigoroso e fragueiro, afeito ao meio geográfico em que se desenrolava sua espantosa aventura. _Essa gente mestiça — a "raça de gigantes", na consagrada frase de Saint-Hilaire (70) — produto do cruzamento do português com o índio, herdara das duas raças geradoras as qualidades típicas do sertanista, apuradas pela consanguinidade e a endogamia, no isolamento do planalto (71). Aqueles homens fortes e rudes, que se lançavam ao continuado devassamento do sertão remoto, tudo empenhavam — robustez física e energias morais, cabedais e crédito, na organização da Bandeira. "Sociedade de capital e indústria", definiu-a Alcântara Machado (72), na qual o bandeirante (a exemplo do que se verifica no comércio marítimo) muitas vezes recorria ao "armador", que lhe fornecia os elementos para a "armação" da entrada: escravos, correntes, armas, munições de guerra e de boca, e •as famosas couraças acolchoadas de algodão (73). Dessa empreitada febril, que assume aspectos de quase migração desordenada, todos participam — homens feitos, anciões, 
adolescentes e até filhos de menor idade, que os pais incluem nas expedições. A vila ficou, por vezes, despovoada, "despejada pelos moradores serem idos ao sertão", conforme reza uma Ata municipal de 1623. E o formidável movimento não se detém nem mesmo diante dos obstáculos erguidos pela natureza agreste, das ciladas do bugre hostil, da penosa escassez de alimentos ,do desconforto e das fadigas de intermináveis jornadas, em suma das mil dificuldades que o rudimentar aparelhamento das Bandeiras mal podia vencer (74) . Surpreende, por isso, que, assim providas de meios tão parcos, tenham as Bandeiras atingido limites tão extremos, palmilhando terras do Paraguai e da Argentina, ao devassar o sertão meridional, no encalço da escravaria indígena, raiando pelo sertão nordestino e pelo vale do Amazonas em expedições de guerra ao gentio rebelde, embrenhando-se pelo sertão centro-ocidental, em busca do ouro. Essa prodigiosa expansão, que ensejou triplicar o domínio colonial português, a oeste do meridiano de Tordesilhas, e formar a imensa base territorial do Brasil hodierno, foi condicionada por fatores geográficos especiais, a começar pela posição da vila paulistana. Por sua situação, como centro demográfico isolado no planalto, era São Paulo o ponto de convergência e partida das vias de penetração para as regiões do Sul é do Centro-Oeste do país (75). No rumo do Sul, além das modestas elevações dos terrenos da série São Roque, abriam-se os caminhos até o vale do Paranapanema e de seus afluentes da margem esquerda, em demanda das "missões" mantidas pelos Jesuítas espanhóis, em terras do atual Estado dó Paraná. O vale do Tietê norteava a penetração para Oeste, á partir de Araritaguaba (Porto Feliz), permitindo alcançar o rio Paraná e seus tributários da margem direita, em terras. de Mato Grosso. Ainda no rumo do Brasil Central e facilitado pelas linhas do relevo, o caminho que levava ao atual Triângulo Mineiro, passando por Jundiaí, Campinas e Franca, assegurava o acesso aos planaltos de Goiás e à região de Cuiabá. E o centro montanhoso de Minas Gerais atingia-se Pelos vales modelados nos contrafortes ocidentais da Mantiqueira (na atual região de Atibaia e Bragança), bem como pelo vale do médio Paraíba do Sul, ao qual - se chegava sem obstáculos, através da região de Mogi das Cruzes, bastando vencer a linha divisora de águas do Tietê-Paraíba. Estes ustimos  caminho, tão bem descrito por Antonil (76), conduzia ao sopé da Mantiqueira, onde os sertanistas logo descobriram colos transporníveis, como a garganta de Embaú, nas proximidades do antigo povoamento de Guiapacaré (atual Lorena). Eméritos pesquisadores (77) esquematizaram admiravelmente essas vias de penetração e de acesso, fixadas através de caminhos explorados pelas Bandeiras e traçados conforme a disposição da rede hidrográfica, que evidentemente as favorecia (78). Em pleno surto do Bandeirismo, reforçou-se aquele espírito de autonomia,. que se vinha definindo desde o século XVI. Plenamente cônscios do vulto de seus arrojados cometimentos, experimentavam os bandeirantes o sentimento cada vez mais vivo de uma comunidade paulista, quase inteiramente isolada, no seio do império português. Em suas destemerosas empreitadas, os paulistas não recuavam diante de imposições das autoridades lusitanas, agiam contra as leis restritivas da escravidão, procediam como régulos nas regiões senhoreadas pelas Bandeiras (79). Essas manifestações autonomistas, que culminaram no episódio da tentativa de aclamação de Amador Bueno como Rei, em 1641, ainda perduraram até fins do seiscentismo (80) e primeira década do século XVIII (81). Em 1693, o Governador do Rio de Janeiro, Antônio Pais de Sande, inforrnava o Rei D. Pedro II, a respeito dos paulistas: "são homens briosos, valentes, impacientes da menor injúria, ambiciosos de honras, amantíssimos de sua pátria, benéficos aos forasteiros e adversíssimos a todo ato servil". Em meio a essas afirmações de independência, agravou-se o conflito com os Jesuítas, infatigáveis protetores do gentio, que acabaram sendo expulsos da vila em 1640, por ação conjunta do povo e dês autoridades municipais (82). Entrava assim em declínio a antiga -função religiosa, tão decisiva nas origens do primitivo povoado piratiningano. Restaurados pouco mais tarde, continuariam, porém, os padres da Companhia de Jesus a desempenhar papel de .relevo no ensino, em seu tradicional Colégio (83 ).
Fonte: SÃO PAULO NOS TEMPOS COLONIAIS. http://migre.me/vzmSj pág 69/74