terça-feira, 15 de novembro de 2016

A COLONIZAÇÃO NO GUAIRÁ (1554-1632) E SUAS RELAÇÕES COM O SISTEMA ECONÔMICO COLONIAL - CAP.4 GUAIRÁ E BANDEIRISMO NA ECONOMIA COLONIAL. por FABIANO MOURÃO VIEIRA (Transcrição)

A reprodução da força de trabalho na América colonial, quando não se estava conectado ao circuito do tráfico negreiro do Atlântico Sul, sempre permanecia como alternativa, a exploração da mão-de-obra indígena, atitude esta com forma variável e inconstante, possuindo características distintas como fusão interétnica, subordinação do indígena ou colono, coação ou aliança, dependendo quase diretamente das características do sistema econômico que se desenvolvia. São Paulo tinha em suas proximidades numerosas aldeias tupis-guaranis, permitindo o estabelecimento de colonizadores com estabilidade. Os indígenas eram imprescindíveis, e são eles que num primeiro momento irão indicar as possibilidades de fixação dos povoamentos. Para o desenvolvimento econômico da colônia, as regiões deveriam se articular de alguma forma com o comércio intracolonial ou interatlântico. Mesmo precariamente, excentricamente, São Paulo conseguiu manter alguma articulação, que irá balizar as direções tomadas por seu sistema econômico durante o século XVII. As respostas para os estímulos provenientes do comércio e da expansão rural só puderam progressivamente ser formuladas com a existência de uma região fornecedora de mão-de-obra capaz de manter não apenas a estabilidade do sistema, mas a sua expansão. Esta região foi o Guairá A presença de portugueses no Guairá começou logo cedo, chegando parte da expedição enviada por Martim Afonso de Souza, como já visto, no rio Iguaçu, em 1532. Em 1553, já se achariam portugueses atravessando o Guairá em direção à Assunção, onde negociavam alguns escravos. Os campos de Piratininga foram um local que permitiu um seguro desenvolvimento de São Paulo, e em geral teve-se preferência pela morada no planalto. A possibilidade de extensa agricultura e pecuária sem precisar derrubar  florestas, a garantia de posições estratégias adequadas para os núcleos populacionais diante gentios indomados, e principalmente a proximidade de terreno de tais características do litoral, serão parte de um privilegiado local que determinará o pnncípio da colonização do planalto, tornando-se desde logo, o centro das atenções e irradiações para o interior da colônia. 150 Em 1570, foi editada a proibição do escravo indígena, salvo os aprisionados em guerra justa, afinal, a escravidão se fazia necessária. Obviamente, passaria desapercebida pela maioria dos colonos, sendo relevante apenas na esfera jurídica da sociedade. Foi no final do século XVI que se teve o início do que se convencionou denominar como ciclo das bandeiras de apresamento. O controle dos ataques indígenas, a maior estabilidade da população do planalto bem como a crescente escassez dos índios próximos, levam às primeiras bandeiras, como a de 1585, de Jerônimo Leitão, dirigindo-se ao Guairá, a fim de capturar índios carijós, atitude legitimada pela "guerra justa". Os cativos foram distribuídos na Capitania, para São Paulo, Santos e São Vicente151 . Quatro anos antes, em 1581, Jerônimo Leitão encontrava-se em bandeira almejando os tememinós. Pouco a pouco, as bandeiras substituíam os aldeamentos e a captura de índios das localidades, então em queda demográfica vertiginosa, como resposta à falta de "braços" para os núcleos de povoamento da Capitania. No período de 1590-5 tem-se a pacificação do planalto de Piratininga, com o controle das parcialidades indígenas, marcando o início definitivo do processo de expansão agrícola paulista, marcado posteriormente pela triticultura. O trigo parece ter importância desde 1579, quando Juan Bautista Gesio, em descrição geográfica do Brasil, cita sua existência em São Vicente152 Porém desapareceria até sua reintrodução por Francisco de Souza já no século XVII. 
Francisco de Souza também dará o impulso definitivo para as bandeiras. Governador da capitania, ao incentivar a busca por metais preciosos, desenvolveu indiretamente as bandeiras de apresamento. Com o fracasso das expedições mineradoras, os bandeirantes obtinham, aos olhos da época, a única riqueza existente nos sertões, os tupis. A busca de minerais preciosos só será utilizada como "desculpa" para a organização das bandeiras de apresamento. Eram justificadas também pela alegação de recaptura de índios fugitivos. Como resultado, temos a bandeira capitaneada por Nicolau Barreto em 1602-03, cativando índios tememinós. Em 1606 ou 1607 teremos Manuel Preto cativando tememinós e tupanaés, e um ano depois, será a vez da bandeira de Belchior O. Carneiro. Em 1610, bandeiras ligadas às minas de ferro de Sorocaba capturam tememinós e guaranis no Guairá.153 Em agosto de 1611, O. Luis de Souza, governador de São Paulo, permitiu que caciques fossem ao sertão do Guairá buscar seus parentes para que trabalhassem nas minas, atitude na qual consentiam os padres da Companhia de Jesus, de São Paulo., gerando invasões em 1611 e 1612.154 Sem dúvida tal atitude fora um legado da tradição política de incentivos às bandeiras promovida por O. Francisco de Souza, pai de O. Luís. Em 1611, Pedro Vaz de Barros capturou guaranis, e quatro anos depois, nas bandeiras de 1615 autorizadas por Oiogo de Quadros, capturaram-se mais de 600 carijós. Em 1623 tivemos outra grande bandeira com destino ao Guairá Grande parte da população paulista encontrava-se no "sertão" e a Câmara de São Paulo recebia reclamações a respeito da ausência de índios para realizar o transporte de São Paulo à São Vicente. A invasão holandesa no recôncavo baiano alarmou as demais capitanias com a iminência de ataques holandeses por toda a costa brasileira. Em junho de 1624, pouco após a investida no nordeste, São Paulo é informada sobre a possibilidade de um ataque holandês às capitanias sulinas. A necessidade de milícias, armas e munições disponíveis para mobilização leva a proibição das bandeiras, e mesmo assim, tentativas eram feitas. Em 1626, Gaspar Gomes foi reprimido por ir ao sertão, e ainda no mesmo ano, Bartolomeu Bueno e João Pimentel foram acusados de preparar ida ao sertão. Esta sequência de acontecimentos procurou ilustrar a evolução das bandeiras de apresamento. Vejamos agora como as bandeiras fazem com que o Guairá assuma importância e se conecte com o sistema econômico colonial na costa brasileira e em São Paulo.

Fonte: A COLONIZAÇÃO NO GUAIRÁ (1554-1632) E SUAS RELAÇÕES COM O SISTEMA ECONÔMICO COLONIAL http://migre.me/vvlOd